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Eloy Melonio volta ao Facetubes com um texto interessante sobre "Encontros e Desencontros"

"(...) encontrei recentemente o ator Paulo Betti num evento cultural no Convento das Mercês, aqui em São Luís do Maranhão. Depois da inevitável foto com o fã, ele investiu numa pergunta boba e interessante ao mesmo tempo. Queria saber se o vento, aqui na “ilha”, era sempre assim — forte e constante".

19/12/2023 às 17h19 Atualizada em 20/12/2023 às 18h27
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
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Eloy Melonio, um dos destaques na 14a. Felis/SLS.
Eloy Melonio, um dos destaques na 14a. Felis/SLS.

ENCONTROS E DESENCONTROS

Eloy Melonio*

Não sei se o poeta está sempre certo, mas é quase certo que sim.

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Por causa de certos encontros, vira e mexe, lembro-me de Vinícius de Moraes: “A vida é a arte do encontro”. E haja arte em tantos encontros que a vida nos propicia, especialmente quando se vive intensamente cada um desses momentos. Que, mesmo desencontrados, — como o de Zaqueu com Jesus — são reais e frutíferos.


Nesse contexto, encontrei recentemente o ator Paulo Betti num evento cultural no Convento das Mercês, aqui em São Luís do Maranhão. Depois da inevitável foto com o fã, ele investiu numa pergunta boba e interessante ao mesmo tempo. Queria saber se o vento, aqui na “ilha”, era sempre assim — forte e constante.


Disponível como o ar das manhãs, não tive como escapar de algumas breves explicações, entrando de cabeça na praia dos ventos — e, por tabela, da Lua e das marés. Imerso nessa cena didática, fiz o papel daquele professor de espírito sensível que leva seus alunos para excursões em lugares pitorescos. Acho que não decepcionei meu interlocutor; tampouco decepcionaria o Téo Pereira, uma de suas personagens mais marcantes que, entre “clicks” e “likes”, era o "cara" na novela Império (Rede Globo, 2014).


O conhecimento sobre fenômenos naturais, obtive-o com o meu pai, ainda na pré-adolescência. Em 1961/62, seu Manoel inventou de mudarmos do João Paulo, tradicional bairro da nossa cidade, para a Ponta de São Francisco (hoje São Francisco), uma área pouco povoada que se desenvolveria com a construção de uma ponte, promessa antiga dos políticos. E lá fomos nós para o outro lado do Atlântico. Com 10 anos, era como eu imaginava essa mudança, pois teríamos de atravessar de barco um largo canal.


Perto de se aposentar, meu pai queria morar fora da região urbana, e a Ponta de São Francisco o saudava do outro lado do canal por onde descia o Rio Anil — separando a Avenida Beira-mar, no Centro da cidade, desse novo bairro — e desembocando na Baía de São Marcos.
Na verdade, o primeiro sargento da PM queria mesmo era levar uma vida de camponês: criar galinhas, capinar o terreno de 50mX30m para plantar melão, vinagreira, maracujá. De origem interiorana — mas já acostumada à vida na capital — D. Arcângela não simpatizava com a ideia do marido, mas...


Quatro anos depois, nem sinal da ponte, que só seria inaugurada em fevereiro de 1970 pelo então governador José Sarney. Ainda assim, a comunidade crescia e se tornava um bairro populoso.

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Instalados na penúltima casa da Rua 1 — trinta minutos de caminhada até o ponto das canoas — minha mãe logo se habituou com a nova realidade. Só uma coisa a incomodava sobremaneira: a temível travessia do canal numa canoa de ginga, que acomodava cerca de dez passageiros em quatro ou cinco tábuas (bancos), uma atrás da outra. Nas marés altas da Lua nova e da Lua cheia, os ventos fortes do segundo semestre criavam grandes ondas, provocando sobressaltos e gritos. Eu e minha irmã fazíamos essa travessia para ir e voltar da Escola Modelo Benedito Leite, que ficava perto da Avenida Beira-Mar. Na ida, geralmente acompanhados do nosso pai, que, após o desembarque, seguia direto para o quartel da PM, não muito longe da rampa onde a canoa atracava.

