Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes
Foi uma conversa breve, entre os preparativos de mais uma apresentação e a perspectiva dos cinquenta anos. Uma oportunidade de ouvir quem acompanha essa história desde o início e de reconhecer o trabalho de cada integrante que ajuda a mantê-la em movimento.
À frente do Coral São João há quase cinquenta anos, maestro fala sobre a circulação da música maranhense, as dificuldades de manter o grupo e o amor que sustenta sua trajetória.
Fernando Mouchrek trouxe de São Luís, com apoios imprescindíveis de amantes do canto coral, 36 coralistas em viagem aérea, para uma turnê que passa por Curitiba, Londrina (para participar de um grande festival de Coros), e São Paulo. A dimensão desse deslocamento ajuda a compreender o trabalho necessário para manter o Coral São João em atividade: reunir vozes, organizar viagens, buscar apoio e renovar, a cada apresentação, o compromisso com a música.
Fundado em 1977, em São Luís, o grupo se prepara para a grande festa dos cinquenta anos, em abril de 2027. Mouchrek acompanha essa trajetória desde o início. Sob sua regência, o repertório atravessa o erudito e o popular, com espaço para os compositores nordestinos e para as manifestações culturais do Maranhão. O bumba meu boi leva aos palcos uma parte dessa identidade que o coral compartilha com públicos de diferentes países.
Na sexta-feira, 23 de outubro de 2026, antes da apresentação destinada a alunos e professores da Escola de Música Paideia, no Teatro Regina Vogue, no 'Shopping Estação', em Curitiba, conversei com o maestro. Entre os preparativos do espetáculo, ele falou sobre as dificuldades de financiamento, recordou uma premiação na Itália e explicou por que a música continua no centro de sua vida.
Aos 75 anos, o engenheiro agrônomo e professor que encontrou no canto coral uma vocação, responde sem hesitar quando o assunto é aposentadoria. Também reconhece a necessidade de preparar a continuidade do trabalho. Suas palavras ajudam a entender a persistência de um grupo que se renova e se aproxima das Bodas de Ouro levando o Maranhão na voz de cada integrante.
A ENTREVISTA EXCLUSIVA
Mhario Lincoln
Jornalista e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes
Fernando Mouchrek: “Nas nossas viagens, o coral deixa de ser 'São João' e passa a ser Brasil”
Mhario Lincoln — Como você avalia este começo de turnê e a recepção ao Coral São João?
Fernando Mouchrek — É uma luta. Na cultura, conseguir ajuda é uma dificuldade muito grande. Trouxe 36 pessoas de avião para esta turnê. Estamos em Curitiba, vamos para Londrina e depois seguimos para São Paulo. Porém, há sempre alegria, porque a música transcende e nos faz felizes. Vivo em função dela e faço esse trabalho por amor. É dessa dedicação que vem o resultado.
Mhario Lincoln — O que o público encontra no repertório: música clássica, popular ou uma combinação das duas?
Fernando Mouchrek — Vou do erudito ao popular. Mostro o trabalho que o Coral desenvolve no erudito e depois entro no popular, principalmente para apresentar ao Brasil e ao mundo a nossa música maranhense. O folclore do Maranhão é riquíssimo. Temos o bumba meu boi, João do Vale, os nossos compositores e a música nordestina. É isso que levo para fora. Se vou à Alemanha cantar Bach, encontro corais que cantam Bach melhor do que nós. Então levo a música brasileira, que temos uma maneira própria de fazer.
Mhario Lincoln — Nessa trajetória de quase cinquenta anos, qual momento mais emocionou você?
Fernando Mouchrek — A participação em um festival internacional em Verona, na Itália. Em uma ocasião dessas, o Coral deixa de ser 'São João' e passa a ser Brasil. Conquistamos o segundo lugar na categoria Popular/Folclore. O primeiro ficou com a Ucrânia e o terceiro com a Suécia. Para mim, foi um marco: um coral do Maranhão participar de um festival em Verona e trazer o segundo lugar para o Brasil. Tenho o troféu e os registros desse momento.
Mhario Lincoln — O que vocês cantaram naquela apresentação?
Fernando Mouchrek — Levamos o nosso folclore, o bumba meu boi. Também cantamos uma peça peruana - Ayahuasca - com o nosso saudoso tenor Tadeu Carvalho, que faleceu recentemente. Foram dois momentos do repertório que fizeram sucesso.
Mhario Lincoln — Com o cinquentenário se aproximando, a aposentadoria passa pela sua cabeça?
Fernando Mouchrek — Não! Comecei bem jovem. Estou com 75 anos e à frente do São João há quase cinquenta. Mas já tenho alguém que estou preparando para reger o Coral. A idade vai impondo limitações e a gente segue em pé. Mas quando parar em definitivo, estarei no palco, sentado, olhando o novo regente. Isso vai me amocionar até o fim.
Mhario Lincoln — O que sustenta essa persistência?
Fernando Mouchrek — É o amor. O que se faz por amor tem essa força. É ele que me mantém nesse trabalho. Por incrível que pareça, sou engenheiro agrônomo e dei aulas durante vários anos na Universidade Estadual do Maranhão, nos cursos de Veterinária, Agronomia e Engenharia de Pesca. A música começou como um hobby e foi se tornando uma atividade com caráter profissional. Não digo que sobrevivo de música. Faço música sem ganhar dinheiro com isso. É amor mesmo.
Mhario Lincoln — Para encerrar: onde você situa o Coral São João entre os corais brasileiros?
Fernando Mouchrek — Há vários corais de qualidade no Mundo. Mas eu te garanto que estamos entre os dez.. Muito obrigado, Mhario!
VÍDEOS-BÔNUS
(Apresentação intimista/Paideia/Teatro Regina Vogue/Curitiba/Paraná/23.10.2026)
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