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“O divino burburinho da vida”, por Keila Marta, APB/Seccional Maranhão

Keila Marta é um dos nomes mais expressivos da nova geração literária do Maranhão e convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.

24/01/2026 às 09h30 Atualizada em 24/01/2026 às 10h05
Por: Mhario Lincoln Fonte: Keila Marta
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Keila Marta APB-MA
Keila Marta APB-MA

Keila Marta, APB – Maranhão

Tem gente que gosta de shopping center vazio, porque é mais calmo, restaurante com certa quantidade de mesas sobrando, porque aumenta a possibilidade de escolher o melhor lugar e pode ser servido com mais rapidez. Cinema a dois fica mais romântico.  Algum dia também pensei assim, só que com a maturidade e as experiências, o ponto de vista muda. Hoje, vejo como é bom ir a feira e ver as bancas sortidas e gente fervilhando por todo canto. Na entrada do cinema, muito barulho na fila da pipoca é sinal de sala cheia, é o comércio aquecido, aquele zum-zum-zum, o sorriso das crianças ecoando deve ser aceito como um som sagrado, pois é a vida, o movimento, a alegria.

Até os ambientes sentem o poder da presença humana, casas e edifícios, alguns dias ou meses sem a supervisão das pessoas logo começa a se deteriorar: poeira, ervas daninhas, insetos tomam conta, as paredes em certa medida perdem a vontade de continuar em pé.

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Se reportarmos para o auge da pandemia em 2020 veremos como era triste cada saída as compras com aquele silêncio nas ruas, aquele tão paradoxal, sob o barulho das sirenes de ambulâncias e monitoramento aéreo, só de lembrar é apavorador e dessa memória queremos distância e com tranquilidade continuar a viver em paz nossos dias em cores. Desse silêncio urbano o cronista Antônio Penteado Mendonça1 lembra:

O silêncio da cidade é denso, ameaçador, oprime a alma, como o silêncio que antecede as grandes tempestades assusta a natureza, cala os pássaros, espanta a vida e ameaça a sequência do dia.

 

Claro que o silêncio em certa medida faz muito bem a saúde física e emocional, para estudar, meditar, fazer orações, mas ele tem tempo e lugar, um canto da casa, jardins, mosteiros, capelas, bibliotecas e salas de yoga. Já o silêncio da natureza tem sua musicalidade, a praia mais deserta tem o barulho do vento e das ondas, cada bicho da floresta tem sua identidade sonora. Um artigo da BBC de fevereiro de 20192 fala sobre o silêncio como medida para turbinar o cérebro ao mostrar resultados de estudos cujo um deles aponta os sons não tiveram impacto duradouro, mas duas horas de silêncio por dia estimularam o desenvolvimento celular no hipocampo - a parte do cérebro que ajuda a formar as memórias.

Aí fico pensando como seria governar um cidade para ninguém como na história O pequeno príncipe em que o rei não tinha súditos, abrir uma loja, escrever livros e não ter público e como é frustrante para famílias que constroem casarões e não tem um ente para preencher, fazer jantares e não tem a quem convidar. Em alguma medida o ser humano foi feito para partilhar, e olha como isso é perceptível na medida em que fazer comida só para si na maioria das vezes não dar prazer, sai sem sabor.

Que às vezes as crianças berram estridente, isso é inegável, mas a alegria toma conta quando choros ecoam a sala da maternidade, ou após dias acamados saem correndo, se empendurando em tudo. Outro som de esperança é o da chegada delas na escola, ou fazendo atividade em voz alta, a barulheira do parquinho. É interessante como até os pés da meninada emitem uma frequência um tanto diferente, com mais intensidade e energia.

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Voltando no tempo, é quase impensável dimensionar o silêncio após a explosão das cidades Hiroshima e Nagasaki, sobre o ocorrido, o poeta Vinícius de Moraes3 fez a gente pensar:

Pensem nas crianças

Mudas, telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas, inexatas

Nesta mesma época para quem conseguia escapar, os sons das locomotivas ou dos navios indicavam que em alguns dias ou meses em algum outro destino essas pessoas poderiam encontrar a liberdade.

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E o que falar do silêncio pós batida de carro ou de um tiroteio, de um corredor de UTI ou aquele que foi figura marcada nos campos de concentração?

