Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
A palavra acompanha uma vida de responsabilidades, aprendizado e convivência. Dessa experiência nasce uma poesia que merece ser lida com a mesma atenção que a autora dedica às pessoas e às lembranças. Tanto que em seu livro "Sol, Luar, Brisa e Mar", ela se doa por inteiro e se faz conhecer, antes como ser humano, depois como poeta e cordelista.
Nascida em Campo de Pombinhas, no município de Cantanhede, Raimunda Frazão está entre as referências do cordel no Maranhão. A Associação Maranhense de Escritores Independentes registra seis prêmios em fotografia, quatro deles em primeiro lugar, e primeiras colocações com João do Vale em Cordel e História do Náutico em Cordel.
O IPHAN reconhece sua participação na história dessa expressão literária no Estado. São conquistas de uma mulher que fez da criação uma prática constante, compartilhada em livros, apresentações e encontros.
A humildade aparece na maneira de se colocar diante do assunto. Em “Bumba Boi”, ao escrever “Eu falo um pouco do mesmo / Não como intelectual”, Raimunda escolhe a proximidade de quem conhece e participa.
Seu poema percorre manifestações do boi e chega aos sotaques maranhenses, reunindo instrumentos, ritmos e modos de brincar. A cadência ajuda a guardar esse conhecimento e a levá-lo adiante. O verso cumpre uma função de memória cultural.
Essa atenção também alcança aquilo que interrompe a alegria. Em “Inquietações”, a fotógrafa lamenta a dificuldade de caminhar por São Luís e registrar suas paisagens: “As belas fotografias / Já não posso mais tirar”. O receio de perder o equipamento limita o olhar e a circulação. O poema, datado de 2015, dá forma a uma experiência concreta de insegurança. A preocupação com o dinheiro e o cuidado de não abusar da ajuda dos amigos tornam o relato próximo de tantas vidas que precisam calcular cada saída.
Em “Lua dos meus encantos”, a repetição da palavra “Lua” sustenta um movimento de lembrança e acolhimento. Pranto, sorriso e canto pertencem à mesma existência. Quando escreve “Na lembrança agradecer”, Raimunda encontra uma maneira de visitar o passado com gratidão. A fé acompanha esse gesto: a lua é recebida como presença que consola, ligada à confiança em Deus. A suavidade do poema nasce dessa intimidade entre o que se vê no céu e o que se guarda por dentro.
É no relato de sua trajetória que a força dessa mulher ganha dimensão. Raimunda conta que cuidava dos irmãos, atendia no comércio, estudava à noite e costurava. Ainda adolescente, alfabetizou crianças, jovens e adultos na escola fundada pelo pai. O verso “Até vovós ensinei!” carrega a alegria de quem reconhece o alcance de um trabalho. Sua luta aparece nesses verbos: cuidar, atender, estudar, ensinar. A poesia conserva o esforço cotidiano e dá nome às pessoas que fizeram parte dele.
Há também uma forma de compreender as próprias conquistas. Ao lembrar apresentações, estudos, emprego e premiações, a autora abre espaço para os pais, os irmãos, o companheiro, os colegas e os leitores. “Nos lugares onde morei / Amizades eu construí” expressa essa medida afetiva da vida. O reconhecimento vem acompanhado da lembrança de quem esteve perto. Para nós, que lhe temos carinho, esse modo de repartir a memória ajuda a explicar a estima que Raimunda Frazão desperta.
“Minha trajetória em Cordel”, escrito em 14 de março de 2020, organiza essa caminhada em estrofes de seis versos. O percurso vai da infância em Pombinhas à formação escolar, passa pelo ensino, pelo trabalho nos Correios e pelas atividades artísticas, e chega à gratidão. A sequência permite acompanhar uma mulher que aprende, assume responsabilidades e encontra ocasiões para criar. A referência aos 69 anos pertence à data da composição. Reproduzido a seguir, o cordel deixa a própria autora conduzir o leitor por sua história. A APB e a Plataforma se orgulham de tê-la entre nós.
Minha trajetória em Cordel
Raimunda Frazão
Nasci lá em Pombinhas,
Cantanhede Maranhão,
De lá fui para Pirapemas,
Com os pais e os irmãos,
Para poder estudar,
Seguir minha vocação.
Pirapemas a cidade
Onde aprendi a ler,
Lá os meus primeiros versos
Eu cheguei a escrever,
Os versos que escrevi
Seguem abaixo pra você:
“Tens verde, amarelo e branco
Também tens azul anil,
És a bandeira mais linda
Bandeira do meu Brasil!”
Quem apareceu na Escola
A declamação ouviu.
Na Época com sete anos
No palco eu estreei!
De lá para cá muitas vezes
Eu já me apresentei!
Sou atriz, sou fotógrafa
Muitos prêmios já ganhei!
Com quinze anos de idade
Para a terra natal voltei,
Meu pai fundou uma escola,
Onde eu alfabetizei
Crianças, jovens e adultos,
Até vovós ensinei!
Depois fui para São Mateus
Para no Ginásio estudar,
O povo lá da cidade
Cheguei a representar,
Em eventos importantes
Realizados por lá.
Tomava conta de irmãos,
E no comércio atendia,
À noite ia à escola
Estudar com alegria,
Costurava muito bem
Tinha até freguesia.
Quando o Fogo Simbólico
Passou naquela cidade,
Eu discursei para o público
Na maior simplicidade,
Ajudei levar a tocha
Para a vizinha cidade.
Na conclusão do ginásio
A turma representei,
Com um discurso singelo,
A todos emocionei.
Aos meus colegas de turma
Um por um eu abracei.
Como era boa aluna
Ganhei sem preocupação
Vaga na Escola Técnica
Federal do Maranhão,
Então vim para São Luís
Com uns primos e irmãos.
Fiz concurso para a ECT
Com nota boa passei,
Como Auxiliar de Agência
Por uns tempos trabalhei,
Me dediquei ao trabalho
E outros cargos galguei.
Pertenci a Sindicatos,
E no Coral eu cantei,
Nos eventos da Empresa
Poesias eu declamei.
Nas várias atividades
Aprendi e ensinei.
ECT em Poesias
Um dos livros que lancei,
Contendo as poesias
Que na Empresa declamei,
Muitos profissionais
Com elas homenageei.
Com quatro primeiros lugares
Na área da Fotografia,
Um segundo e um terceiro
Que me deram alegria,
Também primeiro lugar
Na linha da Poesia!
Soube que com nota dez
Mais um título consegui,
O de Mestra do Cordel,
Ao qual eu me dediquei,
E ofereço a Luzimar
O título que eu ganhei.
Sou Cordelista e conto
A você minha trajetória,
Sessenta e nove anos
Vivendo a minha História,
Graças a Deus e a meus pais
Colhendo muitas vitórias!
Sempre fui feliz na vida
Tudo que quis consegui,
Nos lugares onde morei
Amizades eu construí,
Moro em São José dos Índios,
O amor me trouxe aqui!
Cantanhede, Pirapemas,
São Mateus do Maranhão,
São Luís e Ribamar,
Terras do meu coração,
Passei por muitos lugares
Morar, só no Maranhão!
Minha mamãe Idalina,
Meu querido pai Crispim,
Mobi, amor da minha vida,
Muito fizeram por mim,
E a todos os leitores
Sou agradecida sim!
A Deus o Supremo Pai
De toda a inteligência,
Que comanda minha vida
Com piedade e clemência,
Ajoelhada aos Seus pés
Gratidão e Obediência.
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