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Cidades Crônicas especiais

Socorro Guterres: “A REVOLUÇÃO DOS BICHOS/Animal Farm”

Orwell foi um crítico do totalitarismo e do stalinismo, mas até o fim de sua vida declarou-se como um socialista democrático.

20/09/2026 20h52
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres.
Arte: mhl/ginaiFT
Arte: mhl/ginaiFT

Socorro Guterres, colunista da Plataforma Nacional do Facetubes.

 

George Orwell denuncia, de forma facilmente compreensível, o mito soviético e o debate das relações de poder na formidável obra A Revolução dos Bichos, com forte crítica aos regimes autoritários, advertindo sobre como o poder absoluto corrompe revoluções e gera sistemas totalitários, dispondo em uma grande alegoria com animais falantes a Revolução Russa.  Fazenda dos Animais, título do livro no original inglês, apresenta um enredo fabular cujos personagens têm seus correspondentes humanos situados no regime histórico da época em que foi escrito, entre novembro de 1943 e fevereiro de 1944, durante o final da Segunda Guerra Mundial. Essa obra-prima a princípio rejeitada por várias editoras, acabou sendo lançada oficialmente no Reino Unido em 1945, contudo ainda se aplica perfeitamente aos dias de hoje como um alerta atemporal sobre o perigo do poder absoluto, da corrupção dos líderes e da manipulação da verdade.

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O pseudônimo George Orwell, adotado pelo escritor, ensaista e jornalista inglês Eric Arthur Blair, nascido em Mothiari, Índia Britânica, no ano de 1903, local onde seu pai trabalhava como funcionário do governo colonial britânico, tem no sobrenome “Orwell” a inspiração no Rio Orwell, localizado no Condado de Suffolk, na Inglaterra. Logo após o nascimento, sua família retornou às terras inglesas, tendo então o futuro escritor frequentado como bolsista o tradicional Eton College. Posteriormente, Orwell viveu uma pobreza voluntária em Paris e Londres, no intuito de conhecer a vida dos trabalhadores e mendigos. Além da fábula satírica sobre animais, destaca-se em sua produção literária um romance distópico, 1984,  sobre um mundo vigiado o tempo todo pelo “Grande Irmão”, no qual o governo controla até o pensamento das pessoas, num assustador paralelo com os dias atuais, sobretudo no que diz respeito à tecnologia e ao fluxo de informações.

Mas, adentremos a Fazenda dos Animais e observemos um pouco de como se dá A Revolução dos Bichos. Inicialmente os animais da Granja do Solar, onde se passa o enredo, cansados de sofrer maus-tratos e exploração pelo dono da fazenda, Senhor Jones (representação do Czar Nicolau II da Rússia), ouvem atentamente o Major, velho porco premiado e respeitado na granja, que vai inspirar a rebelião dos animais, plantando a semente de uma sociedade justa e igualitária; personagem ao qual se atribui uma mistura  dos líderes Karl Marx e Lênin. O Major morre logo depois, mas deixa dois importantes seguidores: os porcos Napoleão e Bola de Neve, respectivamente representando Stálin e Trotsky; contudo com visões opostas sobre o poder e o futuro da granja. Os novos líderes orquestram um golpe para afugentar Jones e, mais tarde, o próprio Bola de Neve é expulso por Napoleão, que o retrata como traidor numa farsa propagandista. Nesse aspecto temos outro grande personagem, o Garganta, porco gordo e eloquente que funciona como o principal divulgador das ideias do governo de Napoleão.

Não especificaremos cada personagem da Fazenda dos Animais, isso ficará para a leitura prazerosa da genial obra de Orwell.  Mas é necessário ainda destacar Sansão, o cavalo carroceiro da novela, forte e incansável, numa representação do proletariado, sempre demonstrando sua cega lealdade aos líderes porcos, mas que tem um fim deveras comovente. Também é necessário falar sobre Benjamin, o burro velho, cético e niilista da fábula política, um dos poucos animais que sabem ler e não se deixa contaminar pelo entusiasmo revolucionário inicial, que expõe uma utopia possível, mas na qual logo advém a mudança de comportamento dos porcos revolucionários que comandam intelectualmente os outros diferentes animais e instituem 7 mandamentos em sua doutrina filosófica e política, a qual dão o nome de “Animalismo”, nascida dos pensamentos do velho Major e gravadas na parede do celeiro ainda no tempo de Bola de Neve (o animal que escrevia melhor), tendo como lema central “Tudo que anda sobre duas pernas é inimigo. Tudo que anda sobre quatro pernas ou têm asas é amigo”.  Entretanto, o princípio da liberdade absoluta é totalmente subvertido e substituído pela célebre máxima totalitária: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

(Capa/divulgação).

O slogan inicial, “Quatro patas bom, duas patas ruim”, do início da revolução é alterado (a mando dos porcos) pelas ovelhas, massa acrítica e manipulável, para “Quatro patas bom, duas patas melhor ainda”, dado ao entrosamento subsequente dos porcos com os homens (chegando os porcos  a assumir até mesmo a postura “duas patas”), numa justificativa da corrupção do poder e da traição aos ideais revolucionários. Desse modo, os fatos históricos são reescritos constantemente para o convencimento dos animais.  Além disso, o líder Napoleão tem nos cães ferozes “educados” por ele, a sua polícia secreta, que desempenha o aparato opressor do sistema. Na cena final os animais restantes que sobreviveram à fome, ao medo, aos discursos inflamados e aos slogans repetidos, observam pela janela da fazenda, do lado de fora, e percebem a perfeita integração entre os porcos líderes e os humanos que antes exploravam o local, já não conseguindo distinguir quem era o quê, pois os novos donos adotaram os mesmos vícios, roupas e atitudes dos antigos proprietários.

Orwell foi um crítico do totalitarismo e do stalinismo, mas até o fim de sua vida declarou-se como um socialista democrático; porém sua fé ingênua na política partidária foi destruída por práticas na década de trinta, sobretudo por sua experiência na Guerra Civil Espanhola, convencendo-se que a destruição do mito soviético era essencial para que pudesse ser revivido o movimento socialista. O  “conto de fadas” rural de Orwell, como ele próprio chamava seu livro,  tem como desfecho (quando a hipocrisia definitivamente se instala) a revelação de um  degradante butim e nos traz de forma inteligente e prosaica (talvez como um antídoto à retórica política enganosa) uma lição que transcende o momento de sua escritura, ilustrando  dessa forma como quem está no poder é capaz de reescrever o passado para controlar o presente; afirmando-se assim como um dos livros políticos mais influentes do século XX.

 

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