Editoria de Literatura e Arte — Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Obs: não há aqui qualquer relação entre consumo de álcool e produção intelectual. As bebidas aparecem como documentos culturais e biográficos, da mesma forma que cafés, roupas, hotéis, jornais, automóveis, cidades e restaurantes aparecem quando reconstruímos a vida de escritores e artistas.
Sim, um corredor de supermercado pode esconder Andy Warhol, Ernest Hemingway, Charles Baudelaire e parte da história cultural dos últimos dois séculos. Basta diminuir o passo.
Basta prestar atenção — bem atenção — antes de empurrar o carrinho para o corredor seguinte. Há supermercados em que se entra atrás de um item doméstico e, alguns metros depois, estamos diante de uma pequena linha do tempo da arte e da literatura. Uma lata pode deixar de ser apenas alimento. Uma garrafa pode guardar uma passagem biográfica. Uma prateleira de vinhos franceses pode nos levar diretamente a um poema escrito no século XIX. Lembre-se: a prateleira não cobra ingresso. Pede somente alguns segundos a mais de observação.
As latas vermelhas e brancas da Campbell’s são suficientes para acionar uma das imagens mais conhecidas da arte do século XX. Em 1962, Andy Warhol (1928-1987) apresentou Campbell’s Soup Cans: 32 telas correspondentes às variedades de sopa então comercializadas pela empresa. Na exposição realizada na Ferus Gallery, em Los Angeles, as pinturas foram colocadas lado a lado, quase como produtos numa prateleira.
Warhol fez uma operação simples e decisiva: pegou um objeto repetido aos milhares no comércio e o transformou em linguagem artística. O MoMA registra ainda uma explicação dada pelo próprio artista: durante anos, ele havia consumido aquele tipo de sopa no almoço. O cotidiano entrou no museu sem pedir licença.
Há certo humor nisso. Warhol não precisou de castelos, batalhas ou paisagens distantes. Olhou para uma lata. E pronto: boom. A repetição usada pelo comércio tornou-se parte da Pop Art. Hoje, diante de uma fileira de Campbell’s no supermercado, o cliente pode estar olhando para mercadoria e, ao mesmo tempo, para uma referência direta da história da arte moderna.
Sessenta e quatro anos depois, a lata continua lá. Warhol também.
Alguns corredores adiante, na seção de importados, outro nome pode aparecer por associação, após se destacar na fileira de scoths importados o Grand Macnish. É o de Ernest Hemingway (1899-1961).
Jornalista, correspondente de guerra, romancista e autor de The Sun Also Rises, A Farewell to Arms, For Whom the Bell Tolls e The Old Man and the Sea, Hemingway recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1954.
Entre as bebidas ligadas documentalmente à sua biografia aparece o Grand Macnish, blended Scotch whisky criado na Escócia em 1863. Essa ligação rendeu um episódio curioso.
Em janeiro de 1954, durante uma viagem à África com Mary Hemingway, o escritor sofreu dois acidentes aéreos em sequência. As primeiras notícias foram confusas e chegaram a circular informações de que Hemingway teria morrido. Ele reapareceu ferido, vivo e diante de uma imprensa que já transformava o episódio em notícia internacional.
Ao reconstruir aquele período, registros históricos mencionam uma cena quase pronta para um conto: Hemingway reaparecendo depois da sucessão de acidentes acompanhado por dois cachos de bananas, quatro garrafas de cerveja Carlsberg e uma garrafa de Grand Macnish. O escritor trataria posteriormente da experiência em The Christmas Gift, publicado pela revista Look em duas partes, em 20 de abril e 4 de maio de 1954.
É o tipo de detalhe que transforma uma garrafa de blend numa cápsula histórica. Quem passa rapidamente pelo corredor vê apenas um scotch. Quem conhece o episódio - ao contrário - pode enxergar Uganda, aviões destruídos, manchetes precipitadas e Hemingway reaparecendo para contar a própria história.
Contudo, nada disso transforma bebida em combustível de literatura. Por isso esta editoria mostra interesse neste texto, somente como documento histórico. Porque objetos, também acompanham personagens históricos. Algumas vezes permanecem nas fotografias, nas cartas, nas reportagens e nas memórias. Certo?
Essa razão nos leva a um segundo e importante adendo: as citações aqui dos produtos e marcas não tem absolutamente nenhuma relação comercial. Mas sim, de restrita intenção literária e histórica.