 

Quem nunca sentiu agonia com a ausência da voz humana na meia noite? O tic tac do relógio se amplia e as horas parecem desacelerar, o tempo ganha aspecto de narrativa gótica, o cantar da coruja expressa essa sensação, até o bailar das árvores ficam gélidos. Isso acontece, porque talvez a nossa alma espere pelo raiar do sol comunicando a chegada de um novo dia.

E há o silêncio dos casais em crise, após ciúmes bobos, dos filhos que ficam no celular e esquecem dos pais, dos idosos que não ficam no canto e o constrangimento gerado por aqueles que não sabem conversar, o silêncio dos surdos e dos depressivos trancafiados entre quatro paredes e dos inocentes, permeado de dores e descasos.

E entre silêncios e barulhos, risadas e choros é importante atribuir significado e viver cada momento com a certeza de que a vida na terceira dimensão é como uma montanha russa, sobe e desce, e a paz e harmonia no mundo externo diz muito mais sobre como estamos internamente.

Isso me lembra um dos programas Gente de expressão4 em que Bruna Lombardi entrevista Tom Jobim, em um ponto ele fala sobre a experiência que teve no apartamento do Villa Lobos que era cheio de gente, uma soprano tocando agudo, outro cara tocando piano, um outro tocando violino, um toca fita com uma sinfonia do Villa e ele escrevendo partitura para um filme americano. E o Tom perguntou a ele se o barulho não o incomodava, e ele respondeu que o ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro.

Enfim, não é difícil constatar que os momentos felizes são movidos por alguma trilha sonora como, sorrisos, fogos de artifício, o estouro da tampa do espumante, o som das taças ao brindar, cuja frequência nos deixa bem e o universo mesmo parecendo muito silencioso tem sua música que vibra em cada partícula de todos os elementos e seres da natureza.

 

 *********

Referências

1MENDONÇA, Antônio Penteado, O silêncio que grita. Crônicas da Cidade.

28 de março de 2020.

Disponível em: https://cronicasdacidade.com.br/cronicas/2020/03/28/o-silencio-que-grita/ Acesso em: 20/10/2025  

2BBC News Brasil. Silêncio, por favor: ausência de barulho pode turbinar o cérebro e a criatividade. 23 fevereiro 2019

Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-47284076 Acesso em: 22/10/25 

3Moraes, Vinícius de. Antologia poética: A Rosa de Hiroshima. Editora Noite, 1954. Disponível em: https://www.viniciusdemoraes.com.br/br/poesia/livro/8/antologia-poetica. Acesso em: 22/10/202 

4Lombardi, Bruna. Gente de Expressão: entrevista Tom Jobim. YouTube, 08 de nov. de 2017. 40 min.15s. Disponível em: https://youtu.be/9BkysXxNLNs. Acesso em: 24/10/2025


 

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Rosemeire Santos Há 7 meses BauruParabéns! Excelente texto!
Kezia rayana melo gamaHá 7 meses Acailandia MAParabéns minha linda irmã, em suas mãos as letras ganham vidas, e formam em um lindo texto como esse, inspiração divina, ê para poucos. Sou suspeita para falar, mas parabéns.
Imortal Judith LopezHá 7 meses Petrolina PEKila é uma festa pra nós aqui da Academia ler você. Inclusive na nossa próxima reunião de sexta, tomarei a liberdade de ler esse texto inteiro durante nossa reunião. Obrigado. Volta logo.
José Hemetério, psicólogo de casaisHá 7 meses Porto Alegre RGS.Sou José Hemetgério, psicólogo de casais e notei algo sutil nesse texto: o ciúme. Vale dizer, que homens tendem a reagir mais à infidelidade em si e mulheres à emocional; isso é estatístico, não regra universal. Na psicanálise clássica, Freud distinguiu ciúme “normal”, projetivo e delirante; o normal seria um luto pela perda (ou medo dela), enquanto as formas projetiva/delirante já indicam patologia. É interessante as filigranas desse texto, visto pelo meu prisma, apenas.
JOSÉ HEMETÉRIO, PSICóLOGO DE CASAISHá 7 meses Porto alegre RGSUm toque sutil no caso CIÚME dos homens. Há ciúmes quando um dos dois percebe alguma ameaça ao vínculo. Real ou imaginária. A psicologia descreve o ciúme como uma resposta emocional que mistura insegurança, medo de perda e raiva; não é “maldade” por si, mas pode virar agressão quando a pessoa usa o ciúme para dominar o outro. Estilos de apego inseguros (ansioso/evitativo) aumentam a sensibilidade a sinais de rejeição e, portanto, a frequência e a intensidade do ciúme.
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