Uma das premissas usadas por negacionistas que discordam da participação das mulheres na Vida Pública é que elas não entendem de Política, por isso deveriam ficar fora das eleições. Contra isso, que desde a Grécia Antiga até 1932 no Brasil e em 1934 no Maranhão, através de incansáveis lutas, não só pelo sufrágio, mas por direitos como educação e espaço na administração pública que as pioneiras fizeram história no Maranhão.
Muitas delas, infelizmente foram silenciadas e apagadas ao longo do tempo. Prova disso, é que muitos maranhenses nunca ouviram falar de Zuleide Violeta Fernandes Bogéa, eleita deputada estadual em 1934 pelo Partido Republicano. A primeira e única mulher no Parlamento Estadual, naqueles cem anos de existência da Assembleia Legislativa do Maranhão, dita como a “Casa do Povo”.
Coube a professora normalista, nascida em Arari (MA) no dia 13 de outubro de 1897, filha do Capitão Leonel Bogéa e de Mônica Fernandes, que transformou a busca pelo conhecimento como grande missão de sua vida quebrar esse tabu. Em 1920, já em São Luís, fundou e dirigiu a escola São Luís Gonzaga, uma das grandes referências de ensino primário no centro da cidade, onde alfabetizou gerações por mais de cinco décadas através da “Cartilha de Luiz” que organizou e publicou.
Sua enorme capacidade de liderança e gestão a levou a ocupar espaços de poder totalmente inéditos para as mulheres da década de 30. Logo após sua histórica eleição parlamentar, assumiu a presidência do Instituto de Previdência do Estado do Maranhão (IPEM) em 1935 consolidando de vez a força feminina na alta administração pública.
Outro legado seu foi escrito com solidariedade e fé. Com o coração profundamente voltado para as causas sociais, Zuleide doou seu próprio casarão histórico, localizado na rua do Sol (n.496), para o funcionamento do Lar Mariano, servindo de abrigo e amparo para os mais necessitados.
Outra mulher pioneira na política, entrou para a história do Maranhão no mesmo ano que Zuleide, ao ser nomeada em 1934 para a prefeitura de São João dos Patos: Joanna da Rocha Santos, conhecida como Dona Noca, a primeira prefeita do Maranhão e a segunda de toda a história do Brasil. Em 1954, muito antes de Lia Varela (1978) e Gardênia Ribeiro Gonçalves (1986-89) e Conceição Andrade (1993-97) em São Luís, voltaria a prefeitura consagrada nas urnas pelo voto popular.
No Parlamento Municipal, o pioneirismo feminino coube a Maria de Lourdes Diniz Machado, conhecida politicamente como Maria Machado, eleita vereadora no ano de 1950. Sua vitória nas urnas representou um marco absoluto no estado, ocorrendo após a redemocratização do país e o restabelecimento das Câmaras Municipais após a suspensão durante a Era Vargas (1930-1945).
Se a primeira governadora somente seria eleita em 1994 e a primeira presidenta (2011-2016), com estrondosas votações no Maranhão, onde o eleitorado já era de maioria feminina, a semente vinha sendo plantada há anos.
Antes dela, a portuguesa radicada em Cururupu (MA), Herculana Firmina Vieira de Sousa (1815-1903), considerada uma das primeiras historiadoras do Brasil, foi professora pública de Primeiras Letras entre 1840 e 1880. Em 1868 publicou o manual didático intitulado “Resumo da História do Brasil”, um feito extremamente raro e pioneiro para uma mulher no século XIX. A obra foi imediatamente adotada pelas escolas maranhenses da época.
Apesar de sua contribuição vanguardista para o magistério e para a escrita da História, a trajetória de Herculana Vieira sofreu com o apagamento histórico e de gênero por muitas décadas, voltando a ser resgatas recentemente por pesquisas acadêmicas no Maranhão.
Apesar de não ter participado da política partidária, já que em sua época as mulheres eram proibidas de votar e exercer qualquer atividade política formal, no entanto sua atuação pode ser considerada um ato político e combativo por meio da educação e intelectualidade, principalmente por conta dos vários ofícios rígidos que trocava com a Instrução Pública exigindo melhores condições de trabalho e combatendo os salários precários impostos às professoras da época.
Além delas, a professora, escritora, compositora e ativista cultural Maria Firmina dos Reis em Guimarães que lutou pela igualdade de gênero na escola. Posteriormente a educadora e escritora Laura Rosa em São Luís e a educadora, escritora, teatróloga e dramaturga Mariana Luz em Itapecuru, respectivamente a primeira e a segunda mulher a fazer parte da Academia Maranhense de Letras. Todas, mulheres que ousaram viver e lutar em seu tempo, por direitos, justiça e garantias sociais, principalmente educação pública e de qualidade.
Batalhas que custaram caro, tabus que levaram séculos para cair e que vivem na iminência de serem retirados com simples canetadas por conservadores nazi-fascistas e neoliberais. A negação da História, o silenciamento e apagamento de personagens fundamentais não acontece à toa.
É hora de reconhecer os erros e olhar para o futuro. Afinal, do passado já viemos, de luto e repressão cantando veladamente as Mulheres de Atenas. Agora, ELAS da Ilha do Amor, da Ilha Rebelde, da Jamaica Brasileira, do Continente e dos Sertões pedem passagem.
Será em vão resistir, o tempo delas se impõe sobre nós. Que assim seja!
Marcus Saldanha – Historiador, jornalista e escritor.
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