Editoria de Pesquisa Social da Plataforma Nacional do Facetubes
É nesse contexto que livros impressos, discos de vinil, câmeras analógicas, diários, bordados e outros hábitos físicos reaparecem não como recusa da modernidade, mas como instrumentos de reorganização da atenção. Assim, o objeto analógico introduz uma espécie de resistência produtiva.
Um livro não oferece um conteúdo diferente a cada movimento dos olhos. O disco exige que o ouvinte escolha um álbum, coloque a agulha e permaneça diante de uma sequência musical previamente organizada. A fotografia em filme restringe o número de imagens e retira do fotógrafo a possibilidade de conferir imediatamente cada resultado. Essa lentidão, antes interpretada como limitação, passa a ser percebida como valor: obriga a decidir, esperar, concluir e permanecer.
Os indicadores comerciais pesquisados pela editoria revelam que o fenômeno ultrapassou o discurso das redes sociais. No relatório de tendências criativas para 2026, a rede norte-americana Michaels informou que as buscas por atividades analógicas — entre elas tricô, crochê, bordado, pintura e produção de diários — cresceram 136% em seis meses.
A própria empresa interpreta o movimento como uma tentativa de recuperar tempo, identidade e participação ativa num cotidiano progressivamente automatizado. Trata-se de um levantamento corporativo, baseado no comportamento dos consumidores da rede, e não de um retrato estatístico de toda a juventude mundial, mas a dimensão do crescimento revela uma mudança concreta de interesse.
Por outro lado, a recuperação do vinil oferece outro sinal expressivo. Nos Estados Unidos, 43 milhões de álbuns em vinil foram comercializados em 2023, superando os CDs pelo segundo ano consecutivo. Em 2024, o volume chegou a aproximadamente 44 milhões de unidades, enquanto a receita permaneceu em torno de US$ 1,4 bilhão.
No Brasil, o mercado de vinil faturou R$ 16 milhões em 2024, crescimento de 45,6% sobre o ano anterior, tornando-se responsável pela maior parcela das receitas nacionais com formatos musicais físicos. Esses resultados ainda representam uma fração pequena diante do streaming, mas demonstram que a conveniência digital não eliminou o desejo pela experiência material da música.
A mesma linha leva à interpretação dos números relacionados aos livros. A indústria editorial britânica registrou 669 milhões de livros físicos vendidos em 2022. O dado também não significa que todas essas obras tenham sido compradas por jovens. Há, entretanto, evidências de uma presença consistente do impresso entre as novas gerações: relatório da Ofcom registrou que 75% das crianças e adolescentes britânicos de 5 a 18 anos haviam lido livros físicos por prazer em 2022.
A preocupação com a atenção possui respaldo científico, embora não autorize diagnósticos simplistas. Pesquisa publicada na revista Scientific Reports encontrou associação entre maior exposição a smartphones, internet e multitarefa digital e níveis mais elevados de impulsividade e inflexibilidade cognitiva entre crianças e adolescentes.
Outro estudo, realizado com adolescentes brasileiros, identificou associação entre mais de quatro horas diárias de tela e maior presença de sintomas de ansiedade, estresse e depressão.
ATENÇÃO: a Associação Americana de Psicologia adverte que as redes sociais não são, por natureza, inteiramente benéficas ou prejudiciais. Os efeitos dependem do conteúdo consumido, do tempo de exposição, das características do usuário e do desenho das plataformas. Essa distinção é decisiva.
A discussão não deve transformar a tecnologia em inimiga, nem o analógico em tratamento médico. O que se observa é uma tentativa cultural de compensar a fragmentação: criar períodos nos quais não exista um algoritmo indicando o próximo conteúdo, uma notificação interrompendo a atividade ou uma sequência infinita impedindo a sensação de conclusão.
Agora pasmem! Há, inclusive, um paradoxo revelador: grande parte do renascimento analógico é apresentada, divulgada e comercializada pelo próprio ambiente digital. Jovens descobrem câmeras antigas no TikTok, exibem coleções de vinis no Instagram, organizam clubes de leitura pelo WhatsApp e aprendem técnicas de bordado no YouTube. O digital não desaparece; muda de posição. Deixa de ser, por alguns momentos, o destino final da experiência e passa a servir como ponte para atividades que acontecem fora da tela.
Mas, vale observar, finalmente, que oretorno ao objeto físico não constitui uma viagem romântica ao passado. Representa um ajuste consciente de ritmo. Para uma geração formada sob a lógica da disponibilidade permanente, possuir algo que não atualiza, não vibra, não calcula preferências e não exige resposta imediata pode significar recuperar uma parcela de autonomia.
O verdadeiro luxo contemporâneo talvez não seja a velocidade, mas a possibilidade de permanecer longamente diante de uma única música, imagem, página ou tarefa. O analógico volta porque oferece aquilo que se tornou escasso: continuidade, silêncio e presença.
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