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“AMIZADE, LIVROS, HISTÓRIA(S)”, mais um texto de Edmilson Sanches

Da Presença Caxiense e Maranhense em Livros Cearenses

15/01/2026 às 15h29
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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Original do texto.
Original do texto.

Edmilson Sanches

FOTOS: Os números 1 e 10 da publicação “Scriptorium”, da Associação Brasileira de Bibliófilos. Os livros “Arquivos do Barão de Studart” e “Uma História do Brasil em Manuscritos” e o autor, José Augusto Bezerra, com Edmilson Sanches, em solenidade na Academia Cearense de Letras.

Em um sábado, 29 de março de 2025, em Fortaleza (CE), por benemerência do doador  -- mais que pelo mérito do recebedor --, chegou-me às mãos nada menos que dezoito preciosidades bibliográficas. Foram um presente, com gentis dedicatórias, do companheiro (de Rotary), colega (de escritas), confrade (de academia) e amigo (de sempre) José Augusto Bezerra, talentoso e, tanto quanto, ativo e operoso homem de cultura, membro e presidente de entidades de nome regional e nacional e autor de trabalhos de reconhecimento e premiação internacionais.

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No geral, os livros que me foram doados são obras de difícil conseguimento em livrarias e até mesmo em sebos. Acho que um dos itens, a coleção completa, de dez volumes (2009-2023) da revista-livro “Scriptorium” (veja mais abaixo), publicação da Associação Brasileira de Bibliófilos, é atualmente algo quase impossível de se obter.

José Augusto Bezerra, administrador de formação e confirmação, foi destacado gestor regional de empresa multinacional, de produtos e marcas mundiais, onde investiu talento e esforços e conseguiu resultados que o levaram ao mérito de ao menos oito medalhas de ouro. Foi professor universitário e um dos profícuos governadores do Rotary International, Distrito 4490, formado pelos Estados do Maranhão, Piauí e Ceará. (Morando em Fortaleza, fui um dos membros de sua Governadoria.)

Com semelhante denodo e eficácia, Zé Augusto administrou, como presidente, a Academia Cearense de Letras, o Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico), a Academia Maçônica de Letras do Ceará, a Associação Brasileira de Bibliófilos (ABBi), que fundou e onde continua à frente como gestor. É também membro da Academia Cearense da Língua Portuguesa, Academia Fortalezense de Letras, Academia Cearense de Retórica e de outras Instituições, nacionais e estrangeiras, inclusive somo sócio correspondente e benemérito.

Autor e coautor de rica bibliografia, José Augusto Bezerra cultiva em seus livros desde os assuntos de bibliofilia e bibliológicos em geral até o romance histórico e a História propriamente dita. Rica iconografia e detalhados textos são tratados, trabalhados, nessas obras, com adequados projetos gráficos, que se assentam sobre material de alta qualidade gráfico-industrial.

 

OS LIVROS - Entre essas obras “augustas”, de autoria ou coautoria, coordenação ou organização do dedicado autor cearense, listam-se grandes livros como “Uma História do Brasil em Manuscritos” e “Arquivos do Barão de Studart” (no singular na ficha catalográfica: “Arquivo”), os quais abordarei mais adiante, e também:

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--- “A Carta de Américo Vespúcio, em Lisboa (1504)”, com Ingrid Schwamboru (Edições UFC, Fortaleza, 2019; edição bilíngue: português/alemão, 228 páginas, formato 21 cm X 29,5 cm, ilustrado);

--- “Haydn, Mozart e Neukomm na Corte Real do Rio de Janeiro (1816-1822)”, com Ingrid Schwamboru e Maria Elias Soares (Edições UFC, Fortaleza, 2010; edição bilíngue: português/alemão, 370 páginas, formato 17,5 cm X 25,5 cm, ilustrado);

--- “Um Novo Olhar sobre ‘O Quinze’ de Rachel de Queiroz”, com Ingrid Schwamboru e Maria Elias Soares (Edições UFC, Fortaleza, 2014; edição bilíngue: português/alemão, 508 páginas, formato 17,5 cm X 25,5 cm, ilustrado);

--- “XIX Instituto Rotário do Brasil” (Fortaleza, 1996, 216 páginas, formato 18,7 cm X 25 cm, ilustrado), uma bem documentada obra sobre encontro de administradores do Rotary International, realizado em Fortaleza na gestão distrital de José Augusto Bezerra; e

