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Viceversa com uma das artistas brasileiras mais aplaudidas nos Estados Unidos: Lúcia Borges

Coincidência ou não, a primeira grande exposição de Lúcia Borges aconteceu nos “Jardins Maciel”, em São Luís-MA.

30/10/2026 17h45
Por: Mhario Lincoln Fonte: VICEVERSA/Lúcia Borges
VICEVERSA: Mhario Lincoln/Lúcia Borges
VICEVERSA: Mhario Lincoln/Lúcia Borges

MHARIO LINCOLN E LÚCIA BORGES

1 LÚCIA BORGES — O que o inspirou a criar uma Academia virtual e como o senhor vê a Plataforma Nacional do Facetubes levando poesia brasileira para o mundo?

MHARIO LINCOLN - Minha experiência no jornalismo me ensinou a reconhecer quando as pessoas têm algo a dizer e encontram dificuldade para chegar ao leitor. A APB nasceu dessa preocupação, compartilhada com Clevane Pessoa, Edomir Martins de Oliveira e Humberto Napoleon Varela Robalino. Assim, reunir talentos dispersos e dar circulação ao que produzem. A ideia começou em 2015 e ganhou sua formalização em 27 de março de 2016. O ambiente virtual permitia aproximar pessoas que viviam longe umas das outras. Na Plataforma Nacional do Facetubes, esse encontro se transforma em publicação, leitura e memória. Vejo a Plataforma como uma extensão desse compromisso. Cada obra publicada precisa encontrar acolhimento editorial e oportunidade de chegar a outros lugares. Minha satisfação está em acompanhar o caminho que o autor consegue construir a partir daí. Estou bem feliz. Os últimos números da nossa empresa de avaliação internacional chegaram a grandiosa marca de 100 mil acessos/mês para a Plataforma, colocando-a em 49º lugar entre as plataformas culturais mais lindas no Brasil. Isso é uma imensa honra.

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2 LÚCIA BORGES — Qual é o papel do artista plástico numa Academia que nasceu da palavra poética? Como imagem e verso se completam?

MHARIO LINCOLN - Lúcia, a poesia começa na maneira de perceber a vida. A palavra é uma de suas formas de expressão. Um artista visual (plástico) também trabalha com memória, silêncio, ausência, desejo. Ele dá a essas experiências uma presença que podemos olhar. Por isso, considero sua participação na APB-ES - agora eleita Vice-presidente regional - parte da própria identidade da Academia. A imagem pode despertar uma leitura que o verso deixou em suspenso; os traços de uma pintura pode nos fazer compará-los a um poema e perceber algo que passou despercebido. Cada linguagem conserva sua liberdade. Essa convivência amplia nossa sensibilidade e nos ensina a prestar atenção ao trabalho do outro. Uma Academia precisa cultivar essa disposição para aprender.

3 LÚCIA BORGES — Qual foi o momento mais marcante ou desafiador de sua trajetória acadêmica?

MHARIO LINCOLN - Prefiro responder numa visão comunitária. Assim, posso lembrar da fundação da Academia Poética Brasileira, hoje, praticamente, minha linha de ação em que me dedico todas as horas do meu dia. Especial por ser a primeira Academia digital do Brasil que possui uma Plataforma integrando suas ações com Rádio/TV/Jornal e Podcast: a Plataforma Nacional do Facetubes. Mas, não devo esquecer de minha outras atividades acadêmicas que me dão muito orgulho do meu trabalho, porque essas, a seguir citadas, não me deram posse pelo que sou. Mas pelo trabalho coletivo que venho exercendo ao longo dos anos. Por isso insisto que elogios a mim dirigidos deveriam, antes, ser deslocados para as ações que os resultados de meus trabalhos coletivos por beneficiarem, de certa forma, o coletivo. Não eu!. Assim, fico feliz em ter meu trabalho reconhecido pelo Centro de Letras do Paraná, um dos mais importantes sodalícios do Brasil e praticamente a célula-mater de muitas academias regionais brasileiras. O povo do Paraná me recebeu de forma carinhosa e me deu muitas das oportunidades. Depois vem a AMCLAM que antes de tudo fez de minha mãe, a jornalista Flor de Lys, imortal, colocando-a como Patrona de uma de suas importantes Cadeiras e me empossando nela, como sócio-correspondente. Mas isso tem nome porque sempre levei comigo - por onde fui - minha formação, minha origem maranhense e o trabalho de tantos anos com a palavra. Fui jornalista ativo de rádio, TV e jornal (O Imparcial e Jornal Pequeno), em São Luís-MA, por mais de 50 anos de minha vida. Por isso, os reconhecimentos do CLP e da AMCLAM têm grandes significados pessoais, sem esquecer uma homenagem que me tocou muito da última vez que estive em minha terra: o Grupo de Estudos em Literatura Maranhense, junto com a Academia Maranhense de Letras, prestaram-me homenagem. Isso não tem preço e nem sei como agradecer tanta distinção. Aliás, ali compareceram meus amigos verdadeiros. Uns, que conheci recentemente através da APB; outros, amigos de infância que revi e me emocionei. Um deles, morando em Rosário, com locomoção dificultada, veio de ônibus até o prédio da Academia Maranhense de Letras para me dar um abraço. Veja que coisa linda! Nada o impediu de estar presente. Isso me deixou muito feliz porque foi uma prova de amizade e integridade. Eu disse pra ele que faria o mesmo porque amizade é aquela que antes do ombro, a gente compreende a importância dos momentos. 

