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Friedrich Nietzsche morreu em 1900, quase um século antes de as redes sociais entrarem na vida cotidiana. Ainda assim, quem lê o capítulo “Das moscas do mercado”, da primeira parte de “Assim falou Zaratustra”, encontra situações bastante familiares. Gente disputando atenção, pessoas que precisam de aplausos, opiniões cobradas a todo instante e indivíduos que acabam feridos pela insistência dos outros. O livro, escrito originalmente em alemão, teve suas três primeiras partes publicadas entre 1883 e 1884. A quarta foi impressa em 1885, em edição privada. Nietzsche examinava o comportamento humano em seu próprio tempo. A semelhança com o mundo digital surge da leitura que podemos fazer hoje.
No capítulo, o mercado representa o lugar do barulho, da exposição e da disputa por reconhecimento. É onde aparecem os chamados grandes atores, personagens que conquistam a multidão pela capacidade de representar e convencer. Enquanto isso, aqueles que realmente criam valores novos, seguem trabalhando longe dos aplausos. Basta olhar para uma rede social e perceber como essa imagem continua atual. Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas pela maneira como foi apresentada, independentemente da qualidade de seu conteúdo. O espetáculo ganha público. O trabalho de reflexão nem sempre recebe a mesma atenção.
Nietzsche observa também a exigência de tomar partido. No mercado, todos querem uma resposta: sim ou não, a favor ou contra. Nas redes, essa cobrança aparece nos comentários, nas discussões e nas campanhas que exigem manifestações imediatas. Muitas vezes, quem prefere examinar os fatos antes de opinar acaba pressionado a escolher um lado. O filósofo chama atenção justamente para o tempo necessário à formação do pensamento. Nem toda questão precisa ser resolvida no calor de uma discussão. Algumas exigem leitura, experiência e silêncio.
É nesse ambiente que surgem as moscas do título. Elas representam as pequenas agressões, as provocações e as tentativas de atingir alguém pelo desgaste. Uma ofensa isolada pode parecer insignificante. Dezenas delas, repetidas diariamente, conseguem consumir a atenção de qualquer pessoa. Nietzsche percebe ainda que os elogios também podem aprisionar. Quem passa a viver em função da aprovação alheia corre o risco de perder a liberdade de pensar por conta própria. Na internet, essa dependência pode aparecer tanto no sofrimento causado pelos ataques quanto na necessidade permanente de receber curtidas e reconhecimento.
Essa comparação exige um cuidado. Discordar de uma publicação, apontar um erro ou cobrar explicações são atitudes próprias do debate público. A crítica fundamentada contribui para esclarecer os fatos. A agressão pessoal, a humilhação e a perseguição repetida pertencem a outro campo. Isso serve também para quem tenta chamar todo crítico de mosca. Isso seria uma maneira de fugir da responsabilidade pelo que se publica. A liberdade de expressão também envolve responder pelo conteúdo divulgado e reconhecer quando uma informação precisa ser corrigida.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han ajuda a compreender essa diferença. Em “No enxame”, ele examina uma sociedade conectada, na qual as reações acontecem quase instantaneamente. Uma frase provoca indignação, a indignação reúne milhares de manifestações e, pouco depois, outro assunto ocupa o mesmo espaço. Han observa que essa agitação pode reunir pessoas em torno de um escândalo sem formar uma comunidade capaz de desenvolver uma ação coletiva duradoura. Seu pensamento aproxima-se da inquietação de Nietzsche diante de uma multidão que reage mais depressa do que reflete.
Diante desse cenário, o conselho de Zaratustra para procurar a solidão adquire outro significado. Nietzsche fala da árvore, da floresta e do rochedo como lugares onde o indivíduo pode se afastar do ruído e recuperar a própria capacidade de pensar. Trazida para o presente, essa imagem não precisa significar abandonar as redes sociais. Pode representar a decisão de fechar a tela por algum tempo, ler um livro, conferir uma informação, desenvolver uma ideia ou simplesmente deixar uma discussão terminar sem participar dela. O silêncio, nesse caso, permite recuperar o tempo que a exposição constante costuma consumir.
Há também uma questão que interessa especialmente aos escritores, jornalistas, artistas e demais criadores. A visibilidade de uma obra não determina seu valor. Um poema pode receber poucas leituras e permanecer na memória de alguém durante anos. Uma publicação pode alcançar milhões de visualizações e desaparecer no dia seguinte. Nietzsche já distinguia o criador daquele que conquista aplausos pela representação. Na vida digital – pasmem - a diferença merece atenção, principalmente quando números de seguidores e curtidas passam a funcionar como medidas de autoridade intelectual.
Enfim, se Nietzsche tivesse uma rede social, ninguém poderia afirmar como ele se comportaria. Seus escritos permitem imaginar um pensador atento aos mecanismos de aprovação, às disputas por prestígio e à liberdade de quem decide seguir outro caminho. Desta forma, participar da internet como ela se transformou hoje, não exige responder a tudo, agradar a todos ou transformar cada pensamento em espetáculo. A liberdade de criar também depende da liberdade de escolher o momento de falar e de permanecer em silêncio.
Fontes consultadas: Friedrich Nietzsche. Assim falou Zaratustra, primeira parte, capítulo “Das moscas do mercado”. Texto consultado na tradução inglesa de Thomas Common. Byung-Chul Han. In the Swarm: Digital Prospects — No enxame. Apresentação e excerto disponibilizados pela MIT Press. Pierre Lévy. “IEML: A Project for a New Humanism”. Entrevista a Sandra Álvaro, CCCB, 26 de março de 2014. Soroush Vosoughi, Deb Roy e Sinan Aral. “The spread of true and false news online”. Science, v. 359, n. 6380, 2018. Resumo disponibilizado pelo MIT. Guy Debord: A sociedade do espetáculo, especialmente teses 4, 17 e 30. John Stuart Mill: Sobre a liberdade, capítulo II, sobre liberdade de pensamento e discussão. Nietzsche Source: edição crítica digital das obras e cartas, organizada por Paolo D’Iorio, com base na edição de Giorgio Colli e Mazzino Montinari.
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