Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
“Somos o que lemos — e também aquilo que desejamos parecer”
A frase da especialista em marketing editorial Dany Sakugawa — “as pessoas também sejam, ou queiram parecer ser, o que leem” — contém duas ideias muito diferentes. A primeira é profunda: a leitura participa da formação humana. A segunda é socialmente desconfortável: o livro também pode ser usado como adereço, símbolo de prestígio ou certificado público de inteligência.
A declaração surgiu em uma reportagem sobre a tendência denominada poet core ou book core, que transporta para a moda a imagem tradicional do escritor e do leitor: roupas sóbrias, alfaiataria descontraída, bolsas inspiradas em clássicos e uma aparência calculadamente intelectual.
Nesse ponto de vista, ler não é simplesmente receber informações. Cada obra oferece palavras para nomear sentimentos, modelos para interpretar conflitos e imagens por meio das quais o leitor reorganiza a própria experiência. Certos livros ensinam a reconhecer a humilhação, a solidão, a injustiça, o desejo, a violência e o amor antes mesmo que essas experiências sejam plenamente vividas.
A literatura não entrega apenas histórias. Elas oferecem estruturas de pensamento. Depois de entrar em contato com determinadas narrativas, o leitor pode passar a perceber pessoas, acontecimentos e relações que antes lhe pareciam invisíveis. A filosofia compreendeu muito cedo essa força. Platão desconfiava da poesia porque acreditava que as narrativas participavam da educação emocional e moral da cidade. Temia que determinadas representações alimentassem paixões desordenadas e modelos humanos prejudiciais.
Aristóteles, embora reconhecesse o mesmo poder, via na tragédia uma possibilidade de conhecimento. Isto é, ao experimentar piedade e temor diante da história alheia, o público poderia compreender melhor as ações humanas e elaborar as próprias emoções. A antiga divergência entre os dois filósofos continua atual. Principalmente na arte, onde essa, pode educar e ampliar a consciência, mas também pode seduzir, manipular ou desorientar.
Por essa razão, esta pauta levou a pesquisas profundas de nossa editoria que revelaram — especificamente — que a leitura de ficção pode estar associada à capacidade de compreender pensamentos e sentimentos de outras pessoas. Esse efeito, porém, não é automático. Porque o aumento da empatia depende do grau de envolvimento emocional do leitor, da qualidade da obra e da maneira como ela é interpretada. Um romance não transforma moralmente alguém apenas por ter sido aberto. É necessário que o leitor aceite confrontar perspectivas diferentes, ambiguidades e personagens que não confirmem somente suas certezas.
Contudo, o que se lê pode influenciar maneiras de falar, vestir, consumir e apresentar-se socialmente. Ora, a leitura não transmite apenas informações. Ela oferece modelos de identidade. Pesquisas sobre exposição ao texto demonstram efeitos sobre o vocabulário e a linguagem Outros estudos mostram que o leitor pode simular pensamentos, emoções e comportamentos das personagens. Essa identificação não transforma todos os leitores da mesma forma, mas pode fornecer referências que posteriormente aparecem na fala, nas escolhas estéticas, nos hábitos de consumo e na imagem que cada pessoa procura comunicar socialmente.
Exemplo: uma pessoa que se identifica com um poeta, uma personagem ou um movimento literário pode incorporar expressões, gestos, roupas e atitudes associados àquela obra. Isso não precisa ser interpretado como superficialidade. A identidade humana também se constrói por símbolos. Uma prova inconteste disso está encravada nas décadas de 70/80/90, no Brasil, quando milhares de jovens vestiam roupas e cultuavam ideias de Che Guevara. O problema aparece quando a leitura deixa de ser experiência interior e passa a funcionar exclusivamente como vitrine ideológica.
Por outro lado, quando o leitor compra a edição sofisticada de uma obra rara e se deixa fotografar com ela, ou é montada uma biblioteca de fachada, com tons meramente decorativos, (decorativa), há clara evidência de que o leitor “de araque” está evitando um confronto real com o texto. Mesmo que “aos outros” pareça algo realmente cultural.
Nesse caso, o livro deixa de ser uma janela para o mundo e torna-se um espelho cuidadosamente posicionado diante dos outros. Também pode ser exemplicada a “rede social”, onde o repertório cultural passou a operar como sinal de disciplina e sofisticação.
Existem casos sérios como a questão ideológica. Aqui, a influência pode ser ainda mais intensa. Narrativas políticas, religiosas, históricas ou ficcionais oferecem heróis, inimigos, vítimas e culpados. Ao organizar os fatos dessa maneira, tais publicações acabam por “ajudar” o leitor a decidir quem merece confiança, compaixão, medo ou desprezo.
Esse caso é chamado de “transporte narrativo”, onde a imersão em uma história pode alterar crenças e avaliações porque envolve simultaneamente atenção, emoção e imaginação. Nesse caso, a ficção pode, inclusive, introduzir informações falsas ou visões distorcidas no sistema de crenças do leitor, sobretudo quando a identificação emocional reduz sua disposição para questionar o conteúdo.
É nesse ponto que surge o lado sombrio. Livros, manifestos e narrativas podem normalizar racismo, misoginia, autoritarismo, perseguição religiosa, culto à violência e teorias conspiratórias. A influência negativa raramente ocorre por causa de uma leitura isolada. Ela se fortalece quando o indivíduo consome repetidamente o mesmo tipo de discurso, rejeita fontes divergentes e passa a habitar uma comunidade na qual todas as interpretações confirmam umas às outras.
Estudos sobre redes sociais identificaram a formação de câmaras de eco caracterizadas pela concentração de usuários semelhantes e pela circulação preferencial de conteúdos que reforçam convicções já existentes. O risco, portanto, não está simplesmente em ler uma obra controversa. está em “levar em frente o que foi lido”. Um dos casos mais discutidos até hoje (sem confirmação lógica) é “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, publicado por Goethe em 1774, cujo protagonista morre por automotivação, após um amor impossível. Relatos históricos atribuíram ao romance casos de jovens que teriam imitado o personagem, inclusive em roupas e circunstâncias semelhantes.
O fenômeno passou a ser chamado de “efeito Werther”, expressão criada pelo sociólogo David Phillips para descrever o as mortes por automotivação, imitanto o personagem. Assim, existem esses livros difíceis, perturbadores ou ideologicamente opostos. O perigo está na leitura sem distância crítica, na submissão emocional ao autor e na transformação de uma narrativa em verdade absoluta.
Uma sociedade intelectualmente saudável não é aquela que proíbe livros, mas aquela que ensina a interrogá-los: quem está falando, quais interesses aparecem, quem foi silenciado, quais fatos sustentam a narrativa e que sentimentos o texto procura despertar.
Um dos casos mais polêmicos e aterradores nessa relação autor-escritor está no filme “Misery”, de 1990, baseado no livro do mesmo nome, do escritor norte-americano Stephen King. A obra mostra o escritor Paul Sheldon que após um acidente é resgatado por uma enfermeira, a Annie Wilkes, declaradamente “fã número um” desse autor. A narrativa se concentra na relação entre os dois, marcada pelo controle absoluto que Annie exerce sobre o autor enquanto o obriga a escrever um novo livro de sua personagem favorita, Misery Chastain. A interpretação de Kathy Bates, que também aparece no universo expandido de Castle Rock, constrói uma figura que oscila entre devoção e violência, sustentando o clima de tensão que define o filme dirigido por Rob Reiner.
Deu para entender até onde pode chegar um livro? Pense nisso quando for escrever seu próximo.
VÍDEO-BÔNUS
(Trailer do filme "Misery")
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