4 LÚCIA BORGES — Que conselho daria aos que chegam com sonhos e inseguranças no mundo literário?

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Eu começaria dizendo que também continuo aprendendo. Já falei, em outras entrevistas, do quanto precisei estudar para conhecer melhor meu instrumento de trabalho: a palavra. Não nasci poeta, nem as Faculdades de Comunicação e Direito me foram indispensáveis em minha evolução como profissional. Foram sim o start que me impulsionou ao conhecimento universal. E através dele, procurei aprofundar de todas as formas esse conhecimento recebido. Costumo não dá conselhos porque acho que cada pessoa tem sua digital. Ou seja. Cada um tem sonhos diferentes, maneiras de aprender diferentes, situações ambientais diferentes, oportunidades diferentes. No meio embaralhado de todas essas diferenças é que vai surgir exatamente o denominador comum para que cada um siga seu caminho. Aliás, sempre costumo lembrar Franz Kafka. Certa vez ele escreveu, numa carta a Oskar Pollak, em 1904, que um livro deve ser o machado capaz de romper o mar congelado dentro de nós. Já Rainer Maria Rilke, em Cartas a um Jovem Poeta, recomendou investigar se escrever é uma necessidade incontornável. Eu acrescentaria: entre na literatura disposto a perder algumas certezas, inclusive a de que você possui talento. Leia quem o contraria, escute quem escreve melhor. Desconfie dos aplausos fáceis e fuja da tentação de transformar cada poema numa homenagem ao próprio ego. O mundo não precisa de mais um escritor convencido de sua importância. Precisa de alguém capaz de escrever aquilo que os outros ainda não tiveram coragem de enfrentar.

 

5 LÚCIA BORGES — A arte e a poesia ainda conseguem transformar a sociedade em tempos digitais e acelerados? De que forma?

MHARIO LINCOLN – Acredito nessa premissa, sim! Porque a arte interfere na maneira como percebemos as pessoas e o que acontece ao nosso redor. Um poema pode dar expressão a uma dor que alguém ainda não conseguia nomear. Uma pintura pode nos deter diante de uma realidade que atravessávamos com indiferença. Dessa atenção podem nascer compreensão e mudança de atitude. Vale voltar à Academia Poética Brasileira porque através de sua digitalização ajuda a ampliar as possibilidades desse encontro: arte e poesia. Na Plataforma Nacional do Facetubes, procuro aproximar obras e leitores com um senso de responsabilidade ainda maior porque o solo onde pisamos (internet) é difícil de controlar em algumas vezes. Porém – e por outro lado - quando uma publicação desperta o desejo de ler, conhecer um artista ou escutar outra experiência de vida, já existe ali uma transformação que merece continuidade.

 

6 LÚCIA BORGES— Que conselho deixa aos jovens que sonham viver de sua arte? Qual é seu maior sonho para a APB? E em qual poesia ou cor definiria a Academia?

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MHARIO LINCOLN - Não um conselho, pois a esse assunto acabei me referindo na pergunta 4 (risos). Todavia, considero necessário preservar a curiosidade de aprender e ouvir. Ler e ouvir muito! Mas não é um conselho propriamente dito. Prefiro transformar essa pergunta dando continuidade a um sonho: que APB siga oferecendo espaço, leitura e oportunidades aos artistas, com pessoas dispostas a assumir esse compromisso ao longo do tempo.

