Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, editor-sênior.
O pintor maranhense João Ewerton apresenta, a partir de 27 de outubro de 2026, no Espaço de Artes Márcia Sandes, na Procuradoria-Geral de Justiça do Maranhão, em São Luís. A priori, essa exposição permite observar como as experiências obtidas ao longo desse período de vivência com as artes em geral, se incorporaram à construção de sua linguagem visual, neste ciclo da vida profissional.
Aliás, a exposição mostra algumas dessas fases pelo prisma único de um artista que não se vincula a escolas - expressionista, cubista ou Abstracionismo. Ele navega por ideias, pincéis, montagens, materiais e cores únicas, como se fossem impressões digitais pessoais e intransferíveis. Esse é o milagre da arquitetura artística da criação ewertoniana.
Em conversa com a editoria, Ewerton confidenciou que a exposição “não se trata de uma retrospectiva de meio século de arte porque mostro o que esse tempo fez (50 anos) com a minha maneira de pintar. Revisitei as principais fases de pesquisa da minha trajetória e recriei cada uma delas com a técnica que domino hoje. Assim, caro amigo Mhario Lincoln, fases é uma experiência sobre o tempo, a memória e a transformação — e, sobretudo, a possibilidade de continuar criando sem abandonar aquilo que me formou.”
Sem dúvida, algo expressivo em sua fala, mesmo porque são fases maduras e consistentes: a primeira fase, denominada “Temática Social”, recupera desenhos inspirados nas populações da Baixada Maranhense, especialmente no cotidiano de Bacurituba, onde ele nasceu.
A segunda, “Sumaimana”, expressão de origem quéchua que o artista traduz como “mais lindo do que o lindo”, aproxima sua pintura do universo indígena brasileiro. Na terceira, “Tupigrafia”, Ewerton investiga os elementos geométricos encontrados nas pinturas corporais e nos padrões decorativos dos povos indígenas das Américas, concentrando posteriormente sua atenção nas manifestações brasileiras.
A quarta fase, “Sacra”, reúne interpretações da vida de São Francisco de Assis, santos profanos e representações do Arcanjo Miguel. A quinta, “Releitura do Frei Cristóvão de Lisboa”, revisita registros históricos da fauna e da flora maranhenses. Aí é que está a grande diferença: o artista também apresenta uma hipótese sobre a autoria de desenhos atribuídos ao religioso português, assunto que exige investigação documental para comprovação das possíveis alterações de assinaturas e identificação dos autores originais.
Na sexta fase, “São Luís em Prelúdio”, João Ewerton transforma os elementos ornamentais da arquitetura maranhense em composições geométricas. Um dos trabalhos dessa série apresenta uma estrutura quadrangular posicionada em losango, organizada por triângulos, planos escalonados e figuras distribuídas simetricamente ao redor de um núcleo central. O amarelo, o vermelho, o laranja, o cinza e o preto substituem a predominância do azul e branco frequentemente associada à azulejaria portuguesa.
Como se vê, o artista abandona – assim - a reprodução literal dos casarões e utiliza seus elementos construtivos como vocabulário plástico. A cidade permanece reconhecível por seus padrões decorativos, suas linhas e suas referências históricas. O título aproxima esse processo da linguagem musical: o prelúdio anuncia uma composição; na pintura, a geometria parece anunciar a cidade antes da representação de suas ruas e fachadas.
A sétima fase, “Diáspora”, recupera referências da ancestralidade africana e das comunidades quilombolas, estabelecendo relações entre a memória histórica e a produção artística contemporânea.
Entre as pinturas dessa investigação, uma representação de um galo permite uma leitura relacionada ao conceito de Sankofa, símbolo do conjunto Adinkra, desenvolvido na tradição cultural Akan, da África Ocidental, especialmente nos territórios dos atuais Gana e Costa do Marfim. Sankofa expressa o princípio de retornar ao passado para recuperar conhecimentos necessários à construção do futuro.
Sua iconografia tradicional apresenta um pássaro com a cabeça voltada para trás, por vezes segurando um ovo no bico, ou uma representação geométrica semelhante a um coração estilizado.
Contudo, João Ewerton modifica essa construção visual ao representar um galo de plumagem vermelha, amarela, branca e azul-escura. O movimento do pescoço, a curvatura do corpo e o desenvolvimento circular da cauda preservam a ideia de retorno, deslocando o símbolo africano para uma interpretação autoral.