Chegamos, agora, à seção de vinhos franceses. A associação agora conduz a Charles Baudelaire (1821-1867), poeta, crítico de arte, tradutor de Edgar Allan Poe e autor de Les Fleurs du mal, publicado em 1857. Aqui a ligação deixa de ser apenas biográfica. O vinho está dentro da própria obra.
O livro As Flores do Mal contém uma seção intitulada “Le Vin”, formada por cinco poemas. Em L’Âme du vin — A Alma do Vinho — Baudelaire realiza uma escolha poética direta: dá voz ao vinho aprisionado na garrafa.
L'Ame du Vin (Charles Baudelaire)
Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
"Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité! (...)".
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Certa noite, a alma do vinho cantava nas garrafas:
"Homem, a ti dirijo, ó caro deserdado,
Sob minha prisão de vidro e meus lacres vermelhos,
Um canto cheio de luz e de fraternidade! (...)".
Baudelaire já havia publicado, em 1851, Du vin et du haschisch, comparés comme moyens de multiplication de l’individualité, texto em que discute percepção, comportamento, consciência e estados de alteração. Por isso uma simples adega de supermercado pode criar um efeito inesperado. O cliente procura uma garrafa. A literatura encontra Baudelaire.
E então aparece o absinto. Mais adiante surge outro objeto carregado de história cultural: o absinto, a célebre fée verte, a “fada verde” dos cafés parisienses do século XIX. Baudelaire aparece ligado historicamente a esse ambiente, assim como Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Alfred Jarry e Oscar Wilde, entre outros nomes associados à vida artística europeia daquele período.
Vale acrescentar que o interesse cultural pelo absinto ultrapassou o copo. A bebida entrou em pinturas, poemas, caricaturas, discussões médicas, jornais e debates públicos. Tornou-se parte da iconografia de uma época. Verlaine, por exemplo, ofereceu outra conexão interessante. Sua poesia recebeu influência decisiva da renovação iniciada por Baudelaire. Musicalidade, ritmo, sugestão e atmosfera passaram a ocupar um espaço crescente, contribuindo para mudanças que desembocariam no simbolismo francês.
De repente, aquela garrafa quieta de absinto na prateleira ficou menos quieta porque carrega cafés de Paris, livros, poemas, pintores, discussões estéticas e uma cidade que ajudava a redefinir a arte europeia. E quem diria que corredores de supermercados podem esconder tesouros da história mundial? Uma biblioteca entre os atiçados passos da clientela.
Pois bem. Depois desse pequeno percurso, fica difícil olhar um supermercado apenas como espaço de compras. Arte e literatura circulam pelos objetos comuns. Warhol encontrou numa lata produzida em série uma das imagens centrais da Pop Art. Hemingway deixou um scotch registrado entre os objetos de uma aventura africana que quase terminou de outra forma. Baudelaire colocou o vinho dentro de As Flores do Mal e transformou uma bebida cotidiana em personagem poético.
Talvez seja esse o detalhe mais interessante. Entrar no supermercado com uma lista: arroz. Café. Leite. Alguma coisa para o jantar. Então diminuímos o passo. E "booommmm": numa prateleira anônima, lá está Warhol. Algumas fileiras depois aparece Hemingway. Na adega francesa, Baudelaire espera há mais de um século esse contato visual. Mesmo assim, o supermercado continua sendo supermercado. Só que, de repente, também virou biblioteca, museu e arquivo histórico.
Bastava olhar.
Editoria de Literatura e Arte — Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
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Fontes principais consultadas: Museum of Modern Art — MoMA, acervo e estudos sobre Campbell's Soup Cans MoMA — Campbell's Soup Cans; Nobel Prize Outreach, biografia e Nobel de Ernest Hemingway Nobel Prize — Ernest Hemingway; ScotchWhisky.com, história do Grand Macnish e registro da associação com Hemingway Scotch Whisky — Grand Macnish; arquivo da Time, referência ao relato africano de Hemingway ; Poetry Foundation, biografia e obra de Charles Baudelaire Poetry Foundation — Charles Baudelaire; edição histórica de Les Paradis artificiels e Du vin et du haschisch ; Oxford Research Archive, estudo sobre a embriaguez na prosa de Baudelaire ; Food, Culture & Society, estudo histórico sobre a mitologia cultural do absinto.
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