Carlos AL Coelho
A chuva escorria pela vidraça, desfazendo os contornos da cidade. Lá embaixo, alguém corria para alcançar um ônibus. A vida seguia com suas pequenas urgências. Dentro de mim, porém, uma notícia havia interrompido o dia.
Alguém partira antes que a primavera chegasse.
Olhei as árvores molhadas. Era difícil imaginar flores naqueles galhos, embora soubesse que elas viriam. Talvez a esperança seja essa capacidade de pressentir alguma beleza quando os olhos ainda encontram sinais do inverno.
Diante de uma despedida, pensamos no que ficou por acontecer: a conversa adiada, a visita prometida, o abraço deixado para depois. Confiamos no amanhã como quem guarda lugares à mesa, certos de que todos estarão presentes.
Até que uma cadeira permanece vazia.
Na universidade da vida, aprendemos uns com os outros sem perceber. Uma palavra nos acompanha por décadas. Um gesto de generosidade transforma nossa maneira de tratar alguém. Há pessoas que continuam nos ensinando quando nos surpreendemos repetindo seus conselhos ou encontrando coragem em suas lembranças.
Talvez seja essa uma das formas mais delicadas de permanecer.
Minha fé me convida a olhar além da ausência. Gosto de pensar que quem partiu segue em direção a uma luz que daqui apenas imaginamos. Essa esperança se senta ao lado da saudade e ajuda a atravessar as horas.
A chuva diminuiu. Abri a janela e senti o cheiro da terra molhada. Um pássaro sacudiu as asas. Fiquei ali, sem procurar uma explicação para tudo.
O inverno ainda não havia terminado. A falta voltaria numa fotografia, numa música, no impulso de compartilhar uma novidade.
Mas, quando a primavera chegasse, eu haveria de reparar nas flores. E, entre a alegria de vê-las e a tristeza de não poder mostrá-las a quem partiu, diria baixinho:
— Você ia gostar de ver.
Mín. 14° Máx. 20°
Mín. 16° Máx. 19°
ChuvaMín. 10° Máx. 16°
Chuvas esparsas
DINO DE ALCÂNTARA Um casamento por minha liberdade
Marcus Saldanha Marcus Saldanha: “A Morte no Maranhão Também é Uma Festa”
Carlos Alberto Lima Coelho “Antes que a primavra chegasse”. Carlos alberto Lima Coelho
Convidados & Parceiros Graça Moreira e Thais Nunes deram vida à literatura fantástica em encontro que transformou o “funeral” de Edgar Allan Poe numa reflexão sobre a esperança