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Convidado APB: Eloy Melônio, seccional - MA

"Lua Cheia, Mulher Nua"

18/10/2020 10h07 Atualizada há 7 dias
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
Eloy Melonio é APB, da seccional MA.
Eloy Melonio é APB, da seccional MA.

LUA CHEIA, MULHER NUA

Eloy Melonio

 

Era noite de lua cheia. E ela, majestosa, passeava entre as estrelas, que reverenciavam sua beleza. Na calmaria da maré vazante, as ondas refletiam o seu brilho e — uma a uma — banhavam de espuma as pedras e a areia da praia. Encanto e magia dominavam céu e mar.

Podia-se até dizer que essa noite era tal qual um poema. Enquanto a lua passeava, as estrelas cantavam e o mar cabia no infinito alcance do olhar. Só mesmo Quintana para tentar explicar tanto êxtase: “Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?” 

Nesse cenário de filme romântico, Adroaldo manejava a vela e o leme de seu pequeno barco de pesca e se encantava com a noite prateada. Pescador experiente, apesar de seus trinta e poucos anos, conhecia como ninguém aquelas redondezas, emolduradas de restingas e manguezais, e a pesca era parte integrante de sua vida. 

Eram pra lá das nove, e ele já havia saído da enseada. À sua frente, a baía de Cumã, no litoral oeste do Maranhão, esperava-o com ar de intimidade. Aos dez anos, o filho do pescador mais popular da Vila da Pindoba acompanhava o pai em algumas pescarias de fim de semana. E também já vira muitas luas como essa. E nunca se cansou de admirá-la. Sabia até cantar algumas músicas em que a ela era a estrela da festa. 

Sua intenção nessa noite era simplesmente fazer uma boa pescaria. Com a venda do pescado, podia abastecer sua casa de alimentos e comprar as coisas de que a sua família estivesse precisando. 

Já em mar aberto, uma surpresa roubou-lhe a concentração. A imagem de uma mulher sentada nas pedras do Bico do Pato, um lugar elevado que avançava no mar logo na saída da enseada, deixou-o perplexo e curioso. Principalmente porque — assim como ele — a mulher parecia cantar para lua. 

Inesperadamente, um impulso obrigou-o executar uma manobra brusca, uma virada de noventa graus à esquerda. Precisava ver direitinho o que era aquilo. Um tanto inquieto, perguntou-se a si mesmo:

— Uma mulher?! 

Adroaldo tinha razão. Era mesmo uma mulher. Confirmada a sua suspeita, outras questões vieram à tona. E, à primeira vista, ela estava nua, e era um mulheraço. Em toda a sua vida, jamais vira algo parecido. Em menos de um minuto, sua curiosidade, associada à beleza daquela mulher, atraíram-no para mais perto das pedras, um trecho mais raso, fora do canal. 

Aquela visão perturbou sobremaneira o jovem pescador, que parecia fisgado pela aprazível surpresa. Por um instante, tentou recobrar a lucidez:

— E eu com isso? Acho melhor sair logo daqui. Já tenho muitos problemas. 

Apesar da hesitação e das ondas que se intrometiam entre o barco e as pedras, Adroaldo soltou a corda que prendia a vela do barco e jogou a âncora no mar. E afinou o olhar para certificar-se do que estava vendo. 

Certamente não estava com medo, pois sempre pescou sozinho, fosse noite ou dia. Desde que seu pai morreu há cerca de dois anos, nunca quis saber de outro parceiro. E tudo o que ganhava com a pesca era para o sustento da família de cinco pessoas: a mãe, de sessenta anos, e as três irmãs, duas das quais ainda adolescentes, e a mais velha, que era paraplégica. 

Adroaldo jamais vivera uma experiência como essa. Por isso precisava chegar mais perto para examinar aquela cena surreal. E, só depois, seguir viagem. Não era homem de deixar as coisas de hoje para amanhã.

 

O balanço do barco dificultava a sua visão. Enquanto isso, a mulher parecia insensível à sua aproximação. Para uma nativa, ela conseguia exibir com elegância os longos e acobreados cabelos que escondiam seus seios. Mesmo assim, o pescador conseguia vê-los (ou imaginá-los), bailando ao ritmo da música que ela cantava ou se protegendo do vento brando das noites de abril. 

A imagem era realmente arrebatadora, mas uma dúvida ainda o incomodava:

— Será uma mulher, ou uma visagem? 