--- “O Espírito do Sucesso”, definido como “romance épico baseado na vida de Alexandre, o Grande”, publicado em 2004, com 244 páginas, formato 14 cm X 21 cm, ilustrado  --  com segunda edição em breve, que certamente repetirá o êxito da primeira, merecedora de reconhecimentos como o de Marilda Corrêa Ciribelli, que considerou “O Espírito do Sucesso” uma das melhores obras do mundo sobre a vida de Alexandre da Macedônia, que viveu no século 4 antes de Cristo. Marilda Ciribelli é especialista em História Antiga e Medieval, com estudos em Roma, professora doutora, titular do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Outras obras vieram a público tendo nos bastidores, para sua existência, a decisiva contribuição e esforço do José Augusto, entre elas a “Revista do Instituto do Ceará”, como em 2012, cujo volume, nº 126, tem mais de 340 páginas. Também, um livro “post-mortem” da notável escritora cearense, Rachel de Queiroz, com 35 poemas selecionados de entre rica e até inédita coleção de textos poéticos da autora de “O Quinze”. Trata-se, a seleta poética, de “Serenata: Poesias”, com apreciação de dois conterrâneos de Rachel: prefácio da escritora Ana Miranda e posfácio do próprio José Augusto. O mimoso livro, com formato 15 cm X 18,5 cm, tem 123 páginas e traz três fotos de Rachel de Queiroz em diversas fases da vida. Lançado em 2010, em abril de 2023 já estava na quarta reimpressão.

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“SCRIPTORIUM”Da Associação Brasileira de Bibliófilos, a revista “Scriptorium” é, por assim dizer, seu item de maior documentação e de mais exposição de conteúdos, informações, conhecimentos, às vezes em textos bilíngues. Verdadeira “pièce de résistance”, cumpre a dupla e difícil missão de alimentar mentes e perdurar em tempos dementes, de pouco caso com a leitura, em especial a leitura em suportes físicos, impressos.

A “Scriptorium” é um publicação diferenciada, dedicada, sobretudo, mas não apenas, a temas relacionados ao livro  -- “noblesse oblige”; afinal, trata-se da publicação oficial da maior entidade do País a reunir colecionadores, cultores, leitores, em suma etimológica, amigos dos livros (daí, “bibliófilos”).

As edições de 1 a 10 eram a coleção pessoal do próprio doador, que me disse que posteriormente saberá formar uma outra série completa. Tenho, portanto, motivo(s) para adubar cá dentro um sadio desvanecimento... Os dez números da exclusiva “Scriptorium” abarcam exatos 15 anos, de 2009 a 2023 (não saíram edições em 2011, 2014, 2017, 2020 e 2022; Lúcio Alcântara, médico, político, escritor e bibliófilo, editor da “Scriptorium” do início até hoje, registrou, em editorial, as razões: “dificuldades”, “óbices”, “elevação dos custos”, “pandemia”...). A revista, desde seu primeiro número, teve duas mestras como editoras-adjuntas: Regina Pamplona Fiúza, que cuidou das edições 1 e 2, mestra em Letras Vernáculas e Literatura Brasileira (UFRJ), da ABBi, Academia Fortalezense de Letras, Sociedade Amigas do Livro e diretora administrativa da Academia Cearense de Letras; e Sílvia Maria Aragão de Andrade Furtado, que está a partir da edição 3, mestra em Educação (UFC), secretária-executiva da Fundação Waldemar Alcântara (Fortaleza – CE), onde é responsável pela formatação de projetos e coordenação das publicações.

As dez edições, com os editoriais, totalizam 124 textos bem distribuídos em 1.280 páginas, com dez a até catorze textos por edição, cada uma com diferente número de páginas, no mínimo 96 e máximo de exatas 200 páginas. À exceção da edição nº 4, todas as demais têm ilustrações. A partir do nº 3, “Scriptorium” traz reproduções de imagens, cartonadas, coloridas, encartadas em bolsa na terceira capa ou mesmo soltas, dentro de cada exemplar.