 

Comenda APB.

 

LUCIA BORGES E MHARIO LINCOLN

Lúcia Borges foi eleita (em sua volta ao Brasil, Vice-Presidente da Academia POética Brasileira, no Estado do Espírito Santo.

01 MHARIO LINCOLN — Lúcia, você deixou o Brasil em 1988 e construiu nos Estados Unidos uma parte considerável de sua trajetória artística. Agora, com seu retorno ao país, o que mudou na mulher e na pintora depois de tantos anos vivendo outra realidade cultural? Que Brasil você reencontra e de que maneira essa experiência internacional poderá interferir em sua próxima fase de criação?

LÚCIA BORGES — Eu saí em 1988 uma jovem e volto 35 anos depois uma mulher completa. Morei 35 anos nos Estados Unidos, onde não só pintei, mas tive a honra de ensinar arte para crianças e adultos, imigrantes como eu e americanos. Ser professora lá me ensinou mais do que ser aluna. Então, o que mudou na mulher e na pintora? Tudo. A mulher aprendeu a recomeçar em outra língua, a ser ponte entre dois mundos. A pintora se libertou. Eu sou autodidata, nunca tive um estilo para me prender. Eu pinto tudo que me fascina, tudo que toca meu coração e encanta meus olhos. Nos EUA, essa liberdade ganhou ainda mais força. Que Brasil eu encontro? Um Brasil que ainda precisa ser pintado com amor. Um Brasil carente de cor e de acolhimento. Como essa experiência vai interferir na minha criação? Minha nova fase será o encontro. Serão 35 anos de saudade transformados em óleo sobre tela. Quero trazer para cá a disciplina que aprendi lá e a alma que nunca deixei aqui. Tenho mais de 4 mil certificados de vários países e um livro editado na Índia com meus trabalhos, mas meu maior prêmio é

poder voltar e pintar minha terra com olhos de quem aprendeu a amá-la à distância.

Lúcia Borges/Vice-Presidente APB-ES

02 MHARIO LINCOLN — Suas telas apresentam uma relação com a natureza, as paisagens, os elementos florais e, especialmente, com a intensidade das cores. Em sua produção, a luz parece cumprir uma função que ultrapassa a representação da realidade. Como você define a identidade estética que desenvolveu ao longo dos anos e quais transformações técnicas considera mais importantes desde suas primeiras pinturas até os trabalhos atuais?

LÚCIA BORGES — Eu não tenho um estilo definido, Mhario, e isso é a minha liberdade. Eu pinto o que me fascina, o que me toca o coração e encanta os meus olhos. Se me emociona, vira óleo sobre tela. Claro que tenho uma paixão: a natureza, as flores, as paisagens, a luz. Mas não pinto para copiar, pinto para sentir. A luz nos meus quadros não é para iluminar a paisagem, é para iluminar a alma de quem olha. Minha maior transformação técnica foi justamente essa: no começo eu queria pintar bonito, hoje eu quero pintar verdadeiro. Antes a pincelada era mais contida, hoje é mais livre, mais visceral. O óleo sobre tela me permite isso, camadas e camadas de sentimento, de história. Cada tela minha tem 35 anos de América e uma vida inteira de Brasil.

03 MHARIO LINCOLN — Sua trajetória reúne exposições e reconhecimentos em diferentes países, incluindo a publicação de trabalhos na Índia, a participação em atividades artísticas no Egito e no Iraque e a Comenda Patrono Thiago de Mello, concedida pela Academia Poética Brasileira. Entre os prêmios, distinções e experiências internacionais que recebeu, que considera decisivos para sua carreira? Que obras estiveram associadas a essas conquistas e como esse reconhecimento repercutiu no mercado e na circulação de sua pintura?

