DIONE M.S.ROSA
[...] E o sonho transformou-se-lhe – Corria
Num rápido corcel cuja brancura
Reluzia nas trevas, entre a densa
Escuridão da noite, como fósforo,
Com um fulgir de seda tremulante.
Dos olhos do corcel partiam lumes
De vermelho fulgor; as largas clinas
Soltas ao vento, floreadas, trêmulas
Refulgiam nas tênebras, mas pálidas
Como um perfil de morto.
(Álvares de Azevedo)
Figura central do ultrarromantismo brasileiro, Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831–1852) é frequentemente lembrado pela melancolia adolescente, pelo tédio existencial e pelo fascínio mórbido nas clássicas obras Lira dos vinte anos, Noite na taverna e Macário. No entanto, por trás da brevidade de sua vida — interrompida aos 21 anos —, esconde-se um intelectual cosmopolita e erudito que dominava múltiplos idiomas e dialogava diretamente com os grandes mestres europeus.
Entre sua densa produção, destaca-se O Conde Lopo. Escrito a partir de 1848 e publicado apenas postumamente em 1886, o texto permaneceu por décadas à margem da crítica, muitas vezes rotulado de forma injusta como um poema inacabado ou uma obra menor.
Longe de ser apenas um rascunho de juventude, O Conde Lopo é uma arrojada recriação da epopeia clássica sob a ótica da modernidade romântica. Em vez de seguir modelos rígidos, o autor funde diferentes modos literários — lírico, narrativo e dramático — em uma engenhosa estrutura de histórias encaixadas (mise-en-abîme).
Inspirado por pensadores e poetas como Lord Byron, Théophile Gautier, Novalis e Friedrich Schiller, Álvares de Azevedo insere no prefácio da obra reflexões teóricas profundas sobre a "arte pela arte", a moralidade na poesia e a harmonia entre o belo, o sublime e o grotesco.
O ápice estético do poema ganha forma no célebre Canto IV, intitulado “Fantasmagorias”. Nele, o autor constrói uma atmosfera gótica arrebatadora, povoada por esqueletos dançantes, orgias macabras e espectros à beira de sepulcros, evocando as famosas baladas alemãs (como Lenore, de Bürger).
Ao utilizar o grotesco para evidenciar o sublime, o poeta explora o horror e o transcendental sem perder o lirismo, refletindo a boemia e os debates filosóficos que fervilhavam nos corredores da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo.
Mais do que um expoente do século XIX, Álvares de Azevedo antecipou estéticas que só floresceriam décadas mais tarde:
O Conde Lopo revela-se, assim, um verdadeiro tratado estético e uma das realizações mais ousadas da literatura nacional. Ao unir o gótico, a filosofia e a experimentação formal, Álvares de Azevedo consolidou um legado que ultrapassa seu tempo e merece figurar no topo do cânone ultrarromântico.
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O PRESENTE TEXTO INSERE-SE NA TESE CONCLUÍDA EM 2024 POR DIONE M.S.ROSA INTITULADA: REVITALIZAÇÃO DA ESTÉTICA ULTRARROMÂNTICA EM O CONDE LOPO (1886) DE ÁLVARES DE AZEVEDO: CONTORNOS DE UMA POÉTICA AVANT-LA-LETTRE
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