 

O BARÃO – Em sua farta e fértil vida de médico e historiador, filho de comerciante britânico e de mãe com ascendentes políticos e empresariais, o cearense Guilherme Chambly Studart (1856-1938), o Barão de Studart, era comprometido com tudo o que era: abolicionista ativo, católico militante, médico dedicado, historiador produtivo. O Ceará era sua seara. Mas às vezes, condescendente, se atinha a investir seu enorme e consistente talento cuidando de algum aspecto histórico de outros Estados  -- Pernambuco e Maranhão, por exemplo (como os documentos publicados em edição de 1906 da “Revista do Instituto do Ceará” relacionados a decretos de 1648, os quais o Barão ofereceu, respeitantes a “mercês” [recompensas, benefícios, presentes] para índios).

A grande obra “Arquivos do Barão de Studart”, com a coordenação geral de José Augusto Bezerra, tem 160 páginas em formato 28,8 cm X 27 cm. Reproduz mais de 170 documentos (fotos, mapas, tabelas, esboços, panfletos, correspondência etc.). Gentil, Bezerra escreve na dedicatória: “Ao inspirado estudioso Edmilson Sanches, este escorço sobre a História, a Geografia e a Antropologia do Ceará. Um dos bons livros sobre a nossa Terra de Iracema”.

O Maranhão  -- de cujo território o Ceará capitania foi parte --, em pelo menos uma dúzia de vezes é menção, referência nessa obra majoritariamente cearense. Logo na página 41 é reproduzido documento de 9 de julho de 1659, de Martim Soares Moreno (1586-1648), que já tinha estado no Maranhão em 1612, observando os franceses, e em 1615, auxiliando na expulsão deles. Nesse manuscrito, Moreno, militar português e capitão-mor do Ceará, manifesta insatisfação com a “dependência política” da sua capitania ao Estado do Maranhão. Ele lista justificativa para o Ceará ficar sob os cuidados de Pernambuco. Esse raro documento contribui também para ampliar o número de anos vividos por Martim Moreno, já que há registros dando conta de que ele teria morrido em Portugal “após 1648”. Agora acrescente-se mais onze anos, devendo-se escrever “após 1659”.

Na página 42, documento assinado pelo marquês do Maranhão, “O Lobo do Mar” (o almirante britânico Thomas Cochrane, 1775-1860) anuncia em 02/11/1824 recompensa para quem “prender” o “chefe insurgente” cearense coronel Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, 1789-1825 (não confundir com “Tristão de Alencar Araripe”, como está grafado na obra, que foi o quinto dos nove filhos do coronel insurgente e tinha só quatro anos quando o pai, um militar revolucionário, foi assassinado pelas tropas do Império).

A mando do imperador Dom Pedro 1º, o coronel Tristão esteve em minha cidade, Caxias (MA), e auxiliou o baiano José Pereira Filgueiras, o “Napoleão das Matas” e capitão-mor do Crato (terra de Tristão), a prender o general e comandante português João José da Cunha Fidié, em 31 de julho de 1823.

Na página 74, os “Arquivos” registram que “(...) Fortaleza era o porto mais próximo da Europa e se situava entre duas províncias economicamente importantes – Pernambuco e Maranhão.” Duas páginas depois, nova menção à terra maranhense: “Em 1882, a empresa American Telegraph and Cable Cº. Ltd. instala o Cabo Submarino ligando Fortaleza com o sul do país e o Maranhão. Estes serviços impulsionaram o desenvolvimento da capital na segunda metade do século XIX.”

 

Logo adiante, na página 78, o registro de que, “nos anos de 1860”, a Companhia Maranhense de Navegação a Vapor, aportando nas cidades de Amarração, Granja, Acaraú e Fortaleza, era uma das três que “atracavam em portos cearenses”.

 

Antes dos transportes, as comunicações: em correspondência de 24/05/1815, mostrada na página 83 dos “Arquivos”, Simplício Dias da Silva (1773-1829) pede agência dos Correios para sua terra natal, Parnaíba, e também “para Maranhão e Pernambuco”. A carta era dirigida ao à época governador-geral da capitania do Ceará, Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire (1778-1856), que governou o Ceará de 1812 a 1820. A lembrança do Maranhão por Simplício reforça a conexão que ele tinha com a província vizinha: ele estudou no Maranhão e, depois, no exterior; era um dos mais ricos homens do Piauí e do Brasil e em 1822 foi convidado por Dom Pedro 1º para ser o primeiro presidente da província do Piauí, convite que não aceitou em função dos muitos negócios que tinha.

