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"A imagem de um paraíso feito de um circo de ervilhas é fantástica!". Joema Carvalho ao analisar livro de Mhario Lincoln

Três versos de "A Bula dos Sete Pecados", livro de poesia de Mhario Lincoln

24/01/2022 às 19h32 Atualizada em 24/01/2022 às 20h11
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joema Carvalho
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Joema Carvalho e Mhario Lincoln
Joema Carvalho e Mhario Lincoln

Relendo os poemas do Mhario Lincoln

Joema Carvalho, poeta, escritora, ativista cultural e membro efetivo patronal da Academia Poética Brasileira

"A flexão verbal, 'ervilhar', transforma-se em fazer ou falar bobagens, não dizer coisas serias. Ou, o paraíso não é sério, nunca foi. Portanto, a imagem de um paraíso feito de um circo de ervilhas é fantástica!" (JC sobre a poesia A Lagarta com Chapéu de Dedal).

“A Poética não é tanto um tratado de arte, quanto uma investigação filosófica sobre o fazer poético e a inserção prática das artes na boa formação dos homens. O propósito da Poética é o de definir a natureza e função da poesia (aspecto filosófico) ainda que apresente algumas instruções aos poetas (aspecto artístico). Há que se observar que para Aristóteles, filósofo grego, a poesia tem algo de filosófico, a poesia é mais filosófica que a história, por exemplo, pois enquanto esta se atém ao factível e particular, a poesia pode se direcionar ao universal” (1). 

Um poema é síntese concentrada. Dificilmente, irá existir uma mesma leitura a respeito de um mesmo poema, feita por pessoas diferentes ou pelas mesmas pessoas em momentos diferentes. Dificilmente, o leitor irá acertar o que o autor pretendia com o que escreveu. 

O ato da escrita é desapego. Um poema é um texto para ser lido e relido, com risco de um mesmo leitor, ter diferentes leituras sobre um mesmo poema. A liberdade poética deve ser verdadeira para quem escreve e para quem lê.

Foi publicado no Facetubes um texto meu sobre o livro do "A Bula dos Sete Pecados", do Mhario Lincoln (2). No final de 2021, no Maranhão, o Mhario, presidente da APB, recebeu várias homenagens em função do seu trabalho. Dentre elas, na LIVE coordenada pelos professores Dino, Neres e Linda (3), com a publicação e análise de alguns dos poemas dele.

Quando li os poemas nesta homenagem vieram muitas imagens, algo surreal. Quando escrevi o meu texto sobre o Livro “A Bula dos Sete Pecados”, estas imagens não foram tão evidentes, tive outras percepções. Uma leitura ou algumas leituras nunca são suficientes.

A liberdade poética permite que o trem da memória passe pela nossa porta e que nos faça questionar como estamos no nosso próprio caminho, quem somos neste tempo: “Todos os dias/ Passa o trem da memória/Pela minha porta”... “Perdido na última estação/Onde permanece inerte/Há muito, meu último coração”.

Uma prosopopeia que coloca vida em uma sandália perdida, mais humana que o próprio autor (!!), descalça, tentando resolver as paixões ainda latentes: “Você viu uma sandália perdida por aí?/ Insiste em ficar sozinha/ Ao invés de agasalhar os pés de um/ Poeta que pisou em flores/ Para matar paixões".

O Big Bang, como aqueles furacões pelos quais passamos em momentos de transições, uma despedida de uma relação e, depois a doçura da maçã, trazendo um novo amor: “.... veio o Big Bang/ e transformou/ em poeira/ a alma que amava”... “Depois veio a maçã/ e transformou/ em paixão/ o amor que revoava”.

O paraíso é um circo de ervilhas! Planta trepadeira da família das leguminosas, Pisum satium que quando transformada em uma flexão verbal, “ervilhar”, transforma-se em fazer ou falar bobagens, não dizer coisas serias. Ou, o paraíso não é sério, nunca foi. A imagem de um paraíso feito de um circo de ervilhas é fantástica! O poema permite tudo, o jogo das palavras, os sentidos soltos que se costuram ou não aos olhos de quem lê. Como escritora, para mim é preciosa a leitura do outro.

Seguem imagens em um realismo fantástico através de um mundo paranormal, sendo o autor, um vendedor de mingau. Lagartas com chapéu de dedal. Amnésias tremens de um pierrô.... E a cavalaria não chegou.

