Leopoldo Gil Dulcio Vaz
Entre a glória acadêmica e o silêncio da memória.
A história cultural maranhense possui uma característica inquietante: celebra alguns nomes até a exaustão e condena outros ao esquecimento. Entre estes últimos encontra-se Elza Fernandes Paxeco Machado, figura cuja trajetória intelectual ultrapassou fronteiras nacionais, alcançando reconhecimento acadêmico em Portugal, mas que permanece praticamente desconhecida em sua cidade natal.
Nascida em São Luís, em 6 de janeiro de 1912, Elza Paxeco era filha de Manuel Fran Paxeco, jornalista, escritor e diplomata português radicado no Maranhão, personagem amplamente conhecido da vida intelectual maranhense das primeiras décadas do século XX. Apesar disso, o brilho da filha parece ter sido obscurecido pelo prestígio do pai.
É difícil compreender como uma intelectual que alcançou um feito sem precedentes para as mulheres de sua época permaneça quase ausente da memória cultural maranhense.
Um feito extraordinário
Em 1938, Elza Paxeco tornou-se a primeira mulher a obter o grau de doutora pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo sua tese aprovada por unanimidade. O fato representou uma conquista extraordinária em um período no qual o acesso feminino aos espaços universitários ainda era limitado e cercado por preconceitos.
Sua formação acadêmica foi igualmente notável. Estudou no Brasil, na França, na Grã-Bretanha e em Portugal. Frequentou universidades em Gales, Londres e Lisboa, especializando-se em Filologia Românica e Germânica e em Língua e Literatura Inglesa.
Após concluir o doutorado, lecionou na própria Faculdade de Letras de Lisboa, ministrando disciplinas de Literatura Francesa e Língua e Literatura Inglesas.
No entanto, mesmo com qualificações amplamente reconhecidas, enfrentou barreiras impostas pela condição feminina. Registros biográficos apontam que sua carreira universitária foi prejudicada por preconceitos existentes no ambiente acadêmico da época, levando-a posteriormente a afastar-se da instituição.
O esquecimento das mulheres intelectuais
O caso de Elza Paxeco não é isolado. Trata-se de mais um exemplo do apagamento sistemático das mulheres na historiografia literária e acadêmica. Durante décadas, a produção intelectual feminina foi tratada como acessória, secundária ou complementar à de homens com quem mantinham relações familiares ou acadêmicas. Assim, não raramente, a referência a Elza Paxeco aparece acompanhada do nome do marido, o filólogo José Pedro Machado, com quem produziu importantes trabalhos de investigação.
Entre essas obras destaca-se o monumental Cancioneiro da Biblioteca Nacional, publicado entre 1949 e 1964, resultado de anos de pesquisa, leitura, comentários e elaboração de glossários.
A questão que se impõe é simples: quantos maranhenses conhecem hoje essa contribuição?
O silêncio de São Luís
É particularmente significativo que a cidade onde nasceu a primeira mulher doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa pouco faça para preservar sua memória.
Enquanto pesquisadores portugueses chamam atenção para sua importância intelectual, São Luís praticamente a ignora. Não há referência frequente ao seu nome nos currículos escolares, nos estudos sobre a educação maranhense ou mesmo nas narrativas mais correntes sobre a participação feminina na produção intelectual do estado.
A situação torna-se ainda mais contraditória quando se recorda que o Maranhão construiu parte de sua identidade cultural sobre o título de "Atenas Brasileira". Porém, de que vale proclamar-se herdeiro das letras se parte de seus intelectuais permanece esquecida?
Uma dívida da memória
Resgatar a trajetória de Elza Paxeco Machado não representa apenas um exercício biográfico. Trata-se de corrigir uma injustiça histórica. Primeira doutora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, professora universitária, filóloga, escritora, pesquisadora e membro correspondente da Academia Maranhense de Letras, Elza Paxeco pertence a uma geração de mulheres que precisou conquistar, com esforço próprio, espaços tradicionalmente reservados aos homens.
O seu esquecimento revela não apenas uma falha da memória cultural maranhense, mas também a persistência de mecanismos de seleção que determinam quem merece ser lembrado e quem deve permanecer nas margens da história. Talvez tenha chegado o momento de São Luís reconhecer uma de suas filhas mais ilustres.
Referências
MOTA, Pedro Teixeira da. Elza Paxeco, a 1ª doutorada da Faculdade de Letras de Lisboa, notável investigadora e professora. 2023. Disponível em: <https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/09/elza-paxeco-1-doutorada-da-faculdade-de.html>. Acesso em: 1 ago. 2026.
PAXECO, Elza. Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Elza_Paxeco>. Acesso em: 1 ago. 2026.
PAXECO, Elza. Wikiwand. Disponível em: <https://www.wikiwand.com/pt/articles/Elza_Paxeco>. Acesso em: 1 ago. 2026.
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