Plataforma Nacional do Facetubes — Editoria de Jornalismo, História e Cultura c/Mhario Lincoln & José Salim.
Imagens: Marcílio Dias, gravadas em 2019, em São Luís-Ma (sede provisória da TVFacetubes/MA) | Acervo: VídeosTV do Facetubes
Wilson Nonato de Sousa, conhecido como Bita do Barão, reuniu duas dimensões numa trajetória ligada à religiosidade de Codó, no Maranhão. Em entrevista concedida em 2009 aos jornalistas Mhario Lincoln e José Salim, ele revelou episódios pouco conhecidos de sua vida, explicou como surgiu seu nome religioso, recordou manifestações espirituais que dizia experimentar desde os cinco anos e relatou situações nas quais precisou impor limites aos pedidos de pessoas que procuravam sua orientação.
O depoimento, preservado no acervo audiovisual da Plataforma Nacional do Facetubes, apresenta um homem consciente de sua autoridade dentro do terreiro e das obrigações assumidas perante os encantados de sua tradição.
Bita do Barão revela consultas exdrúxulas, segredos dantes nunca revelados, que o deixou perplexo e relata as provações de sua vida no Terecô de Codó. Assim, nessa conta detalhes e causos que impressionam. Um deles, a origem de seu nome, suas experiências espirituais desde a infância e episódios que marcaram sua trajetória religiosa.
Um pedido para realizar um trabalho espiritual destinado a dominar a vontade de um homem terminou com uma revelação que surpreendeu Bita do Barão: a mulher interessada no serviço estava falando de alguém muito próximo. (Revelação no vídeo abaixo), registro esse que integra o acervo audiovisual da Plataforma Nacional do Facetubes e reúne declarações de uma das lideranças religiosas de maior projeção nacional vinculadas à encantaria maranhense.
Bita do Barão, começou explicando uma particularidade de sua infância. Segundo ele, o apelido Bita surgiu porque gostava de subir em árvores e imitava os movimentos de um bode, animal também chamado de bita em sua região. O Barão veio de seu guia espiritual, identificado como Barão de Guaré. O sacerdote contou que, ainda menino, quando alguém o chamava de Bita durante uma incorporação, respondia: “Não é o Bita, é o Barão”. A associação entre o nome de infância e a entidade passou a identificá-lo publicamente. Bita afirmou que suas manifestações espirituais começaram aos cinco anos. Disse que fazia previsões, era procurado por moradores da região e, naquela idade, já iniciava suas primeiras filhas de santo. São acontecimentos narrados pelo próprio sacerdote a partir de suas convicções e lembranças.
Questionado sobre suas decepções, Bita recordou a visita de um homem de posses que chegou à sua residência acompanhado de uma mulher com quem mantinha um relacionamento extraconjugal. O visitante era casado, pai de vários filhos e conhecido dele. O desenrolar dessa história está no vídeo abaixo. Aliás, Bita fala também dos conflitos que enfrentou ao receber pessoas de diferentes origens e posições sociais.
Vale destacar que o contexto religioso de Codó (MA) ajuda a compreender a formação de Bita do Barão. O Terecô, conhecido também como Tambor da Mata, é uma religião afro-brasileira de provável matriz banta, com influências jeje e nagô, conforme os estudos da antropóloga Martina Ahlert. Possui relações históricas com a Umbanda e o Tambor de Mina, conservando práticas e referências próprias.
Entre as entidades de maior presença na tradição estão os encantados da família de Légua Boji Buá da Trindade, associados às matas da região. Pesquisas de Mundicarmo Ferretti registram que o povoado de Santo Antônio dos Pretos já havia sido estudado pelo antropólogo Octávio da Costa Eduardo, em 1944, período em que manifestações religiosas de origem africana enfrentavam repressão e preconceito. Essas pesquisas permitem situar a trajetória de Bita dentro de uma tradição coletiva, transmitida por comunidades rurais, famílias de santo e sucessivas gerações de praticantes.