Do jardim, local onde habitualmente ocorrem lagartas, passamos para alamedas antigas de carnaval com pierrôs e voltamos para períodos anteriores, no meio de cavalarias, logo na próxima frase, o texto nos leva para um safari na África, através do sorriso palrador de dona hiena. De acordo com a “Medicina da Hiena”, não importa a aparência das coisas e sim a essência. A hiena é um animal mamífero e carnívoro, que vive em bando. Nos ensina a importância de viver em coletividade, assim como a necessidade da comunicação honesta e aberta, a ter cautela com o que é dito para não ferir, deixa claro que a intenção não é gerar dor. Este poema segue para a lua e de lá, passa em uma panificadora onde se alimenta. Mas, não é tempo de murici (Byrsonima crassifolia, Malpighiaceae), árvore de fruta amarela, encontrada em todo território brasileiro e na América Central. Se não é tempo de murici, o autor é atemporal, está planta produz praticamente, o ano inteiro. Volta para casa e para talvez, para o mesmo jardim da lagarta, onde pendura o coração no varal. Parece que ancora os pés. O que faz pensar em como seria o cio do Einstein. Os pés voam, junto das palavras. A liberdade poética é a máxima. O compromisso é apenas com o texto. E a lagarta me levou para a infância, quando eu brincava no jardim de pegar lagartas do manacá-de-cheiro, nos dedos na minha mãe e da minha avó, dedais, a virtude dos trabalhos manuais e da culinária a quatro mãos.

Meu paraíso,/ é um Circo de Ervilhas./ Mundo, só meu, paranormal,/ lagartas com chapéu de dedal,/Amnésias tremens de um pierrô.... E a cavalaria não chegou; pena,/ sorriso palrador de dona hiena.... / sem ver a lua virar pão-de-queijo. Faliu a padaria,/ ...não é tempo de gente, é tempo de murici./ Mas ele deixou o coração pendurado no varal,... / nem imagino como Einstein ficaria no cio./ A lamparina morre, quando for, eu, acordar".

Entrei nas imagens como se fossem uma imaginação ativa. Seres inanimados criam formas, tem características emocionais e atuam, como se fossem resolver o impasse do poema.

Muitas vezes, o tempo de hoje, não permite visualizar as imagens do que é dito. Não temos mais o breu e a lamparina que condicionaram tantas fábulas, lendas e mitos. Uma pesquisa do google resolve tudo. 

Os poemas estão aí. Ao contrário do que se esperava, além dos livros impressos, que não param de serem vendidos, há opções disponíveis e ofertadas em rede para quem quiser tirar os pés do chão e respirar.

Meu querido editor, Mhario Lincoln, continue com o seu múltiplo trabalho, nos proporcionando um mundo mais real, menos sintético, feito de magia e realizações que brotam de sentimentos. 

Depois que o avião se tornou bélico, perdeu o sentido. Era para tocar a lua e as estrelas, levar flores e asas no coração e na alma humana, para transcender as guerras internas e externas.

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Consultas:

1MEDEIROS, A. M., 2018. Sabedoria Política. Disponível em: https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/a-poetica/). Acesso em: 07/01/2022.

2CARVLAHO, J. Joema Carvalho analisa o livro "A Bula dos Sete Pecados". Disponível em: https://www.facetubes.com.br/noticia/853/joema-carvalho-analisa-o-livro-qa-bula-dos-sete-pecadosq. Acesso em: 07/01/2022.

3 MHARIO, L. Mhario Lincoln participa de LIVE coordenada pelos professores Dino, Neres e Linda. Disponível em:  (https://www.facetubes.com.br/galeria/281/mhario-lincoln-participa-de-live-coordenada-pelos-professores-dino-neres-e-linda). Acesso em: 07/01/2022.

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NOTA DO EDITOR: Imensamente grato pelo seu acorde final. Com certeza, essa melodia intensa e desbravadora, precisava dessa nota para se autocompletar. Obrigado. (Mhario Lincoln).

Tomo a liberdade e incluo neste texto a performance de Linda Barros interpretando "A Lagarta com Chapéu de Dedal". O poema citado, na íntegra. Obrigado Joema Carvalho. Grato Linda Barros:

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