A escolha do galo acrescenta outra possibilidade de leitura à obra. Associado ao anúncio do amanhecer, o animal permite aproximar a filosofia africana Sankofa da referência europeia ao solstício; ou seja, a Europa - nesse caso aludindo ao galo de Barcelos - precisa acordar e reconhecer sua ancestralidade incorporada aos símbolos barcélicos de fé, a justiça, a verdade, a esperança e a boa sorte.
A cabeça voltada para trás sugere a recuperação da experiência ancestral; a relação do galo com o amanhecer remete à passagem do tempo e ao reinício dos ciclos, mas sem esquecer a origem. E isso, significa arguir um maior respeito europeu ao continente africano –simbolicamente Gaia, a mãe de todas as raças, deusa primordial da Terra.
A exposição “Fases” apresenta, destarte, uma característica que determina sua interpretação crítica: não reúne simplesmente pinturas antigas, preservadas ao longo de meio século. São obras produzidas a partir da revisão dos sete períodos de criação, utilizando os recursos técnicos que o artista domina atualmente. Isso significa dizer que ao revisitar sua própria história, João Ewerton apresenta uma conclusão que pode ser reconhecida nas duas pinturas analisadas: a memória não permanece imóvel no passado. Ela participa da criação do presente.
QUEM É:
A trajetória de João Ewerton ultrapassa os limites da pintura e reúne experiências no teatro, na literatura, no cinema, na moda e na administração pública. Entre 1975 e 1982, participou das atividades do Laboratório de Expressões Artísticas (LABORARTE), em São Luís, instituição que contribuiu para a formação de artistas e para a pesquisa das manifestações culturais maranhenses. Nesse período, integrou produções teatrais, desenvolveu estudos sobre linguagens artísticas e ampliou suas atividades como criador. Em 1988, concebeu e dirigiu O Navio Negreiro — A Nave dos Loucos 100 Anos Depois, adaptação livre do poema de Castro Alves, espetáculo que, segundo seu currículo, conquistou 18 premiações em festivais nacionais.
Na administração pública, exerceu o cargo de secretário municipal de Cultura e Turismo de Valença, no estado do Rio de Janeiro, em dois períodos: de 1993 a 1996 e de 2013 a 2016. Durante essas gestões, participou da organização de eventos, projetos de preservação do patrimônio, atividades de formação artística e iniciativas de valorização da memória regional. Entre as ações registradas estão a I Feira de Cultura e Turismo, realizada em 1995, com participação de 21 municípios do Médio Paraíba, e o projeto Valença Canta Clementina, promovido em 2013 em homenagem à cantora Clementina de Jesus. Também presidiu o Fórum de Secretários de Cultura da Região do Médio Paraíba no biênio 1994–1996, experiência que ampliou sua participação nas discussões sobre políticas culturais e desenvolvimento regional.
Entre 1998 e 2003, trabalhou em Salvador, na Bahia, em atividades relacionadas à criação de moda e à formação de jovens vinculados ao Projeto Axé, por meio do ModAxé. Essa experiência associou produção estética, figurino e formação profissional.
Em 2003, assumiu a direção do Centro de Arte Japiaçu, em São Luís, participando da organização de oficinas e de iniciativas ligadas à preservação dos saberes artesanais, incluindo ações de formação na área de restauro de azulejos. Sua atuação alcançou ainda a curadoria de exposições, como RecomeçARTE, realizada na Galeria Trapiche, em 2023, além da participação em mostras coletivas, entre elas Ocupa CCVM, promovida pelo Centro Cultural Vale Maranhão em 2017.
Na literatura, João Ewerton desenvolveu trabalhos que transitam entre ficção, literatura fantástica, memória, história e observação social. Entre seus títulos estão Zé Curisco, o Padre e a Santa que Sumiu, O Paiol da História e O Príncipe de Queluz.
Como colaborador da Plataforma Nacional do Facetubes, publicou relatos e reflexões sobre manifestações culturais brasileiras, incluindo a série Águas e Folhas do Amazonas. Integra também a Academia Poética Brasileira. Em 2026, apresentou o projeto Diáspora Maranhense, voltado à pesquisa e à divulgação das contribuições africanas à formação cultural do Maranhão. Essas atividades ajudam a compreender a exposição Fases como parte de um percurso no qual pintura, pesquisa histórica, educação artística e memória social permanecem relacionadas.
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