Natalino Salgado Filho
Ocupante da cadeira 16 da Academia Maranhense de Letras.
Titular da Academia Nacional de Medicina
A noite de 10 de agosto, em que celebramos a fundação da Academia Maranhense de Letras e também o nascimento do grande poeta Gonçalves Dias, foi, para mim, uma dessas noites que o tempo não leva: recolhe e guarda na memória.
Não apenas pela solenidade que assinalou mais um aniversário da Casa de Antônio Lobo, mas pela atmosfera de encontro, amizade e celebração da palavra que envolveu o salão nobre. Havia algo de profundamente simbólico naquela noite: enquanto celebrávamos a história da Academia, evocávamos também Gonçalves Dias, o poeta que fez do Maranhão lembrança, canto e saudade, levando para a literatura brasileira a voz de nossa terra.
Foi uma noite de poesia e música, de emoção e reencontros. Uma espécie de sarau literário em que passado e presente se deram as mãos para celebrar os 118 anos de uma história construída por sucessivas gerações de escritores, intelectuais, homens e mulheres que fizeram da cultura uma forma de servir ao Maranhão.
Tive a alegria de acompanhar o lançamento do Plano Editorial 2025/2026, que apresentou cinco importantes obras: Grades e Azulejos, de Maria da Conceição Neves Aboud; Apetrechos de Amor, de Ribamar Galiza; A última viagem de Gonçalves Dias e outros contos, de José Everton Neto; Aluísio Azevedo Gótico, seleta organizada por Lourival Serejo; e Úrsula, em nova edição do clássico de Maria Firmina dos Reis. Somou-se a elas a divulgação do Catálogo de Obras sobre a Academia Maranhense de Letras, elaborado a partir do precioso acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite.
Iniciativas como essas reafirmam uma verdade essencial: uma instituição centenária não vive apenas de sua história — precisa continuar escrevendo-a. Publicar, preservar, revelar novas vozes, revisitar os mestres e abrir caminhos para as gerações que chegam são maneiras de fazer com que a memória não adormeça nas estantes. Porque a verdadeira tradição não é aquela que permanece imóvel no tempo, mas a que conserva suas raízes enquanto estende os ramos em direção ao futuro.
Talvez um dos momentos mais tocantes da noite tenha sido a homenagem ao jovem Daniel Oliveira Santos, de apenas 11 anos, e à professora Rúbia Oliveira, pelo trabalho dedicado ao incentivo à leitura. Com mais de quatro décadas consagradas à docência, ver uma educadora reconhecida por transformar o livro em instrumento de formação e, ao mesmo tempo, uma criança homenageada por sua aproximação com a leitura trouxe uma das mais belas imagens daquela celebração.
De um lado, a professora que semeia; do outro, o menino em quem a semente começa a florescer.
Há nisso uma bela metáfora da própria cultura: alguém entrega o livro, alguém o abre, e o mundo se amplia. Afinal, cada livro que chega às mãos de uma criança é uma janela que se abre para o mundo — e, talvez, uma porta que se abre para o futuro.
Emocionou-me igualmente a exibição do vídeo produzido pelo MAVAM, com direção do confrade Joaquim Haickel e criação de Kissyan Castro, dedicado aos patronos da Academia. Por alguns instantes, foi como se a memória ganhasse movimento. Aqueles nomes que habitam nossa história pareciam novamente caminhar entre nós, devolvidos ao presente pela força da imagem e da lembrança.
E compreendemos, então, que nenhuma instituição começa conosco. Somos herdeiros de sonhos, ideias, livros e gestos daqueles que vieram antes. Recebemos deles uma chama que não nos pertence inteiramente: cabe-nos mantê-la acesa e entregá-la, um dia, aos que virão depois.
Saí daquela noite com a sensação de que celebrar a Academia Maranhense de Letras é, de alguma maneira, celebrar o próprio Maranhão. É celebrar uma terra que fez da palavra uma de suas formas mais profundas de identidade; uma terra de poetas, romancistas, historiadores e pensadores que souberam transformar memória em literatura e pertencimento em criação.
É reconhecer a força de uma tradição que atravessa gerações e compreender que ela somente permanecerá viva enquanto houver, no presente, quem esteja disposto não apenas a reverenciá-la, mas também a renová-la.
Nesse sentido, merece especial reconhecimento o trabalho da atual diretoria, particularmente do nosso presidente, Lourival Serejo, e do vice-presidente, Felix Alberto, pela atuação vigorosa em favor da Academia, pela valorização de sua história e pela compreensão de que uma instituição dessa grandeza precisa permanecer cada vez mais próxima e presente na sociedade maranhense. Preservar o patrimônio recebido e, ao mesmo tempo, fazê-lo dialogar com o nosso tempo é uma das mais nobres responsabilidades daqueles a quem cabe conduzir uma Casa com tamanha tradição.
Mais de um século depois, a Academia Maranhense de Letras permanece como casa da palavra, guardiã da memória e território vivo da cultura maranhense.
Naquela noite de 10 de agosto, entre livros, música, poesia e lembranças, tive a impressão de que as muitas gerações que construíram essa história estavam, de algum modo, reunidas conosco. Os que escreveram ontem, os que escrevem hoje e aqueles que ainda descobrirão o encantamento das primeiras palavras.
E senti-me privilegiado por testemunhar e participar de mais uma página dessa longa história.
Porque os homens passam, as gerações se sucedem, mas há palavras que permanecem.
E enquanto houver quem as leia, quem as escreva e quem as transmita, a memória continuará viva — e o Maranhão continuará contando a sua história.
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