Editoria de Pesquisa e Extensão c/Lorenzo MS
Uma mulher vai comer um camarão. Uma lágrima cai sobre ele. Ao redor, há sepulturas, visitantes e uma refeição em pleno Dia de Finados. Artur Azevedo reuniu fome e sofrimento nesses dois versos, reproduzidos por Machado de Assis: “Um camarão a atrai; / Vai a comê-lo, e nele a lágrima lhe cai.” A cena atravessou o tempo com uma inquietação que permanece: até durante o luto, a vida continua a reclamar o corpo.
O episódio pertence a O Dia de Finados, sátira publicada em 1877 pelo escritor nascido em São Luís. A Academia Maranhense de Letras registra a obra como poesia satírica; a Academia Brasileira de Letras a relaciona pelo título Um dia de finados. Nesse pequeno livro, a visita ao cemitério reúne comportamentos que levam para perto dos túmulos as ocupações, os desejos e as vaidades de quem permanece vivo.
Há comida, bebida alcoólica, encontros amorosos, risos e algazarra. O antropólogo Antonio Motta examina essas passagens no estudo Estilos mortuários e modos de sociabilidade em cemitérios brasileiros oitocentistas. Sua pesquisa situa o texto em uma época na qual os cemitérios também funcionavam como espaços de convivência e exibição social. A visita aos mortos podia oferecer ocasião para observar roupas, encontrar conhecidos e demonstrar prestígio.
O poema chegou ao exame de Machado de Assis em A nova geração, ensaio publicado na Revista Brasileira, em 1º de dezembro de 1879. Machado questionou o acabamento dos versos e a concentração de episódios que, em sua avaliação, comprometia a verossimilhança. Mencionou um credor que aparece para cobrar uma dívida, namorados em encontro e uma viúva que repreende um escravizado. Reconheceu também a emoção dos versos finais, quando o olhar do poeta se dirige à sepultura.
A observação de Machado acrescenta outra dimensão à leitura. A literatura escolhe o que mostra, aproxima acontecimentos e dá forma à experiência. Ao reunir tantas situações em uma visita ao cemitério, Artur Azevedo colocou sob exame a distância entre a solenidade da homenagem e a conduta dos visitantes. A lágrima sobre o alimento ocupa um lugar particular nesse conjunto: nela, o gesto cotidiano encontra uma dor que pode surgir sem aviso.
É possível ler essa passagem como uma imagem da dificuldade de continuar depois de uma perda. Quem vive o luto ainda precisa comer, voltar para casa, cuidar dos filhos, responder a uma voz que chama. A ausência acompanha essas tarefas. Às vezes, alcança a pessoa diante de um prato, de uma roupa guardada, de um lugar à mesa. O sofrimento também acontece durante os movimentos mais comuns do dia.
A sátira permite ainda uma leitura sobre a memória e sua exposição pública. O cuidado com um túmulo pode expressar afeto; a homenagem pode carregar preocupações com aparência e posição social. No cemitério descrito por Artur Azevedo, os vivos levam consigo aquilo que os ocupa fora dele. A proximidade da morte oferece ao leitor uma oportunidade de reconhecer esses comportamentos em si mesmo.
Neste Dia de Finados, a mulher do poema permanece diante do alimento, interrompida pela própria lágrima. Pouco sabemos sobre ela. A imagem nos aproxima de quem já precisou engolir a comida com a garganta apertada pela lembrança de alguém. Artur Azevedo deixou nesse instante uma experiência que muitas famílias conhecem: seguir vivendo com uma pessoa a menos. Mas com sua presença espalhada pela casa.
Fontes: (editoria de Pesquisa e Extensão c/Lorenzo MS).
Academia Maranhense de Letras. Artur Azevedo: biografia e bibliografia.
Academia Brasileira de Letras. Bibliografia de Artur Azevedo.
MOTTA, Antonio. Estilos mortuários e modos de sociabilidade em cemitérios brasileiros oitocentistas. Horizontes Antropológicos, 2010.
ASSIS, Machado de. A nova geração. Revista Brasileira, 1º de dezembro de 1879; texto consultado na edição de Crítica, de 1910. Os versos de Artur Azevedo foram conferidos nessa transcrição.
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