Bita do Barão dirigiu a Tenda Espírita de Umbanda Rainha Iemanjá, em Codó, e alcançou projeção nacional por meio de consultas, celebrações religiosas e contatos com personalidades da vida pública. Os festejos realizados em seu terreiro atraíam visitantes de diferentes estados. Sua trajetória também esteve ligada à preservação de práticas religiosas que sofreram perseguição ao longo da história. A entrevista de 2009 apresenta uma dimensão pouco explorada de sua figura pública. A conversa não se limita aos relatos de incorporações e previsões. Bita fala de comportamentos humanos, relações familiares, dinheiro, desejo e respeito às normas de sua casa religiosa. As respostas permitem examinar suas convicções a partir das situações que escolheu narrar.
Bita do Barão morreu em 18 de abril de 2019, aos 86 anos, no Hospital São Paulo, em Teresina, no Piauí. O velório e o sepultamento ocorreram em Codó, com a participação de familiares, integrantes de terreiros e admiradores. Sua filha, Janaína Nonato de Sousa, assumiu papel central na continuidade do trabalho religioso da família. Dezessete anos depois de realizada, a entrevista de 2009 conserva sua importância como registro da história oral maranhense. O material documenta a fala de um homem que influenciou a vida religiosa e cultural de Codó durante décadas. Também permite compreender aspectos do Terecô que exigem conhecimento de suas origens, respeito às comunidades praticantes e reconhecimento da liberdade de culto. A preservação desse testemunho contribui para a memória de uma religião cuja história permanece ligada à resistência afro-brasileira no Maranhão.
VÍDEO-BÔNUS (Entrevista exclusiva com Bita do Barão)
************
FONTES: Plataforma Nacional do Facetubes: entrevista de 2009 realizada por Mhario Lincoln e José Salim, com imagens de Marcílio Dias. Registro de arquivo publicado em 2021. Mundicarmo Ferretti: Formas Sincréticas de Religião Afro-Ameríndia: O Terecô de Codó (MA). Universidade Federal do Maranhão, 2003. Repositório UFMA. Martina Ahlert: Carregado em saia de encantado: transformação e pessoa no terecô de Codó (Maranhão, Brasil). Revista Etnográfica, 2016. Texto científico. Martina Ahlert, Conceição de Maria Teixeira Lima e Lior Zisman Zalis: Morada dos Léguas, terra de encantaria: religião e cidade em Codó (Maranhão). Anuário Antropológico, 2024. Artigo acadêmico.
Os números e a Vida Por que há livros que tentam provar que números não são apenas números? O 7x1, o 9/11, o 27: o que mostram?
FIM DE SEMANA Carlos de Lima registrou o Divino por dentro — e deixou um mapa humano de Alcântara
Convidados Matéria de um dos intelectuais mais festejados do Maranhão atinge mais de 2 mil acessos
ARTES PLÁSTICAS O Maranhão perde uma das expoentes da arte 'Naif', com a morte da artista Dila Rodrigues
Psicanálise Poética Entre a palavra e o que escapa dela: Tereza Braúna Moreira Lima aproxima poesia e psicanálise
EXCLUSIVO Jamilsen Jansen: viajar pelo Nordeste é uma forma de preservar a cultura Mín. 15° Máx. 31°
Mín. 17° Máx. 33°
ChuvaMín. 16° Máx. 20°
Chuva
Dr. Luis Augusto Guterres Direito, cultura e a responsabilidade de pensar, eis as grandes ferramentas democráticas.
Coluna de RUY PALHANO Dr. Ruy Palhano: “O Corpo pode revelar o que se passa conosco”
Academias Brasil/Exterior Coirmãs A angústia de Nauro Machado: o corpo também participa do poema?
DINO DE ALCÂNTARA Dino de Alcântara: “O GRITO DO PRAZER”. A Humberto de Campos