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Brasil A dor de ser poeta

Por que se torna obrigatório ler e conhecer a obra da poetisa Ana Cristina César?

“Quero sempre poder dizer que andei na corda bamba por gosto.” (ACC).

13/03/2025 09h10 Atualizada há 1 ano atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Lúcia Santantonho Ramos
Original do site do Instituto Moreira Salles.
Original do site do Instituto Moreira Salles.


Lúcia Santantonho Ramos, mestre em Literatura Brasileira, colaboradora da Editoria de Arte e Cultura da Plataforma Nacional do Facetubes (www.facetubes.com.br).

 

Sob o olhar da crítica especializada e o rigor que a editoria de Arte e Cultura do Facetubes cultiva em suas reportagens, é quase inquestionável o valor literário de Ana Cristina César (1952-1983). Poeta, ensaísta, tradutora e crítica literária de rara lucidez, ela imprimiu à poesia brasileira uma marca inconfundível de sensibilidade e profundidade intelectual. A agudeza de seu olhar crítico, aliada à capacidade de articular vida e literatura como dimensões inseparáveis, faz de sua leitura um rito inescapável para quem deseja desvendar os meandros da poesia contemporânea.

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Sua trajetória ganha relevância já na década de 1970, quando Ana Cristina se destaca por uma poética intimista, marcada pela coloquialidade e por um compromisso constante com a crítica social. Mais do que simples versos, sua produção engloba ensaios, traduções e reflexões críticas, demonstrando as emoções que a consagrou. A consistência de seu trabalho e a força de suas ideias se refletem no acervo que guarda suas criações: um conjunto robusto, um dos mais completos do país, disponível no Instituto Moreira Salles (IMS).

 

Uma obra forte e dolorida.

Esse Acervo de Ana Cristina Cesar chegou ao IMS em etapas ao longo de 1999 a 2005, constituindo hoje um conjunto de valor histórico inestimável. Nele, encontramos cerca de 797 itens catalogados, entre livros e periódicos, além de uma miríade de documentos manuscritos – que vão de anotações de leitura, críticas literárias e poemas a correspondências e provas de impressão de livros. Registros em áudio e até sua máquina de escrever completaram o painel, evidenciando o caráter vivo de sua produção intelectual.

 

Em 1998, a editora Ática associou-se ao IMS para relançar títulos essenciais de Ana Cristina, como A teus pés e Inéditos e dispersos. O trabalho de organização acadêmica também se mostra expressivo: a professora Viviana Bosi, da Universidade de São Paulo, mergulhou nos 301 manuscritos do arquivo, encontrando conjuntos cuidadosamente organizados pelo próprio poeta com títulos sugestivos como “Prontos mas rejeitados”, “Inacabados” e “Rascunhos/primeiras versões”. 

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Dessa minuciosa pesquisa realizada Antigos e soltos (2008), edição "fac-similar", mantém vivos o afresco e a pulsação criativa de Ana Cristina. Já em 2010, sob consultoria de Literatura do IMS, o poeta e professor Eucanaã Ferraz promoveu o curso “Aos pés de Ana Cristina”, reforçando o interesse acadêmico e público por sua obra.

 

Ana Cristina César, desta forma, é uma autora que traduz, nos versos e nos escritos em prosa, o efervescente período cultural em que viveu – época de intensas transformações sociais no Brasil, marcada pela busca de novas formas de expressão e pela crítica a modelos estabelecidos. Sua poesia, ao mesmo tempo delicada e contundente, permite que o leitor revisite questões identitárias, afetivas e políticas com olhos desarmados e atentos a cada sutileza.

 

Eu destacaria uma frase interessante dessa poeta para compreender seu espírito de risco e a ironia refinada que a distingue. Para isso, recorro a um de seus registros em correspondência preservada. Em "Correspondência Incompleta" (São Paulo: Ática, 1999, p. 34), Ana Cristina escreveu:

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“Quero sempre poder dizer que andei na corda bamba por gosto.”

 

Esse lampejo de ousadia atravessa toda a sua produção literária e justifica o porquê de ser fundamental ler e reler Ana Cristina César. Em sua voz, encontramos ecos de uma sensibilidade atenta ao cotidiano e, ao mesmo tempo, afeita aos temas universais que compõem a alma humana. Assim, seu legado permanece vivo e impactante, convidando-nos a experimentar a liberdade criativa e o gesto crítico que ela cultivou em cada linha que escreveu.

Noite de Natal.

Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera

(ACC).

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Joizacawpy Há 1 ano atrásSão luís Que texto maravilhoso, nos faz mergulhar no universo peculiar da poeta. Mhario eis a grande diferença da sua escrita, há um toque didático que conduz o leitor a uma leitura leve, permitindo-lho perceber claramente o que de fato interessa em cada abordagem feita por você. Mais uma vez obrigada!
Leoniv BrasckolHá 1 ano atrásSão Paulosempre pesquisei na internet o nome de Ana. agora encontrei o Instituto Moreira Salles. que coisa magnífica. obrigado.
Martha ValinhasHá 1 ano atrásSão Luis MA"Estou bonita que é um desperdício. Não sinto nada Não sinto nada, mamãe". Que coragem!
Julio Abrahão Maluf, professor de Literatura, poeta e escritorHá 1 ano atrásSão PauloMhario e Lúcia. O que acho e venho achando ao longo desse tempo é que esse site traz o melhor da literatura. Tenho lido todos os dias essas manifestações e fico por demais feliz em saber que existe vida nessa maluca mídia de internet que somos obrigados a conviver diariamente. Ah! Sou fã incondicional de Ana César. Foi sobre ela meu TCC.
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