O livro “Arquivos do Barão de Studart” continua com as menções ao Maranhão. Na página 103, se não a terra, um filho dela. Está: “É possível reconstruir a relação entre as Ciências Sociais, a Geografia e o pensamento médico brasileiro, através das obras de Nina Rodrigues e seus ‘Tratados de Antropologia Física’ (...)”. O maranhense Raymundo Nina Rodrigues (1862–1906), que faleceu em Paris (França) com 43 anos, foi médico (legista, epidemiologista, sexologista, dietólogo, psiquiatra e especialista em doenças tropicais), antropólogo, etnólogo, biógrafo, professor e escritor; é o fundador da Antropologia Criminal brasileira, primeiro a realizar estudos sobre a cultura negra no país e patrono da Medicina Legal no Brasil.

Na página 119, documento de 17/01/1907 trata da “separação entre Igreja e Estado na França”. Sobre o assunto, lateralmente: No Brasil, texto sobre a separação Igreja—Estado e a liberdade de crença e culto, redigido por Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927), maranhense de Caxias, foi incluído na Constituição Brasileira de 1891. Até fevereiro desse ano a Constituição de 1824 estabelecia uma única religião  -- oficial --  para os brasileiros.

Na página 131 o livro mostra documento de 08/07/1656, em que o paraibano André Vidal de Negreiros (1606-1680), então governador e capitão-geral da Capitania do Maranhão e do Grão-Pará, destaca, “em nome dos oficiais da Capitania do Ceará”, “o estado de miséria no qual se encontra a região (...)”. Foi uma necessária lembrança e cobrança, mas André Vidal logo deixaria o governo, transferindo-o para Agostinho Correia 77 dias depois da data dessa correspondência. Encerrava assim seu curto mandato, de 16 meses e 12 dias (11 de maio de 1655 a 23 de setembro de 1656).

O livro exibe ainda cópia de uma “relação do padre Luís Figueira, da Companhia de Jesus Superior, sobre mudanças a serem feitas no Maranhão e no Grão-Pará, com vistas a corrigir problemas relacionados à invasão de holandeses e franceses.” O documento manuscrito traz uma data, 2 de agosto de 1623. O religioso português Luís Figueira, nascido nos meados da década de 1570 e falecido em 1643, além de padre jesuíta, é autor da “Arte da Língua Brasílica”, tida como uma das primeiras gramáticas da língua tupi. Ele esteve em 1607 e 1608 no Ceará e no Maranhão. No Ceará participou da primeira missa realizada nesse território. No Maranhão, em 10/01/1608, viu morrer seu colega padre Francisco Pinto. Figueira escapou e escreveu e publicou sua “Relação do Maranhão”, obra onde relata o que aconteceu na atribulada viagem. O padre Figueira, que retornaria ao Maranhão em 1621, escreveria diversas outras obras, delas publicadas em Portugal: “Dificuldades da Missão do Maranhão”, de 1609; “Relação de Vários Sucessos Acontecidos no Maranhão e Grão-Pará (...)”, de 1631; "Missão que Fez o Padre Luís Figueira da Companhia de Jesus, Superior da Residência do Maranhão, Indo ao Grão-Pará, Camutá e Curupá, Capitanias do Rio das Amazonas, no Ano de 1636"; e também o “Memorial sobre as Terras e Gente do Maranhão & Grão-Pará & Rio das Amazonas” (1637).

Outros registros e menções e inter-relações devem (es)correr pelos textos postos e documentos expostos nos “Arquivos do Barão de Studart”. Trabalho para estudiosos e analistas mais percucientes. De todo modo, o Barão de Studart e descendentes ou familiares comprovadamente têm o Maranhão como objeto de seus estudos e publicações. O fortalezense Carlos Studart Filho (1896-1982), que foi médico, jornalista, historiador, geógrafo, indianista e militar (chegou a general de divisão), escreveu “Fundamentos Geográficos e Históricos do Estado do Maranhão e Grão Pará” (358 páginas; Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1959) e “O Antigo Estado do Maranhão e suas Capitanias Feudais” (360 páginas; Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1960)

 

