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Mundo O MAL DA DEPRESSÃO

Quando a depressão interrompe a criação: o que acontece entre o silêncio e a retomada de uma carreira?

Trajetórias da literatura, da música e do cinema mostram como o adoecimento afeta o trabalho, deixa projetos inconclusos e exige cuidado. No Maranhão, relatos acrescentam experiências de sofrimento e continuidade da escrita.

18/10/2026 11h21 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
Arte: MHL/GINAIFT
Arte: MHL/GINAIFT

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

Em 1897, depois da estreia de sua Primeira Sinfonia, Serguei Rachmaninoff atravessou uma depressão que comprometeu sua capacidade de compor. Com acompanhamento do médico Nikolai Dahl, voltou ao trabalho e concluiu, em 1901, o Concerto para Piano nº 2. Entre os dois acontecimentos, houve um período em que criar se tornou uma tarefa difícil. Isso porque, segundo pesquisas médicas originais, a depressão pode atingir justamente as capacidades das quais depende uma carreira artística: concentração, disposição, iniciativa e tomada de decisões. Uma página permanece sem revisão, um ensaio é cancelado, um projeto perde continuidade. Quando o adoecimento se prolonga, também ficam comprometidos a renda, os vínculos profissionais e a convivência.

Não só em um país, mas em todo o Globo terrestre. Veja: no Maranhão, Ferreira Gullar descreveu em Rabo de foguete um estado de depressão durante o exílio, agravado pelos acontecimentos políticos no Chile. É um relato autobiográfico. Em 1975, escreveu Poema sujo, publicado no ano seguinte, fruto, também, dessas experiências psicossentimentais. Já José Maria Nascimento acrescenta à discussão uma trajetória de grande e elogiável retomada, após problemas com depressões homéricas. Após luta e um tratamento contínuo, Nascimento conseguiu superar mortes importantes em sua vida e retomou à convivência social, prosseguindo com a publicação de livros. O perfil da Academia Maranhense de Letras documenta seu sofrimento, o alcoolismo e a continuidade da escrita. 

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Veja abaixo, entrevista exclusiva, onde Nascimento relata um pouco dessa sua vida atribulada, mas que, com muita luta, conseguiu reequilibrá-la.

 

Pois bem! Os sinais merecem atenção quando passam a organizar a rotina. A Organização Mundial da Saúde relaciona tristeza persistente, perda de interesse ou prazer, cansaço, alterações do sono e do apetite, dificuldade de concentração, culpa excessiva e desesperança. Em um episódio depressivo, os sintomas costumam ocorrer durante a maior parte do dia, quase diariamente, por pelo menos duas semanas. Pensamentos de morte também podem estar presentes e exigem avaliação; diante de risco à vida, o atendimento deve ser imediato. O "pedir ajuda" e "receber ajuda", são fundamentais para um possível "alívio" dessa angústia. 

Plataforma Nacional do Facetubes.

Outro exemplo brasileiro é Torquato Neto. Ele enfrentou depressão, dependência de álcool e internações antes de morrer, em 1972. Ana Cristina Cesar recebeu tratamento para depressão e morreu em 1983, aos 31 anos. As mortes por lesões autoprovocadas encerraram suas trajetórias; compreender esses desfechos exige considerar múltiplos fatores. Lima Barreto deixou registros de sofrimento e internações associados também ao alcoolismo, numa história que exige cautela com diagnósticos retrospectivos.

Paula Fernandes relatou depressão aos 18 anos e tratamento com psiquiatra, medicamentos e terapia. Selton Mello descreveu um período depressivo em meio à sobrecarga de trabalho e ao uso prolongado de medicamentos para emagrecer; procurou ajuda e deu continuidade à atuação e à direção. A permanência diante das câmeras ou no palco pode coexistir com sofrimento que o público desconhece.

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Fora do país, Virginia Woolf viveu crises recorrentes, examinadas por pesquisadores no contexto do transtorno bipolar. Sylvia Plath recebeu tratamento para depressão em 1953. em uma de suas crises, veja como muda o entendimento de seu poema chamado “Tulipas” (Tulips). Veja um trecho:

“Eu não queria flores, 
queria apenas deitar 
com as mãos voltadas para cima 
e ficar inteiramente vazia.”

É visível o esgotamento que alcança a própria capacidade de receber afeto. No ambiente hospitalar do poema, as flores trazem a presença do mundo, suas relações e solicitações, mas a voz poética deseja ficar livre de tudo o que exige uma resposta. A imagem do vazio permite ao leitor perceber a dimensão desse afastamento.


Outro exemplo: Ernest Hemingway enfrentou depressão e dificuldades de escrita no fim da vida. Os arquivos da Biblioteca JFK registram prejuízos de memória relacionados ao tratamento recebido. Brian Wilson atravessou períodos de depressão e psicose que afetaram sua produção musical. A obra da retomada, entretanto, foi Brian Wilson Presents Smile (2004). O disco retoma o projeto Smile, iniciado com os Beach Boys e abandonado em 1967, em meio a problemas de saúde mental, uso de drogas e conflitos profissionais. Wilson revisitou as composições e realizou uma nova gravação, lançada 37 anos depois. É um exemplo documentado de retomada de um projeto artístico.

