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Brasil 03.11.2026

FLOR DE LYS: a mulher que ensinou o Maranhão a reconhecer as pessoas; e a mim, o significado de ser seu filho

Em 3 de novembro de 2026, recordo a vida de minha mãe, uma mulher que atravessou 55 anos de jornalismo, enfrentou preconceitos, conquistou seu próprio espaço e deixou uma história que não pertence apenas à nossa família. Pertence também à memória do Maranhão.

03/11/2026 15h08 Atualizada há 35 minutos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln.
Flor de Lys no Aero-Willys
Flor de Lys no Aero-Willys

Por Mhario Lincoln — jornalista, escritor e filho de Flor de Lys Félix c/Lorenzo MS, bisneto, acadêmico de Administração, piloto de drone (fotógrafo) e chefe de redação da Plataforma Nacional do Facetubes.

Minha mãe morreu duas vezes. A primeira, quando o Alzheimer começou a apagar, lentamente, os caminhos de sua memória. A segunda, em 29 de maio de 2011, quando seu coração parou de bater, no Hospital São Domingos, em São Luís. 

A primeira despedida talvez tenha sido a mais difícil. Ver uma mulher que durante décadas reconheceu milhares de pessoas, guardou nomes, histórias, rostos e acontecimentos, começar a perder suas próprias lembranças, foi uma experiência que nenhuma palavra consegue descrever por inteiro. 

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Aquela mulher era Flor de Lys Félix. Minha mãe. Uma das referências do jornalismo social do Nordeste. Hoje, 3 de novembro, data de seu aniversário, volto a encontrar sua presença nas coisas que o tempo não conseguiu levar. Descubro, mais uma vez, que a saudade não devolve ninguém. Ela apenas nos ensina a conviver com tudo o que permanece. Ela completa 96 anos em todos os nossos corações: Dalvinha Lima, Cristina Martins, Orquídea Santos e Mhario Lincoln (filhos), netos, bisnetos, família e amigos.

Antes de se tornar uma personalidade da imprensa maranhense, Flor de Lys precisou aprender a defender o próprio lugar no mundo. Era mulher numa época em que a independência feminina ainda provocava censuras silenciosas e julgamentos públicos. Enfrentou preconceitos, tomou decisões, sustentou escolhas e construiu uma vida profissional numa sociedade que reservava aos homens a maior parte dos espaços de influência. 

Minha mãe não pedia autorização para ter personalidade. Dirigia seu automóvel pelas ruas de São Luís quando encontrar uma mulher ao volante ainda despertava estranhamento. Em 1966, adquiriu um Aero-Willys Itamaraty, (foto), apontado pela memória familiar como o primeiro exemplar vendido no Maranhão, na tradicional Casa Moraes. Guardo a imagem daquela mulher dentro do carro como um retrato de sua época. 

Ela não estava apenas conduzindo um automóvel. Estava mudando os preconceitos de um momento ocupado por homens. Tanto que foi a segunda mulher a dirigir em São Luís. A primeira, segundo fontes pesquisadas, foi D. Eney Santana que, posteriormente, se tornaria uma das mais elegantes Primeiras-Damas do Maranhão.

Mutatis Mutanti, minha mãe atuou por 55 anos de jornalismo. Do Jornal Pequeno a O Imparcial, das páginas impressas às câmeras da TV Difusora, Flor construiu uma relação com o público que resistiu às transformações da comunicação. Foi pioneira na apresentação de programas sociais na televisão maranhense, com uma trajetória iniciada em 1973. Esteve à frente de acontecimentos como o concurso Miss Maranhão e a Noite das Personalidades. Conheceu governadores, empresários, artistas, intelectuais e representantes de diferentes setores da sociedade. Recebeu homenagens e condecorações. 

Contudo, nunca confundiu reconhecimento com privilégio. Não utilizou seus méritos, suas relações ou sua presença nos ambientes sociais para reivindicar direitos que não lhe pertenciam. Havia nela uma consciência muito precisa dos limites entre a influência e o abuso. Aprendi observando minha mãe que o caráter de uma pessoa se revela especialmente quando ela tem condições de obter vantagens e, por princípio, decide não fazê-lo. Apliquei essa lição em importantes cargos público que assumi. Um deles, por exemplo, a Chefia de Gabinete da poderosa Secretaria da Fazenda do Estado.

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Flor conhecia os salões da sociedade e também as dificuldades de quem vivia distante deles. Sua coluna e seu programa não existiam exclusivamente para registrar festas, casamentos, recepções e acontecimentos empresariais. Ela compreendia o significado de uma pessoa simples ter seu nome publicado ou sua imagem mostrada na televisão. 

Contava com satisfação a história de uma noiva sem recursos que desejava aparecer em seu programa. Ajudou a organizar a cobertura e realizou aquele pequeno sonho. Também recordava a jovem que vendia laranjas nas proximidades do Liceu Maranhense e que chegou a participar do concurso Miss Maranhão. Minha mãe enxergava uma pessoa, antes de enxergar sua posição social. 

Filhos: Dalva, Cristina, Flor (mãe), Orquídea e Mhario.
Foto melhorada por GinaiFT.

