
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Na tela enviada pela artista Vicenir Felix Sucasas, (maranhense, residente em São Paulo), Dom Quixote não aparece como figura decorativa da tradição literária, porque essa cena específica provoca imediato impacto cromático do quadro.
O azul profundo envolve tudo como noite metafísica, enquanto os ocres da armadura e o rosa intenso da figura acompanhante, rompem a penumbra com calor humano. É uma composição de alta tensão poética, em que a luz não esclarece totalmente a cena, mas a enobrece. A pintura parece menos interessada em narrar um episódio e mais decidida a revelar um estado de alma.
Os traços do pincel ajudam a construir esse efeito. Há uma pincelada larga e fluida na superfície azulada e no corpo dos cavalos, quase como se a matéria estivesse em dissolução. Em contrapartida, lança, elmo e escudo recebem tratamento mais firme, mais vertical, mais contido. Esse contraste é decisivo.
De um lado, a forma vacila. De outro, o ideal insiste. O quadro cria, assim, uma espécie de atrito entre permanência e instabilidade. Quixote se mantém ereto, quase solene, mesmo quando o mundo sob seus cascos já não parece chão, mas reflexo.
É justamente nesse ponto que a imagem cresce filosoficamente. Os cavalos parecem pisar sobre água, ou sobre uma película líquida que mistura espelho, oceano raso e sonho. A metáfora é poderosa. Pisar no líquido pode significar viver sem garantias, avançar sem solo firme, sustentar convicções onde tudo escorre.
Numa chave contemporânea, a cena dialoga com a ideia de “modernidade líquida” formulada por Zygmunt Bauman, para quem as estruturas sociais e afetivas perderam solidez e passaram a fluir com rapidez, insegurança e desgaste. Aqui, Quixote parece atravessar exatamente esse mundo que não fixa nada, mas exige movimento contínuo.
Essa comparação não é gratuita. Se Bauman descreve uma época em que vínculos, certezas e identidades se tornaram instáveis, o quadro de Vicenir Sucasas oferece uma resposta visual a esse drama. Dom Quixote avança sobre a fluidez como quem se recusa a entregar a alma ao desmanche do tempo.
Nesse horizonte, o sonho por Dulcinéia ganha relevo especial, possivelmente na pureza dos cavalos brancos da cena. Segundo a tradição crítica e enciclopédica, Dulcinéia é a camponesa Aldonza Lorenzo transfigurada por Quixote em dama ideal, figura de perfeição amorosa, para quem ele projeta feitos e grandezas.
Ela vale menos como presença concreta do que como motor íntimo de elevação. Quixote não ama apenas uma mulher. Ama a possibilidade de tornar o mundo mais alto do que ele é.
Talvez por isso – e com base nisso – Sucasas tenha originariamente pensado em transformar em tela a frase mais célebre de Cervantes: “La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones…”. Ou seja, in Dom Quixote (parte II, capítulo LVIII): "A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus".
Destarte, a pintura de Vicenir Sucasas parece compreender que Quixote só continua cavalgando porque no fundo, sonhar também é um ato de liberdade. E, quando a realidade se converte em líquido, as patas dos cavalos parecem pisar numa forma invisível de esperança. Ela sugere que, mesmo num mundo em estado de dissolução, ainda há quem escolha a fidelidade a uma visão interior.
Ao fim, a tela comove porque transforma um ícone da literatura em alegoria do nosso próprio tempo. Em alguma medida já pisamos superfícies incertas. Já atravessamos dias em que o chão parecia água. O mérito desta obra está em converter essa fragilidade em linguagem visual de alta força simbólica. Quixote segue adiante, cercado por azul, por silêncio e por riscos. Não porque ignore a precariedade do mundo, mas porque decidiu que o sonho, ainda assim, merece ser conduzido até o fim.
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