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Brasil MODO DE VIDA

Será que a bagunça e a acumulação pura e simples podem definir perfis de inteligência?

Será que a criatividade está diretamente ligada à desordem?

27/05/2021 17h25
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Por: Mhario Lincoln Fonte: EL PAÍS/BRASIL
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Capa: Recriação fidedigna do estúdio londrino de Francis Bacon realizada em Dublin com objetos do pintor. (Getty).

Proliferam as teorias que relacionam diretamente a criatividade à desordem, pelo menos tanto quanto as que vinculam ter um espaço de trabalho organizado com a produtividade. Seja você partidário de que um pouco de bagunça é imprescindível para desenvolver a imaginação ou seja você pró-Marie Kondo, é surpreendente ver a quantidade de gênios que trabalharam ou viveram, muitas vezes misturando as duas coisas, mergulhados no caos.⁠

O acúmulo de pincéis, latas de tinta e objetos variados nos estúdios dos pintores é uma constante, mas no caso de Francis Bacon, britânico de origem irlandesa, há uma coisa particularmente impressionante: o tamanho reduzido de seu espaço de trabalho, apenas um quarto com claraboia. Bacon manteve durante toda sua vida uma preferência pelos lugares pequenos. Chegou a comprar um apartamento espaçoso e luminoso, mas pouco tempo depois acabou voltando para apartamento de um quarto e cozinha.⁠

Anos atrás, Anthony Cronin deu uma explicação muito freudiana para a preferência do pintor pelos espaços estreitos e escuros: aparentemente, quando era criança, Bacon ficava muitas vezes sob os cuidados de uma babá ou uma amiga de sua mãe que tinha um relacionamento com um jovem soldado. Quando ele a visitava, o casal queria estar sozinho, mas o pequeno Francis os interrompia constantemente, o que levou a mulher a resolver trancá-lo em um armário no andar superior, onde ele permanecia durante horas. Daí a fixação posterior do artista pela estreiteza.⁠

ARQUIVO ALFONSO SÁNCHEZ PORTELA.

Um dos espaços míticos da Madri literária − descrito, por exemplo, no romance Las Máscaras del Héroe (as máscaras do herói), de Juan Ramón de Prada − era o escritório do criador das greguerías, a famosa torre no número 4 da rua Velázquez, no atual Hotel Wellington. Ali se acumulavam bugigangas, máscaras, espelhos, a famosa boneca de cera de tamanho natural com a que convivia… As imagens da época mostram o escritor e humorista preso em um autêntico horror vacui que o levava a colecionar compulsivamente todo tipo de imagens e a cobrir com colagens e fotomontagens seus pertences. Os objetos originais se perderam quando Gómez de la Serna se mudou para Buenos Aires, mas pode ser visitada uma recriação no Museu de Arte Contemporânea de Madri.

Mark Zuckerberg.

No caso de Mark Zuckerberg − uma mesa ‘vivida’ - As imagens do polêmico criador do Facebook trabalhando em seu escritório são infinitamente analisadas, e delas se tiram principalmente duas lições. Primeira: você precisa tapar a webcam do seu computador. Segunda: uma mesa de trabalho desorganizada, “vivida”, normal, na qual se acumulam livros, cabos e garrafas de Gatorade, não é incompatível com ser multimilionário.

Louise Bougeois.

E quando a Louise Bourgeois − a agressividade do íntimo -  os dois andares adjacentes no bairro nova-iorquino de Chelsea nos quais a artista viveu com sua família permanecem praticamente inalterados desde sua morte, em 2010, como uma cápsula do tempo. De um lado, uma galeria e biblioteca em que se expõem alguns de seus trabalhos e do outro, a residência, que não está aberta ao público em geral, mas cujas fotos mostram a tênue desordem em que viveu a autora das icônicas esculturas de aranhas. Um espaço no qual a domesticidade foi desaparecendo − ela deixou de usar o forno depois da morte de seu marido, em 1973 − para se transformar em um espaço de trabalho.

A caixa de pinturas desarrumada, tal qual ela a deixou; a parede descascada transformada em um mural em que pendurava recortes, fotografias (com Damien Hirst ou Bono) e cartas; lembranças e bugigangas acumuladas nos cantos e, sobre a lareira, números de telefone escritos por ela diretamente na parede. Um espaço tão íntimo e agressivo como a própria obra de sua proprietária.

Original e integral: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/15/cultura/1550236325_184393.html?ssm=IG_BR_CM&utm_campaign=later-linkinbio-elpaisbrasil&utm_content=later-17511042&utm_medium=social&utm_source=linkin.bio

 

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