Nas lembranças que deixou, encontro uma frase que ajuda a explicar sua maneira de viver: “Sempre achei que a vida era de todos e que nós devíamos fazer coisas boas para sermos notados.” A generosidade, para ela, precisava existir fora dos discursos. Precisava chegar às pessoas. Mas sem que fosse aproveitada ou mostrada publicamente.

Sua história profissional também foi construída com disciplina, (vaidade pessoal - apenas - por carros do ano), humor e uma extraordinária capacidade de relacionamento. Minha mãe gostava de receber amigos, de conversar, de participar das festas e de acompanhar os acontecimentos da cidade. Conhecia os bastidores da política, da cultura e da sociedade maranhense. Sabia que uma palavra podia construir uma amizade, como também conhecia segredos que poderiam destruir uma reputação. Contudo, nunca usou isso. Em hipótese nenhuma! 

 

Flor de Lys valorizava a confiança daqueles que lhe forneciam informações. Quando enfrentou problemas cardíacos e precisou de tratamento, recebeu manifestações de afeto que lhe devolveram forças. Mais tarde, recordaria: “Aquilo foi um carinho tão grande que me ajudou a viver, a cicatrizar.” Talvez estivesse descobrindo, naquele momento de fragilidade, a dimensão humana do trabalho que havia realizado. As pessoas que durante tantos anos receberam sua atenção agora procuravam oferecer a ela um pouco do afeto acumulado. Não só pessoas de São Luís, mas da família Salles de Oliveira que tinha à frente Henrique e Celine Rodrigues Salles de Oliveira (com o filho Rodrigo). Acompanharam, em São Paulo, a difícil cirurgia cardíaca dela.

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Dentro de casa, Flor era simplesmente nossa mãe. Minha, de Orquídea Santos, de Maria Dalva Lima e de Cristina Martins. A mulher que o Maranhão conhecia pela televisão também carregava as preocupações comuns à maternidade, os compromissos familiares, as dificuldades pessoais e a responsabilidade de educar os filhos. 

Conviver com ela significava compreender, desde cedo, que uma vida pública tem exigências que nem sempre cabem na rotina doméstica. Aprendemos a dividir sua presença com uma cidade inteira. Havia sempre alguém procurando D. Flor, solicitando uma informação, pedindo ajuda ou desejando compartilhar uma conquista. 

O tempo passou, nós crescemos, seguimos nossos caminhos; e aquela mulher continuou sendo uma referência para todos nós. Hoje compreendo melhor a extensão de sua herança. O que recebi de minha mãe não pode ser medido pelos poucos bens materiais que deixou. Recebi princípios, lembranças, exemplos de coragem e a responsabilidade de preservar um nome que ela construiu sem abandonar sua dignidade.

 

O Alzheimer trouxe uma das experiências mais dolorosas de nossa convivência. Minha mãe, que durante décadas vivera cercada de pessoas, acontecimentos e recordações, passou a enfrentar uma doença que compromete justamente a memória. Existe uma crueldade particular nessa circunstância. A mulher que havia ajudado a contar a história de tanta gente começou a perder o acesso a partes de sua própria história. 

Sua saúde se agravou, veio a internação por descompensação cardíaca e, finalmente, a parada cardiorrespiratória que encerrou sua vida aos 82 anos. Hoje completa em nossos corações 97 anos. O tempo passou e recentemente fui a São Luís-Ma. Passei por onde moramos na Rua dos Afogados (centro-SLuis-MA). Exatamente onde as águas violentas das duas cabeceiras de ruas; uma vindo da rua do Egito e outra da Rua dos Remédios se encontravam e formavam uma onda imensa que descia por uma rua paralela até a famosa "Boca de Lobo", na rua do Alecrim. Afora isso, cujo problema foi sanado há anos, as ruas continuam no mesmo lugar, as casas permanecem de pé, os calendários seguem avançando. As festas sociais continuam acontecendo. Contudo, para nós, falta uma presença que dava sentido particular a cada uma dessas coisas.

Hoje, quando volto à história de Flor de Lys, para partilhar um pouco da vida de uma mulher muito além das fotografias, das condecorações e das páginas de jornal, continuo encontrando a coragem de quem enfrentou seu tempo, a independência de quem não negociou os próprios princípios e a humanidade de quem compreendeu que ninguém se torna maior diminuindo os outros. 

O Maranhão conserva a lembrança de uma jornalista que ajudou a construir a memória social de São Luís. Nós também. Todos que a amam, conservam a voz de Flor de Lys, seus gestos, seu modo de olhar a vida e as lições que continuam presentes nas minhas escolhas. 

Sei que nenhuma homenagem será capaz de reconstruir tudo o que vivemos. Também sei que existem pessoas cuja ausência passa a fazer parte de nossa própria identidade. Flor de Lys é uma dessas pessoas. Para o Maranhão, ficou a jornalista. Para a história, ficou a mulher. Para mim, ficou minha mãe, imortal, cuja luz ainda ilumina seus descendentes. E nenhuma distância entre a vida e a morte será suficientemente grande para separar um filho do amor que recebeu dela. E para minha maior satisfação, ao meu lado, hoje, em minhas atividades profissionais, meu neto, bisneto dela, Lorenzo MS.

Mhario Lincoln 
Jornalista, escritor, poeta e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.

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