Assim, ao lado de Rachmaninoff, esses nomes mostram percursos distintos de adoecimento, interrupção e continuidade. Mostra que a produção artística exige leitura própria. Vê-se o quanto as obras ajudam a estabelecer o que efetivamente ficou interrompido.

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O cemitério dos vivos, de Lima Barreto, permaneceu inacabado. O jardim do Éden, de Hemingway, também ficou incompleto e foi publicado numa edição póstuma em 1986. As fontes comprovam a condição dos manuscritos e o adoecimento dos autores; a atribuição dessas interrupções exclusivamente à depressão pode até ter sido escondida. Mas parece que torna-se realidade a cada ano. São registros de continuidade da criação que comprovam que nem tudo está perdido, caso haja a vontade de "pedir ajuda". E haja vontade de alguém realmente querer "ajudar". Mas essa ajuda tem que se real. Muitas vezes essas ajudas - mesmo disponíveis em todos os quadrantes - não são adequadas para diagnósticos diferentes.

Se não, vejamos: o cuidado disponível para a maioria desses casos, mudou ao longo dessas histórias. No século XIX e no início do XX, instituições psiquiátricas empregavam repouso, sedativos, banhos terapêuticos e rotinas de trabalho. Woolf recebeu a chamada “cura pelo repouso”, que podia restringir o convívio e as atividades intelectuais. Rachmaninoff foi acompanhado com técnicas de sugestão e hipnose. No século XX, passaram a ser utilizadas a eletroconvulsoterapia e intervenções como a lobotomia, posteriormente abandonada como prática corrente por seus danos. A expansão das psicoterapias e dos medicamentos ampliou as possibilidades de acompanhamento fora dos hospitais. Essas mudanças também alteraram as condições para preservar relações, autonomia e trabalho durante o tratamento.

Hoje, o tratamento é definido conforme o 'diagnóstico real', comprovado com sintomas e exames modernos; e a gravidade. Psicoterapias, entre elas a cognitivo-comportamental e a interpessoal, possuem eficácia demonstrada. Antidepressivos podem integrar o cuidado, especialmente nos episódios moderados e graves; a identificação de bipolaridade orienta escolhas específicas. Contudo, o mais importante é o "apoio familiar". Isso vem junto à necessária redução da sobrecarga da necessidade criativa e da super-produção. Tudo ajuda a sustentar o acompanhamento, o abraço familiar a compreensão amiga. Para quem cria, a volta ao trabalho precisa respeitar as condições de saúde. O cuidado tem como prioridade a pessoa, sua vida cotidiana e sua possibilidade de escolher como continuar. Abaixo, vale lembrar os Canais de Atendimento de Emergência e Apoio Emocional:

  • Centro de Valorização da Vida (CVV): Oferece apoio emocional e prevenção do suicídio de forma totalmente gratuita, confidencial e sem julgamentos. O atendimento funciona 24 horas por dia, todos os dias.
    • Telefone: Ligue para 188 (ligação gratuita de qualquer telefone fixo ou celular).
    • Chat Online: Disponível diretamente no site oficial do CVV. [1, 2]
  • Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU): Em caso de lesões graves ou risco imediato à vida, ligue para 192.

 

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Fontes de informação - Organização Mundial da Saúde — Depressão; Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA — Depressão, medicamentos e terapias de estimulação cerebral. National Library of Medicine — História do cuidado psiquiátrico; história das intervenções psiquiátricas entre 1900 e 1950. Fundação Biblioteca Nacional — 100 anos sem Lima Barreto. Folhapress — Trajetória de Torquato Neto; USP — Biografia de Ana Cristina Cesar. Gshow — Paula Fernandes relata tratamento; Folha de S.Paulo — Entrevista com Selton Mello. UESPI — Pesquisa sobre a obra de Ferreira Gullar; Biblioteca Pública do Paraná — A criação de Poema sujo. Academia Maranhense de Letras — Perfil de José Maria Nascimento. Medical Humanities/BMJ — Estudo sobre Virginia Woolf; University of California Press — Woolf e os tratamentos recebidos. Smith College — Sylvia Plath e a depressão; Poetry Foundation — A escrita de A redoma de vidro. Biblioteca JFK — Hemingway, saúde e escrita; Oxford Academic — O jardim do Éden. Filarmônica de Los Angeles — Rachmaninoff e o Concerto nº 2; Scientific American — Brian Wilson; site oficial do músico — retomada de Smile.

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Antonio Guimarães de OliveiraHá 1 hora atrásSão LuísA depressão é o assombro e ao mesmo e ao mesmo tempo, criação de seu imaginário, podendo ser deplorável ou sonhador, porém é depressão.
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