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“Uma noite para guardar na memória”, especial de Natalino Salgado Filho

Natalino Salgado Filho é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

12/08/2026 20h20 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Natalino Salgado Filho
Natalino Salgado Fº, Cadeira 16 (AML).
Natalino Salgado Fº, Cadeira 16 (AML).

Natalino Salgado Filho
Ocupante da cadeira 16 da Academia Maranhense de Letras. 
Titular da Academia Nacional de Medicina

A noite de 10 de agosto, em que celebramos a fundação da Academia Maranhense de Letras e também o nascimento do grande poeta Gonçalves Dias, foi, para mim, uma dessas noites que o tempo não leva: recolhe e guarda na memória.

Não apenas pela solenidade que assinalou mais um aniversário da Casa de Antônio Lobo, mas pela atmosfera de encontro, amizade e celebração da palavra que envolveu o salão nobre. Havia algo de profundamente simbólico naquela noite: enquanto celebrávamos a história da Academia, evocávamos também Gonçalves Dias, o poeta que fez do Maranhão lembrança, canto e saudade, levando para a literatura brasileira a voz de nossa terra.

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Foi uma noite de poesia e música, de emoção e reencontros. Uma espécie de sarau literário em que passado e presente se deram as mãos para celebrar os 118 anos de uma história construída por sucessivas gerações de escritores, intelectuais, homens e mulheres que fizeram da cultura uma forma de servir ao Maranhão.

Tive a alegria de acompanhar o lançamento do Plano Editorial 2025/2026, que apresentou cinco importantes obras: Grades e Azulejos, de Maria da Conceição Neves Aboud; Apetrechos de Amor, de Ribamar Galiza; A última viagem de Gonçalves Dias e outros contos, de José Everton Neto; Aluísio Azevedo Gótico, seleta organizada por Lourival Serejo; e Úrsula, em nova edição do clássico de Maria Firmina dos Reis. Somou-se a elas a divulgação do Catálogo de Obras sobre a Academia Maranhense de Letras, elaborado a partir do precioso acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite.
Iniciativas como essas reafirmam uma verdade essencial: uma instituição centenária não vive apenas de sua história — precisa continuar escrevendo-a. Publicar, preservar, revelar novas vozes, revisitar os mestres e abrir caminhos para as gerações que chegam são maneiras de fazer com que a memória não adormeça nas estantes. Porque a verdadeira tradição não é aquela que permanece imóvel no tempo, mas a que conserva suas raízes enquanto estende os ramos em direção ao futuro.

Talvez um dos momentos mais tocantes da noite tenha sido a homenagem ao jovem Daniel Oliveira Santos, de apenas 11 anos, e à professora Rúbia Oliveira, pelo trabalho dedicado ao incentivo à leitura. Com mais de quatro décadas consagradas à docência, ver uma educadora reconhecida por transformar o livro em instrumento de formação e, ao mesmo tempo, uma criança homenageada por sua aproximação com a leitura trouxe uma das mais belas imagens daquela celebração.

De um lado, a professora que semeia; do outro, o menino em quem a semente começa a florescer.
Há nisso uma bela metáfora da própria cultura: alguém entrega o livro, alguém o abre, e o mundo se amplia. Afinal, cada livro que chega às mãos de uma criança é uma janela que se abre para o mundo — e, talvez, uma porta que se abre para o futuro.

Emocionou-me igualmente a exibição do vídeo produzido pelo MAVAM, com direção do confrade Joaquim Haickel e criação de Kissyan Castro, dedicado aos patronos da Academia. Por alguns instantes, foi como se a memória ganhasse movimento. Aqueles nomes que habitam nossa história pareciam novamente caminhar entre nós, devolvidos ao presente pela força da imagem e da lembrança.

E compreendemos, então, que nenhuma instituição começa conosco. Somos herdeiros de sonhos, ideias, livros e gestos daqueles que vieram antes. Recebemos deles uma chama que não nos pertence inteiramente: cabe-nos mantê-la acesa e entregá-la, um dia, aos que virão depois.

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Saí daquela noite com a sensação de que celebrar a Academia Maranhense de Letras é, de alguma maneira, celebrar o próprio Maranhão. É celebrar uma terra que fez da palavra uma de suas formas mais profundas de identidade; uma terra de poetas, romancistas, historiadores e pensadores que souberam transformar memória em literatura e pertencimento em criação.

É reconhecer a força de uma tradição que atravessa gerações e compreender que ela somente permanecerá viva enquanto houver, no presente, quem esteja disposto não apenas a reverenciá-la, mas também a renová-la.

Nesse sentido, merece especial reconhecimento o trabalho da atual diretoria, particularmente do nosso presidente, Lourival Serejo, e do vice-presidente, Felix Alberto, pela atuação vigorosa em favor da Academia, pela valorização de sua história e pela compreensão de que uma instituição dessa grandeza precisa permanecer cada vez mais próxima e presente na sociedade maranhense. Preservar o patrimônio recebido e, ao mesmo tempo, fazê-lo dialogar com o nosso tempo é uma das mais nobres responsabilidades daqueles a quem cabe conduzir uma Casa com tamanha tradição.

Mais de um século depois, a Academia Maranhense de Letras permanece como casa da palavra, guardiã da memória e território vivo da cultura maranhense.

Naquela noite de 10 de agosto, entre livros, música, poesia e lembranças, tive a impressão de que as muitas gerações que construíram essa história estavam, de algum modo, reunidas conosco. Os que escreveram ontem, os que escrevem hoje e aqueles que ainda descobrirão o encantamento das primeiras palavras.

E senti-me privilegiado por testemunhar e participar de mais uma página dessa longa história.

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Porque os homens passam, as gerações se sucedem, mas há palavras que permanecem.

E enquanto houver quem as leia, quem as escreva e quem as transmita, a memória continuará viva — e o Maranhão continuará contando a sua história.

 

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