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Escritora Keila Marta, da APB, escreve ensaio sobre o livro "Úrsula", de Maria Firmina dos Reis

"O romance Úrsula, demonstra a grandiosidade como uma obra precursora quando diz respeito ao conteúdo abolicionista".

09/06/2021 11h40 Atualizada há 6 dias
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Keila Marta
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REIS, Maria Firmina dos. Úrsula: romance. 6 ed.  Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2017.

Convidada, imortal APB, escritora Keila Marta

Se referir a Maria Firmina dos Reis, seja em relação as suas obras ou a ela mesma é sempre muito desafiador, pois diante de uma sociedade ainda escravocrata, sob o domínio de homens brancos, enfrentando fortes dificuldades, conseguiu extrapolar as normas convencionais, e por isso produziu esse feito para a literatura brasileira.

No anonimato de uma maranhense, surge Úrsula, um romance delineado por uma delicada linguagem, do primeiro, ao décimo primeiro parágrafo do capítulo um, há uma espécie de louvação a natureza, ao cenário, a flora de um recanto do Brasil, ao citar nomes de plantas, como carnaubeiras, atalaias, axixás e jatobá. Logo nas primeiras linhas o narrador enaltece “são vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma [...] (p.27)

Há um outro detalhe que marca essa primeira parte, a cena em que Tancredo após a queda de seu cavalo, num estado de saúde bastante grave é descoberto e ajudado por Túlio, um jovem escravo, e com algumas trocas de cordialidade tornam-se depois bons amigos, a ponto de o bom cavaleiro dar ao outro a sua liberdade, essa atitude demonstra que mesmo naquele período as pessoas boas tratavam os negros com afeição. Na fala de Túlio há esse reconhecimento: “– homem generoso! Único que soube compreender a amargura do escravo” (p. 44)

Diante de tanto sofrimento, Túlio leva o acidentado para a casa de Úrsula, e logo a moça prontamente presta cuidados ao novo hóspede. E, já acomodado em um leito, o “mancebo” como o narrador se refere, sofre febres altíssimas, entrando em delírios relembra a traição amorosa que sofrera, era Adelaide o motivo de tanta tormenta.

Desse modo, as personagens de Maria Firmina, têm esses perfis porque seguem os ideais românticos. Tancredo é um moço boníssimo, verdadeiro, de caráter ilibado, sabe dar atenção as pessoas com bons modos, e Úrsula é desenhada como virgem, ingênua, capaz de amar com os mais puros sentimentos, ou melhor “ela era tão caridosa... tão bela... e tanta compaixão lhe inspirava o sofrimento alheio e lágrimas de tristeza e de sincero pesar se lhe escaparam dos olhos, negros, formosos e melancólicos”. (p.40)

Com o passar dos dias, Tancredo melhora, mas Úrsula dá sinais de aflição, pois sente no seu peito um nascer de novos sentimentos, pois ouvira túlio falar de amor, palavra desconhecida para ela, então questiona “– o que é o amor?” e dizia para si “– meu Deus, que é que eu sinto no coração que me enternece?” (p. 43)

Em meio a esse sentimento e com a convicção do quanto estavam apaixonados, Túlio precisava voltar para casa e depois retornaria para as núpcias. Após a despedida, Úrsula vive momentos de tormenta, enquanto sua mãe Luísa prestes a dar o último suspiro, surge a figura do comendador, seu tio Fernando, uma figura imprevisível, marcado pelo amor e o ódio, começa a encurralar a donzela, que sente no flerte um ar de perigo. (cena no capítulo X)

Os sinais tornam-se mais evidentes, uma carta e por último a sua visita não traz bons sinais, ele cuida de adiantar o que era esperado sobre a vida da pobre senhora. Quando Fernando deixa a casa, Preta Susana foi contar a Úrsula qual era o estado de Luísa, pois havia chegado a hora de dizer adeus. (cenas do capítulo XI)