LÚCIA BORGES — Essa pergunta me emociona, Mhario, porque cada certificado, cada comenda, é uma página da minha história. Você citou alguns pontos que foram divisores de água. A publicação do meu livro na Índia foi decisivo. Ver meus óleos sobre tela cruzando o oceano e sendo editados em um país com uma cultura tão rica e espiritual, me mostrou que a minha arte, mesmo sem estilo definido, fala uma língua universal: a língua do coração. A obra que foi para lá foi justamente aquela que pintava o que me fascinava, sem amarras. A participação em atividades artísticas no Egito e no Iraque também me marcou profundamente. Levar a cor brasileira, a nossa luz tropical, para berços da civilização... foi entender que a arte é diplomacia da alma. E claro, a Comenda Patrono Thiago de Mello, concedida pela nossa Academia Poética Brasileira, foi o meu abraço de volta ao Brasil. Foi o Brasil me dizendo: ‘você nunca deixou de ser nossa’. Para uma artista autodidata, que aprendeu tudo sozinha, pintando o que toca o coração, receber uma comenda com o nome de um gigante como Thiago de Mello é a consagração de que o caminho livre também é um caminho válido. Tenho cerca de 4.000 certificados de vários países, e seria impossível citar um só. Mas se me perguntar qual foi o mais decisivo, eu digo: foram as minhas salas de aula nos Estados Unidos durante 35 anos. Cada criança, cada imigrante, cada americano que me disse ‘professora, agora eu consigo ver cor onde só via cinza’, esse foi meu maior prêmio. Como isso repercutiu no mercado? Eu nunca pintei para o mercado, Mhario. Eu pintei para a alma. E paradoxalmente, foi isso que fez minha pintura circular. Quando você pinta com verdade, sem se prender a um rótulo, o mundo reconhece. Minha obra hoje está em coleções em vários países não porque segui uma moda, mas justamente porque nunca segui. Eu sou livre, e o colecionador sente essa liberdade no óleo sobre tela.

 

04 MHARIO LINCOLN — Você desenvolveu trabalhos de formação artística no Brasil, incluindo o ensino de pintura no SENAC de São Luís, e prosseguiu essa atividade nos Estados Unidos. A experiência americana colocou você em contato com outro sistema de galerias, exposições, compradores e formação artística. Quais diferenças identificou entre o tratamento dispensado aos artistas nos dois países? O que o Brasil poderia aprender com a estrutura cultural e educacional que você conheceu nos Estados Unidos?

LÚCIA BORGES — Essa pergunta toca no ponto central da minha vida, Mhario. Eu comecei ensinando pintura no Senac de São Luís, no Maranhão. Um trabalho lindo, de base, formando gente do zero. Depois, por 35 anos nos Estados Unidos, dei aula de artes para crianças, para imigrantes e para americanos. Dois mundos, duas salas de aula, o mesmo amor. A diferença principal que eu identifiquei é: nos Estados Unidos o artista é tratado como um profissional. No Brasil, muitas vezes, ainda é tratado como um hobby, como alguém que faz algo bonito nas horas vagas. Lá, desde criança, o americano aprende que arte é profissão, é disciplina, é currículo. Na escola americana, a arte tem o mesmo peso que a matemática. Existem programas municipais, estaduais, federais que pagam para o artista ensinar, expor, produzir. O sistema de galerias é organizado, o comprador americano compra arte como quem compra um livro, ele entende que está levando um pedaço da história para casa. O artista autodidata, como eu, que não tem um estilo definido e pinta óleo sobre tela do que toca o coração, é respeitado por isso. A liberdade é vista como identidade. No Brasil nós temos algo que os Estados Unidos nunca terá: a alma, a cor natural, o talento que nasce na rua, o improviso genial. O brasileiro nasce artista. O que nos falta é estrutura. O que o Brasil poderia aprender? Três coisas que vi lá e que trago no meu coração de volta:

1. Educação desde a base: Arte tem que estar na escola pública todos os dias, não só em data comemorativa. Foi o que fiz por 35 anos lá e é o que quero fazer aqui.

2. Valorização do professor de arte: Lá eu era chamada de ‘Art Educator’, com orgulho. Aqui, ainda somos vistos como ‘professorinha de artesanato’. Precisamos mudar isso.

3. Mercado consciente: Lá o comprador entende que pagar bem por uma obra é investir em cultura. Aqui ainda temos o hábito de pedir desconto para o artista, como se nosso óleo sobre tela, nosso tempo, nossa vida, não valesse.

Eu não voltei para reclamar do Brasil, voltei para somar. Quero trazer essa disciplina americana e misturar com essa luz brasileira que só nós temos.