Lembrou-se das histórias que ocasionalmente ouvia dos outros pescadores, mas isso não importava agora. Um ímpeto inexplicável empurrava-o para mais perto das pedras. E, finalmente, fez o sinal da cruz e pediu a proteção de São Benedito. Encheu-se de coragem e jogou-se no mar. 

Difícil é acreditar no que veio em seguida. Nadou até a beira do morro de pedras e, sem dizer nada, sentou-se ao lado da mulher. E como amantes que se reencontram depois de muito tempo separados, Adroaldo e a desconhecida se entreolharam por alguns segundos e se jogaram um nos braços do outro. Beijaram-se longa e ardentemente. Embriagado de paixão, o pescador cedeu aos encantos da mulher, que parecia esperá-lo para um banquete. 

Depois de um instante, enquanto recuperava o fôlego, ousou perguntar:

— Qual o seu nome? Você é daqui mesmo? Não tem medo de ficar aqui sozinha? 

Suas perguntas foram caladas com outro beijo, ainda mais ardente. Nada de conversa agora. A mulher deu-lhe a entender que, dali em diante, as palavras deveriam se calar ante a supremacia do "amor", e que este sempre teria apenas o céu e o mar como testemunhas. 

Por um instante, o jovem pescador perdeu-se em sua própria imaginação. Instintivamente, lembranças terríveis vinham-lhe à mente. Por quase três anos, evitara pensar em mulheres. Não queria (e não podia) mais se envolver com elas. Como seria isso possível agora? Estava totalmente dominado pelo encanto de uma louca que acabara de ver. 

Sem explicação, desligou-se do passado e retomou os beijos. Beijou sua boca como se quisesse que o mar ouvisse seus suspiros de paixão. E logo passou para o seu pescoço, que se oferecia como uma pescada frita regada a um copo de cachaça. Em seguida, suas mãos se encheram com os seios mais opulentos que já tocara em toda a sua vida. E como um beija-flor, extraiu todo o néctar daquelas tetas abundantes. 

Era tanto apetite que não conseguia controlar suas intenções. Avançava sobre o corpo daquela mulher como uma canoa que entra no canal, abarrotada de peixes. E, como um marinheiro de primeira viagem, perguntou-lhe:

— Posso beijar seu umbigo? 

Sem uma resposta, e em irrestrita obediência à nova lei do amor, ela conduziu a sua cabeça até a sua “lagoa azul”. E como um bicho sedento que acha uma cacimba, Adroaldo lambeu-lhe o umbigo e toda a área saliente da barriga. Era demais! Entre beijos, ele sorriu para a Lua como se lhe agradecesse por tamanho prazer. 

E se amaram sem saber se era noite ou dia, como quem canta uma canção, como quem lê uma poesia. E mais ainda se amaram sob a luz do luar, ao som das ondas do mar. 

Talvez se possa fazer uma comparação com o que diz o compositor Osvaldo Montenegro na canção Lua e Flor: “Eu amava como amava um pescador/ Que se encanta mais com a rede que com o mar”.

Cansado dessa farra inicial, — e atendendo ao desejo da mulher — Adroaldo ajustou a vela do barco e saíram a passear pela baía. Ora sentada na proa, ora no banco onde ficava o mastro, a mulher cantava com sua voz doce e leve, que deixava o céu e o mar inebriados de encanto e magia. 

De uma coisa Adroaldo tinha absoluta certeza: pela primeira vez na vida, não sabia o que a baía lhe reservava. 

(...) 

Enquanto seu Jesuíno, tio de Adroaldo, me contava essa história, tentou esconder as lágrimas que molhavam seu rosto enrugado pelo sol. Isso porque Adroaldo nunca mais voltou à vila. Cabisbaixo, revelou que um câncer obrigou seu sobrinho a amputar o pênis quando ainda namorava Lindiara, a moça mais bonita da vila, com quem planejava se casar. Desde então, perdeu o interesse pelas mulheres e se entregou de corpo e alma à pescaria. Solitário, passava a maior parte de seu tempo no mar. Em casa, ouvia músicas tristes e cuidava de sua pequena horta no fundo do quintal. E arremata a história, que — segundo ele, jamais contara a alguém — com esta revelação: “Verdade ou mentira, alguns pescadores dizem já ter visto, em noite de lua cheia, um barco vagando pela baía com um homem e uma mulher nua, que canta uma música triste”._

Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor

 

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