BRASIL EM MANUSCRITOS – A grande obra “Uma História do Brasil em Manuscritos”, de 2012, bilíngue, ilustrada, colorida, impressa em papel “couché” de 175 g/m2, 240 páginas, 30 cm X 30 cm, mereceu o prestigioso Prêmio Fundação Calouste Gulbenkian, da Academia Portuguesa da História (Lisboa, Portugal), e também premiação da Biblioteca Britânica de Londres, na Inglaterra. O exemplar desse livro que me chega vem com a dedicatória do seu autor, José Augusto Bezerra: “Ao grande tribuno e amigo Edmilson Sanches este mais completo livro de manuscritos do nosso País. (...). Estou terminando o volume dois. Quando estiverem juntos será uma importante obra sobre a História brasileira.”

Embora a observação do José Augusto, não é de todo necessária a desejada, esperada publicação do segundo volume para “Uma História do Brasil em Manuscritos” ser “importante”. O volume inicial tem sua autonomia e sua excelsa importância para os que sabem o que ele contém, o de que ele trata  --  e reconheça-se o tanto que se afadigou e investiu o autor para, primeira e continuamente, reunir e preservar tantos documentos primários, além, é evidente, de escrever, organizar, recorrer a especialistas (paleógrafos, bibliotecários, tradutores etc.). Ter um livro de peso (literalmente), de beleza e de utilidade desses nas mãos nem de longe comunica, ao leitor ou consulente menos reflexivo, o quanto há de gasto e desgaste para se apresentar finalmente uma obra assim às (não muitas) pessoas e instituições interessadas.

O Maranhão comparece com diversos registros nessa obra. Minha cidade, Caxias, está indiretamente presente na página 159, em texto sobre “O Pacificador” Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, título de nobreza que ele obteve em 1869, antecedido do título de marquês em 1852 e de conde em 1845 e, todos esses, corolário do título inicial, o de barão de Caxias, de 18 de julho de 1841. Portanto, foi o nome de minha cidade natal que Luís Alves escolheu como denominação de seu título. Diferentemente do que alguns ainda não sabem, não é o município de Caxias que deve seu nome ao Duque; é o Duque que, “motu proprio”, “deve” o nome de seu título à histórica e culta Caxias.

Na “Bibliografia” de “Uma História do Brasil em Manuscritos”, há pelo menos dois autores que, mesmo indiretamente, fazem ponto de contato com Caxias:

1) o carioca Octavio Tarquínio de Sousa (1889-1959), historiador e ex-presidente do Tribunal de Contas da União, era o marido da escritora, biógrafa e crítica literária mineira Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), autora da festejada biografia “A Vida de Gonçalves Dias”, de 1952, sobre o grande poeta brasileiro, maranhense, caxiense; e

2) os cientistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius, a dupla Spix e Martius. Ambos estiveram em Caxias em 1819 e, doentes, foram bem atendidos, em inglês, por um médico da cidade formado no exterior. No volume 2 da sua monumental obra “Viagem pelo Brasil”, Spix e Martius relatam sua chegada a Caxias, a permanência na cidade, e fazem muitas observações acerca da economia, dos índios e do cotidiano de “uma das mais florescentes vilas do interior do Brasil”.

Ainda em “Uma História do Brasil em Manuscritos”, dois textos, ao menos, lembram o município de Imperatriz, o segundo maior do Maranhão após a capital:

1) um pouco da história da Imperatriz Teresa Cristina, a partir de uma carta autógrafa. Foi o título  -- Imperatriz --  da nobre italiana que, ainda em vida dela, deu-se ao futuro mais rico município maranhense, afora São Luís; e

2) uma carta do Visconde de Taunay (Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay, 1843-1899, engenheiro militar, político, historiador, sociólogo, escritor, músico e professor carioca) para seu conterrâneo e colega militar, engenheiro e político, o marechal Conrado Jacob de Niemeyer (1831-1905). Na correspondência, Taunay escreve sobre a morte do engenheiro baiano André Pinto Rebouças (1838-1898), que havia se exilado na Europa, acompanhando Dom Pedro 2º e a Imperatriz Teresa Cristina. André Rebouças esteve pelo menos três vezes no Maranhão (1861, 1864 e 1865) e foi quem primeiro pensou e planejou uma ferrovia conectando o sudoeste do Maranhão (vale dizer, Imperatriz) ao sudoeste de Minas Gerais. Era o famoso “Plano Rebouças”.

