Marcus Saldanha – Historiador, Jornalista e Escritor
A historiadora, pesquisadora, escritora e professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix, uma das mentes mais inquietas e produtivas do Maranhão, celebra seus 90 anos, na próxima sexta-feira, 02 de outubro com extrema lucidez, trabalho diário e paixão inabalável pela memória maranhense. Mais que um modelo de profissional obstinada pelo seu ofício, um exemplo do envelhecer bem, ativa e essencial no olhar de seu lugar e discussão de seu tempo.
Numa época em que jovens de trinta e poucos reclamam que já estão ficando velhos e cansados, Lurdinha Lacroix segue publicando compulsivamente textos polêmicos e fundamentais para a discussão da História do Maranhão, desde a virada deste século, na maturidade dos seus 60 anos.
São das duas últimas décadas, por exemplo, A fundação francesa de São Luís e seus mitos (2000); Os Franceses, a Pirataria e a Colonização do Norte” (2001); Cronistas do Maranhão Colonial (2002); A Historiografia Brasileira e os Franceses no Maranhão (2003); O Forte de Saint Louis (2004); Os Baluartes de São Cosme e São Damião (2004); Jeronimo de Albuquerque no Maranhão (2006); São Luís do Maranhão: corpo e alma (2012); História da Medicina em São Luís: médicos, enfermidades e instituições (2015); Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios: tricentenário da devoção a virgem (2021) e Bom Jesus dos Navegantes: irmandade e capela (2024).
Aos quase 90, segue trabalhando diariamente em pelo menos três obras ao mesmo tempo, que assim como as demais, partem de provocações de pessoas e/ou instituições, seja uma rádio, uma Igreja ou o Conselho de Medicina. Uma palestra que esmerada por dias à fio, disciplinados e noites insones desembocam em livro valiosos para a historiografia maranhense, publicados geralmente às próprias custas.
Foi assim, com seu trabalho mais destacado, quando a partir de uma demanda para uma rádio francesa, discorreu em contraponto sobre o mito da fundação francesa de São Luís. Inquieta, reuniu obras fundamentais sobre o assunto e transformou a fala em obra, pautando por anos o debate público sobre o tema.
Leitora voraz e apaixonada desde a infância, aprendeu nos clássicos da literatura universal e nacional, escrever de forma acessível e fluida para todos os tipos de leitores. Suas obras, embora marcadas pelo rigor científico, extrapolaram o mundo acadêmico e alcançaram admiradores de campos e saberes variados.
Foi advogada do INPS, onde se aposentou. Depois professora concursada da Universidade Estadual do Maranhão onde também se aposentou e professora contratada da Universidade Federal do Maranhão por vários anos em paralelo à advocacia no serviço público. Por onde passou é lembrada pela generosidade, determinação e exigência profissional.
Não só fazia o que era preciso, ia além. Inscrita no concurso público para professora da Universidade Estadual do Maranhão para a disciplina de História Antiga em 2001, não só estudou os assuntos que em geral não dominava, como minunciosamente preparou 12 textos, um para cada possível tema que poderia ser exigido pelo certame. Não deu outra, aprovada!
Uma história contada por amigos de magistério que entrega a professora “Caxias” que foi, é conhecida na Universidade. Certa vez foi pessoalmente a casa de uma aluna puérpera aplicar uma prova da disciplina que lecionava: “Você está de licença das aulas, não das atividades!”, disse à aluna surpresa, sobre inesperada “visita”.
Ao mesmo tempo, Lurdinha é a mulher que recebe amigas e amigos para tomar café e rir das amenidades da vida. Permite-se divagar sobre futilidades, assim como desfrutar um pouco da vista solar da janela de sua sala, pertinho de onde escreve num computador de mesa, e por onde espia o rio Anil caminhar vagarosamente ao encontro da Baía de São Marcos.
Celebrar a vida de Lurdinha Lacroix, é também reconhecer a importância de uma mulher que escreveu seu nome no mundo intelectual com temáticas variadas como o galicismo, mitos, economia maranhense, religiosidade maranhense e educação num universo ainda majoritariamente masculino, com o coração conservador e extremamente religioso, mas acima de tudo honesto, generoso e acolhedor, em sua vida e obra onde declarou seu profundo amor à cidade de São Luís.
Lurdinha Lacroix e Arleth Nogueira, contemporâneas da mesma geração, que dividiram livros, sonhos e o sol da praia na antiga Quinta da Vitória no Jenipapeiro, ainda hoje seguem amigas rompendo auroras e crepúsculos. Se há fórmula do bem viver, diria que o melhor remédio é torna-se imprescindível para sua cidade, para sua gente, delicadamente e vigorosamente, como quem inventa o nascer e pôr do sol diariamente.
Viva Lurdinha Lacroix!
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