05 MHARIO LINCOLN — Sua ligação com a Academia Poética Brasileira acompanha parte de sua trajetória internacional. Você ocupa a cadeira 42, recebeu a Comenda Patrono Thiago de Mello e já levou o nome da instituição a eventos realizados no exterior. Também desenvolveu atividades de ensino e doação de obras para causas sociais. Que responsabilidade o artista assume quando seu trabalho passa a representar uma instituição cultural? Como você compreende a relação entre reconhecimento pessoal, formação de novos artistas e compromisso social?

LÚCIA BORGES — Essa pergunta resume o porquê de eu ter voltado, Mhario. Ocupar a cadeira 42 da Academia Poética Brasileira, receber a Comenda Patrono Thiago de Mello, levar o nome da nossa Academia para eventos no Egito, no Iraque, na Índia e nos Estados Unidos... nada disso é sobre mim. É sobre nós. Quando você se torna acadêmica, e ainda mais morando 35 anos fora, você entende que seu pincel não é mais só seu. Cada óleo sobre tela que eu faço, mesmo sendo autodidata, mesmo sem estilo definido, mesmo pintando só o que fascina meu coração, agora carrega um brasão. Carrega a responsabilidade de representar o Brasil, a poesia, a Academia. Que responsabilidade o artista assume? A de ser ponte. Eu não posso mais pintar só para mim. Eu tenho que pintar para honrar quem veio antes de mim na cadeira 42, para inspirar quem virá depois, e para não envergonhar o nome do nosso patrono, Thiago de Mello, que foi o poeta da Amazônia, da esperança. Como eu compreendo a relação entre reconhecimento pessoal, formação e compromisso social? E sobre o compromisso social? Doar obras, ensinar de graça, levar arte onde não tem... isso não é caridade, é obrigação. O mundo me ensinou. Então eu tenho que devolver. Cada obra que doei foi um agradecimento. Hoje, quando assino Lúcia, acadêmica da cadeira 42, eu assino com o peso e com a leveza de saber que minha arte finalmente tem endereço. Ela mora na Academia Poética Brasileira, mas trabalha para o povo.

06 MHARIO LINCOLN — Depois de décadas de produção artística, vivências internacionais, exposições e reconhecimentos, você inicia uma nova etapa de sua vida no Brasil. Qual seria a pintura que Lúcia Borges ainda não realizou, aquela que melhor traduziria tudo o que viveu dentro e fora do Brasil?

LÚCIA BORGES — Essa é a pergunta mais bonita que alguém já me fez, Mhario. O que ainda falta pintar? Falta tudo. E é por isso que eu voltei. E o que eu pretendo desenvolver nesta fase no Brasil? Três projetos moram no meu peito:

1. A Exposição do Retorno: Quero fazer uma grande exposição chamada ‘35 Anos em Cores – O Retorno de Lúcia Borges’. De um lado, telas que pintei nos EUA, com aquela luz fria, com a saudade. Do outro, telas que estou pintando agora, com o calor de Guarapari, com o reencontro. Quero que o público caminhe entre dois países dentro de mim.

2. O Ateliê Escola: Quero abrir meu ateliê para ensinar de graça, como fiz no Senac de São Luís e nos EUA. Ensinar crianças e mulheres, principalmente imigrantes que voltaram, como eu, e não sabem recomeçar. Devolver ao Brasil o que a América me deu: a crença de que a arte salva.

3. A Nova Linguagem: Quero me permitir. Depois de uma vida toda sem rótulo, quero experimentar ainda mais. Quero um óleo sobre tela maior, mais livre, talvez misturar poesia escrita nas minhas telas, já que agora sou de uma Academia Poética.

E qual seria a pintura que ainda não realizei? Aquela que traduz tudo que vivi dentro e fora do Brasil? Seria uma tela imensa, Mhario. No centro, uma mulher de costas, sou eu, entre dois oceanos. Na mão esquerda, ela segura as flores do Brasil, bem coloridas, bem vivas. Na mão direita, ela segura a neve dos EUA, que está derretendo e virando água que rega as flores brasileiras. E no céu dessa tela, não haveria bandeira do Brasil nem dos Estados Unidos. Haveria 4.000 pequenos pontos de luz, cada um certificado, cada um aluno que eu tive, cada um agradecimento. E no meio, bem grande, a luz. Essa pintura se chamaria ‘Eu Voltei’. E eu ainda não a pintei porque estou vivendo ela agora, aqui, respondendo essa entrevista para você.

 

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