Além desses registros, há em “Uma História do Brasil em Manuscritos” pelo menos três menções ao rio Tocantins, o majestoso curso d’água por onde vieram de Belém aqueles que por fim decidiram se assentar nas terras que seriam Imperatriz e fundaram a cidade em 1852. A obra de José Augusto Bezerra traz registros sobre a descoberta do rio Tocantins, em documento e transcrições.

 

Cerca de uma dúzia de outros registros mencionam o Maranhão. Alguns desses registros:

...a fundação de São Luís pelos franceses em 1612;

...o único tribunal instalado no período de Dom João 6º no Brasil, que foi no Maranhão e com jurisdição sobre outras quatro Capitanias, inclusive a do Ceará;

...uma cópia de documento impresso com comentário manuscrito e assinatura do maranhense José Pereira da Graça Aranha (1868-1931), magistrado, diplomata e escritor, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (1897) e um dos organizadores da Semana de Arte Moderna (1922), autor, entre outras, do romance “Canaã”;

...a transferência do bispo do Maranhão, em 1898, Dom Antônio Cândido de Alvarenga, há vinte anos no Maranhão, e que retornava no mesmo cargo religioso para seu estado e cidade natal, São Paulo, onde permaneceu até sua morte, em abril de 1903;

...introdução e primeiro capítulo de um livro manuscrito de 1685 intitulado “Noticiário Maranhense”, uma descrição “do Estado do Maranhão, suas contendas e peregrinas circunstâncias”, de autoria de João de Souza Ferreira; e

...documento de 07/08/1822 com nomeação de capitães do mato (ou capitães de campo), que eram homens encarregados de pequenas tropas que, a laço e a tiros, caçavam escravos fugidos.

Na rica “Bibliografia” da obra, com perto de trezentos itens (livros etc.) brasileiros e estrangeiros, anoto pelo menos três maranhenses:

1) o são-luisense ou ludovicense Josué Montello (1917-2006), com seu livro “História da Independência do Brasil”, obra de 1972, em quatro volumes, comemorativa do sesquicentenário;

2) o advogado, jornalista, ex-deputado (cinco vezes) e ex-senador Cândido Mendes de Almeida (1818-1881), autor do “Atlas do Império do Brasil”, de 1868. Cândido Mendes nasceu em 14 de outubro de 1818, em Brejo (MA). Registre-se que em 1818 a povoação Brejo situava-se no município de Caxias. Somente por alvará de 29 de janeiro de 1820 a povoação foi elevada à categoria de vila, desmembrando-se de Caxias, mas menos de três meses depois, decreto de 18 de abril de 1820 tornou Brejo um distrito, voltando a ficar subordinado a Caxias. Brejo só ganhou autonomia, como cidade, meio século depois, em 11 de julho de 1870, conforme a Lei Provincial nº 899; e

3) o historiador e administrador colonial Bernardo Pereira de Berredo e Castro, nascido em Portugal e que governou o Maranhão de 1718 a 1722. Para fortalecer a colonização do estado, realizou entradas para o interior, inclusive nos rios Itapecuru, da minha infância, e Tocantins (da adultez). De seu viés historiador, Bernardo Pereira de Berredo e Castro deixou uma obra muito conhecida no meio intelectual (professores, historiadores, pesquisadores), publicada em Lisboa em 1749, um ano após a data provável de sua morte: “Anais Históricos do Estado do Maranhão, em que se dá Notícia do seu Descobrimento e Tudo o Mais que Nele tem Sucedido Desde o Ano em que foi Descoberto Até o de 1718”.

 

Eis aí, com os possíveis e prováveis lapsos, um breve apanhado de registros sobre/de alguns dos livros que formaram o conjunto de dezoito volumes/obras que me chegou pelas mãos e benquerença do empresário, administrador, escritor e bibliófilo cearense José Augusto Bezerra.

Que estas anotações possam ter alguma utilidade. Senão, à maneira de Gonçalves Dias em seus “Primeiros Cantos” (1846), eu as fiz para poucos, e contentar-me-ei se alguns mais as apreciarem; e se, ainda assim, estas escritas não forem úteis, terei sempre tido a satisfação de tê-las escrito.

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EDMILSON SANCHES
[email protected]

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