Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes c/Editoria de Esportes e Cultura.
A capoeira nasceu do enfrentamento. Formou-se no Brasil a partir dos saberes, ritmos, gestos e estratégias de sobrevivência trazidos por povos africanos escravizados. Em Salvador, no Recôncavo Baiano e em outros territórios de presença negra, encontrou corpo, chão e voz. Foi perseguida, criminalizada e tratada como ameaça. Sobreviveu porque seus praticantes compreenderam que gingar também era uma maneira de continuar vivo.
Hoje, quando a Escola Cultural Zungu Capoeira apresenta a “cura” como um de seus princípios, recupera justamente essa capacidade histórica de reconstruir pessoas atingidas pelo medo, pelo preconceito, pela solidão e pela perda do próprio pertencimento. Na concepção da Zungu, a cura não deve ser entendida como promessa médica nem como substituição de tratamentos profissionais.
É uma cura social, afetiva, cultural e simbólica. O corpo que chega retraído aprende a ocupar espaço. A criança descobre uma história que frequentemente não lhe foi ensinada. O adulto recupera coragem. A pessoa idosa volta a sentir-se parte de uma comunidade. Na roda, ninguém permanece completamente isolado: o toque do berimbau organiza o tempo, o canto reúne as vozes e o jogo ensina que cair, esquivar-se e levantar também são movimentos da existência.
Esse pensamento orienta o trabalho de Antônio Carlos Crivellente Cunha, conhecido na capoeira como Mestre Cacá, uma das principais referências da Escola Cultural Zungu, que anuncia completar 20 anos em dezembro de 2026. Mais do que uma organização dedicada à técnica, a Zungu trabalha a capoeira como filosofia, ancestralidade e prática de vida. Sua proposta aproxima gerações, territórios e experiências, incorporando rodas, oralidade, música, Jongo, atividades para crianças e adultos e iniciativas comunitárias ligadas à valorização das matrizes afro-brasileiras.
Em Curitiba, essa construção tem na Mestra Pitanga, com aproximadamente três décadas de atividade, sua maior liderança. No Paraná, especialmente em núcleos vinculados à região do Bairro Alto, ela ampliou a presença da escola e conferiu ao trabalho uma sensibilidade própria. A técnica não é abandonada; ganha finalidade humana. O movimento deixa de ser demonstração atlética para se tornar linguagem. A disciplina não serve ao autoritarismo, mas à consciência. A hierarquia existe para preservar e transmitir saberes, não para silenciar quem está começando.
Essa visão ganhou forma no encontro Conecta Zungu — Casa Aberta, concebido como reunião de territórios, histórias e diferentes gerações. Crianças, adultos e pessoas idosas foram aproximados não apenas para mostrar aquilo que aprenderam, mas para trocar experiências.
“O ouro da nossa escola é usar a capoeira para transformar a vida das pessoas”, afirmou Mestra Pitanga. Sua definição alcança o centro do projeto: muitas pessoas entram procurando atividade física e descobrem uma comunidade capaz de ensiná-las a pensar, escutar, silenciar, agir com coragem e enxergar o mundo por outra perspectiva.
Vale acrescentar ainda: Mestre Cacá compreende a própria maestria como recomeço. Chegar ao ponto mais elevado de uma graduação, para ele, significa retornar ao princípio e colocar o conhecimento a serviço de outras trajetórias. Essa responsabilidade também levou a capoeira da Zungu para experiências internacionais. Uma das mais marcantes ocorreu no Timor-Leste, em uma iniciativa de aproximação e pacificação depois de um longo conflito bélico.
Ali, a capoeira brasileira apareceu como linguagem de encontro entre povos: não apagou a história da violência, mas ajudou a criar um espaço no qual antigos antagonismos puderam se aproximar por meio da cultura e de projetos sociais.
A dimensão de cuidado defendida pela escola encontra respaldo em pesquisas acadêmicas. Estudo publicado em 2024 na revista Saúde e Sociedade analisou a capoeira em um Centro de Atenção Psicossocial de São Paulo e identificou nela um dispositivo de cuidado e promoção da saúde, capaz de favorecer protagonismo, convivência, expressão afetiva e ressignificação de histórias. O estudo não apresenta a capoeira como remédio, mas como experiência coletiva afrorreferenciada que amplia vínculos e possibilidades de existência. É precisamente nesse sentido responsável que a palavra “cura” adquire força dentro da Zungu: curar como cuidar, reunir, fortalecer e devolver significado.
O próprio reconhecimento institucional confirma a amplitude dessa manifestação. Desde 2008, a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres são registrados como Patrimônio Cultural do Brasil; em 2014, a roda recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O Iphan define a roda como lugar onde canto, instrumentos, dança, golpes, jogo, brincadeira, ética e herança africana se realizam simultaneamente. O mestre, nesse universo, não é apenas aquele que domina movimentos: é o guardião de uma memória transmitida oralmente, pelo gesto, pela convivência e pelo exemplo.
Assim, a Escola Cultural Zungu reafirma uma verdade essencial: a capoeira não nasceu para caber numa academia nem para se limitar ao espetáculo. Ela atravessou navios, senzalas, ruas, terreiros, perseguições policiais e fronteiras internacionais porque sempre foi uma arte de existir. Sob a liderança de Mestre Cacá e, em Curitiba, de Mestra Pitanga, continua cumprindo essa missão. Cada roda aberta é também uma casa aberta. Cada canto devolve uma memória. Cada ginga ensina que a vida nem sempre avança em linha reta — às vezes, é preciso recuar, desviar, compreender o outro e reencontrar o próprio eixo. É assim que a capoeira cura: não apagando as feridas da história, mas transformando-as em consciência, movimento e comunidade.
Mhario Lincoln
Editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes, jornalista profissional e poeta
VÍDEO-BÔNUS
A Capoeira enquanto liberdade, pensamento e liderança
Fontes consultadas: depoimentos de Mestre Cacá e Mestra Pitanga em entrevista exclusiva a Mhario Lincoln, editor-sênior Plataforma Nacional do Facetubes; Escola Cultural Zungu Capoeira — Cultura Viva; Iphan — Roda de Capoeira e Ofício dos Mestres; estudo científico “Reinventando a roda: capoeira como dispositivo de cuidado” — Saúde e Sociedade/SciELO.
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