A pobre mãe escuta as derradeiras reclamações da filha sobre seu tio, e a orienta fugir. Diante do medo, encaminha o corpo ao cemitério, num percurso marcado por fortes cenas de intenso sofrimento, é a parte sombria da história que toma conta. Em meio a tamanha situação, o cavalheiro sente os perigos da sua dama, Tancredo e Túlio vão ao encontro de Úrsula, transpassada de dor, jogada a solidão, que ao ver os jovens encontra forças para fugir. (capítulo XII)

Se trata de uma fuga necessária e precipitada, tendo em vista que o comendador volta da cidade a procura de Úrsula, quase sentido o cheiro dos três retirantes, como um lobo em busca da sua presa, ao não achar fica enlouquecido, desesperado, faz uma varredura até o cemitério e mais uma vez não encontra nenhum sinal de Úrsula. (capítulo XVI)

Os três seguem um caminho aparentemente tranquilo, a moça fica em um convento. Por outro lado, Tancredo segue sua vida, planejando casar-se tão logo fosse possível. Passados alguns dias, chega o tão esperado momento, mas o cerco já está pronto e no meio, Úrsula e o amado unem os laços sem a presença do amigo Túlio, ausência esta que representa perigo iminente. (capítulo XVII)

Já na saída, o confronto é inevitável, o escravo livre já morto e após uma troca de tiros Tancredo e Fernando ficam frente a frente. Diante desse embate, Úrsula ver a vida do seu amado ir embora como um cheiro ao vento, e escuta as últimas batidas de um amor impossível. (capítulo XVII)

Úrsula mais uma vez encontra-se diante da “indesejada das gentes¹”, com isso o sofrimento cresce ao ponto de arrebentar as cortinas da lucidez, pois o seu consciente e inconsciente sabem que, se não pode ser desposada por Tancredo, e não tendo a chance de ter um final feliz, é inconcebível que passe a ser de outro.

Diante do mar de melancolia, “Úrsula tinha os olhos cerrados; dormia o sono agitado do febricitante...” e o comendador se desespera pois sabe que fora castigado pelos males cometidos, só lhe resta tentar reencontrar a jovem por quem ele lutou tanto e gritar “– Úrsula!”, “– Úrsula, em nome do céu, uma só palavra, ainda que seja para amaldiçoar-me...”, no entanto a reposta da jovem não foi do seu agrado.

Então ela desvelou os olhos, e pôs-se a contemplá-lo, muda e impassível como se nada a inquietasse, e depois de alguns momentos levantou-se, deu alguns passos vagarosos e incertos, e voltando-se para Fernando, que a seguia com a vista e com o coração, deixou escapar um sorriso descomposto, que o gelou em neve. (p. 177-178)

Ao final Úrsula inerte na sua loucura, apreciando uma última lembrança feliz, o narrador observa que “...depois, tirando dos cabelos uma florzinha murcha e seca, última que lhe restava da capela, beijou-a, e sorriu-se com ternura” (p. 182) e na sua imaginação conversa com o seu amado “– não vês Tancredo? As flores do nosso noivado! São tão lindas... amo-as!...”, e entre lapsos de dor e delírios Úrsula se despede do mundo.

Portanto o Romance Úrsula, demonstra a grandiosidade como uma obra precursora quando diz respeito ao conteúdo abolicionista, com todas as nuances da literatura europeia, Maria Firmina conseguiu com diferentes particularidades transitar entre o singelo e o cruel, trazendo o sofrimento dos escravos capturados e vendidos, foi capaz de transmitir na fala da preta Susana o contexto e o sentimento dos negros vividos em terra mãe, muito próximo da sensação passada nas imagens do clipe de Clara Nunes da música “Morena de Angola”. Além do mais, as palavras empregadas revelam a magia e o valor cultural da obra em meio as transformações históricas em que a língua é submetida.

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