 

Eloy e Paulo Betti.

A nova comunidade permitiu que eu e minha irmã aprendêssemos muitas coisas antes de abrirmos os livros escolares. Sem luz elétrica e sem televisão, estávamos sempre juntos ao cair da noite. Após o jantar, minha mãe se ligava na sua radionovela predileta. Mais tarde, acompanhávamos as aventuras de Jerônimo, o Herói do Sertão. Na hora do almoço, as notícias e Seu Manoel; em seguida, o esporte e eu. E o nosso rádio de quatro pilhas era essa companhia de todos os dias e de todas as horas.


Das muitas histórias que guardo, uma revela a singeleza e a beleza da vida interiorana. As canoas de pesca atracavam no mesmo local das outras, geralmente na maré enchente. Se era à tarde, minha mãe me incumbia de comprar uma cambada de peixe pedra. Numa dessas idas, tinha uma pelada no meio do caminho. Louco por bola, chamaram-me para o time desafiado. Em campo, esqueci-me do peixe e perdi o dinheiro que estava no cós do meu calção. Acho que você, leitor, consegue imaginar o final dessa vacilada.


Nosso pai nos ensinava muitas coisas sobre as insondáveis belezas do mundo natural. Sabia tudo sobre o movimento dos astros no céu e os ventos e marés aqui na terra. Adorava mostrar-me os "satélites" que passeavam entre as estrelas. Isso porque era leitor contumaz do Almanaque do Pensamento, uma publicação que reunia uma gama de informações que iam dos astros às galinhas do quintal de casa. Com ele, aprendi a identificar a Estrela d'Alva, que aparece ao leste na última hora da madrugada e que, para a astronomia, é o Planeta Vênus.
Seu conhecimento teórico e empírico me enchia de orgulho e, hoje, emociono-me quando falo sobre as minhas descobertas dessa época. Infelizmente, não sei para onde foram os céus noturnos daqueles tempos!


Sem a ponte, voltamos para o João Paulo e, três anos depois, mudamos para o primeiro conjunto da Cohab, no Anil. Finalmente, entre encontros e desencontros, os frutos do pomar de Seu Manoel se converteram em vidas cristãs, agora numa comunidade Adventista do Sétimo Dia.
Num domingo de muito sol, na Praia do Meio, ensaiei a ideia de perguntar a uma jovem de 13 anos por que, naquele momento, os “vinte e dois navios” fundeados na Baía de São Marcos estavam todos de frente para o nascente. Pensei um pouco e decidi não entrar em cena. Bem, os tempos são outros, não é verdade?

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De volta à conversa com o astro da Globo, fiz uma exposição abreviada sobre o clima do litoral nordestino nos meses de agosto a novembro, em especial da nossa Cidade dos Azulejos. Fui breve para não ser chato, mas "tinha tanta coisa pra falar". Sua curiosidade nesse encontro breve e casual me fez recordar momentos memoráveis.


Infelizmente, a Lua não deu as caras nessa noite, deixando o protagonismo para o vento, que cumpriu direitinho o seu papel.


E o poeta — ah, esse está sempre coberto de razão. E, em seu senso de razoabilidade, também fala de desencontros.


____

Eloy Melonio é escritor, poeta, letrista e produtor cultural.

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José AntonioHá 2 anos São Luís, Maranhão Os belos textos de Eloy são cheios de lembranças e estão sempre se relacionando com aquilo que vivenciamos em algum tempo ou algum lugar.
Violeta AzevedoHá 2 anos São Luís - MaLeitura agradabilíssima, texto leve e instigante. Parabéns!
José Reginaldo Há 2 anos São Luís Belo,breve encontro de coisas cotidianas, especiais
ANTONIO GUIMARÃES DE OLIVEIRA Há 2 anos São Luís Eloy Melonio, e sua pena mágica. O poeta é suas lavras magníficas.
ChicoHá 2 anos São PantaleãoMandou bem, professor.
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