Dr. Ruy Palhano é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.
O choro humano é uma das manifestações emocionais mais antigas e complexas da nossa espécie. Ele se situa no encontro entre a biologia, a psicologia, a cultura e a vida social. Não deve ser compreendido apenas como reação à tristeza ou à dor, pois também pode expressar alegria, alívio, gratidão, medo, saudade, empatia, emoção estética e experiências espirituais profundas.
Chorar é uma resposta natural diante de situações que ultrapassam momentaneamente a capacidade de expressão por meio das palavras. Desde o nascimento, o choro desempenha uma função indispensável à sobrevivência. Como o bebê ainda não possui linguagem verbal nem autonomia para satisfazer suas necessidades, ele chora para comunicar fome, dor, desconforto, medo ou necessidade de proximidade.
Conforme demonstraram estudiosos como Ad Vingerhoets e John Bowlby, a resposta atenta dos cuidadores ao choro infantil favorece a formação do vínculo de apego, da confiança e da segurança emocional do bebê. Assim, antes de ser sinal de fragilidade, dor ou sofrimento, o choro é uma das primeiras formas de comunicação e de encontro com o outro.
Ao longo do desenvolvimento, o choro deixa de ser apenas um pedido relacionado às necessidades físicas e transforma-se em linguagem emocional. Muitas vezes, ele aparece quando as palavras se tornam insuficientes para representar o que a pessoa sente.
Alguém pode chorar diante da perda de uma pessoa amada, do reencontro com alguém importante, de uma música, de uma obra de arte ou de uma experiência de grande beleza. As lágrimas revelam que o ser humano não é formado somente pela razão, mas também por afetos, vínculos, lembranças e significados.
Na perspectiva psicológica, o choro pode contribuir para a regulação das emoções. Em momentos de elevada tensão, ele permite que sentimentos acumulados encontrem uma forma de expressão. Muitas pessoas relatam alívio, tranquilidade ou maior clareza depois de chorar.
Esse efeito não significa que o choro resolva, por si só, os problemas que provocaram o sofrimento, mas indica que ele pode participar da reorganização emocional e fisiológica do organismo. Sua função parece estar relacionada tanto ao funcionamento do sistema nervoso quanto ao acolhimento recebido depois que a emoção é demonstrada.
O choro também possui uma função social extremamente importante. As lágrimas tornam visível a vulnerabilidade e comunicam aos outros que aquela pessoa necessita de cuidado, compreensão ou proteção. Diante de alguém que chora, geralmente surgem sentimentos de empatia, compaixão e disposição para ajudar.
Desse modo, o choro aproxima as pessoas, reduz distâncias emocionais e fortalece os vínculos. Ele demonstra que a vulnerabilidade não é necessariamente fraqueza, mas uma condição humana capaz de despertar solidariedade e cuidado.
Apesar de ser universal, o choro é influenciado pelas normas culturais. Em muitas sociedades, meninos e homens são ensinados a reprimir as lágrimas, como se chorar fosse incompatível com coragem, maturidade ou força. Essa repressão pode dificultar o reconhecimento e a expressão das emoções, favorecendo sofrimento psíquico, isolamento, ansiedade e manifestações psicossomáticas. Permitir que homens e mulheres chorem, sem humilhação ou julgamento, é reconhecer que a saúde emocional depende também da liberdade de expressar sentimentos legítimos.
O choro tem ainda uma função essencial nos processos de luto e de elaboração das perdas. Chorar pode ajudar a pessoa a reconhecer a ausência, expressar a dor e adaptar-se gradualmente à nova realidade. Entretanto, nem toda pessoa enlutada consegue chorar, e a ausência de lágrimas não significa ausência de amor ou sofrimento.
Em algumas situações clínicas, o choro pode aparecer de modo excessivo, involuntário ou desproporcional, como em certos transtornos neurológicos, quadros depressivos e condições marcadas por intensa desregulação emocional. Por isso, ele deve ser compreendido de acordo com a história e o estado de cada indivíduo.
O choro significa abandonar a ideia de que as lágrimas representam descontrole ou inferioridade. Chorar é uma forma legítima de comunicação, regulação emocional, elaboração da dor e construção de vínculos. Quando acolhido com respeito, o choro permite que a pessoa reconheça o que sente e compartilhe sua experiência com os outros.
As lágrimas não revelam somente sofrimento, dor ou angústias, mas também humanidade, sensibilidade, capacidade de empatia, de amar e possibilidade de reconstrução. Em uma sociedade que frequentemente exige desempenho, pressa e autocontrole permanente, preservar o direito de chorar é preservar uma dimensão humana fundamental da nossa saúde mental e da própria vida humana.
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