*Mhario Lincoln
A beleza desses versos está na maneira como uma engenheira florestal, Joema Carvalho (APB-PR), transforma a observação da natureza em pensamento poético. A coruja, ave que atravessa a noite enxergando aquilo que a luz do dia não revela, assume uma condição que ultrapassa sua existência biológica.
Há nessa construção uma aproximação com a filosofia do conhecimento: enxergar nem sempre significa compreender, assim como a claridade nem sempre representa a verdade. A “lua mansa minguante” estabelece o ritmo da cena, enquanto a “coruja profana” rompe a associação tradicional da noite com o medo. A ave torna-se “soberana” de seu território, senhora de uma sabedoria que dispensa testemunhas.
O verso “cabaré mirim” introduz uma ruptura na atmosfera do poema, trazendo para o espaço da floresta uma imagem da convivência humana, com seus mistérios, disfarces e encenações. A natureza deixa de funcionar como cenário e passa a participar da reflexão sobre a própria existência.
Há também uma leitura social nessa pequena arquitetura de palavras. Vivemos numa sociedade que valoriza a exposição, a aparência e a necessidade de permanecer visível. A coruja segue outra lógica. Sua existência ganha intensidade quando o mundo diminui o olhar sobre ela. “Na luz, esvanece / desperta na sombra / sua melhor versão” é o momento em que a poesia alcança sua dimensão filosófica. A sombra deixa de representar ausência e passa a significar possibilidade de realização.
Joema Carvalho conhece a relação dos seres vivos com seus ambientes e, ao escrever, converte esse conhecimento em metáfora da condição humana. Cada existência possui seu tempo de manifestação, seu território e sua maneira de participar do mundo.
O poema encontra beleza justamente nessa inversão: aquilo que para muitos representa escuridão, constitui, para a coruja, a plenitude de sua natureza. A poeta consegue, assim, fazer da noite uma forma de conhecimento e da coruja uma lição sobre a liberdade de existir segundo a própria essência.
Coruja
Joema Carvalho
olhos de coruja
toca um canto noturno
lua mansa minguante
coruja profana
soberana da noite
feitiço que envolve
a tela do dia
cabaré mirim
fluída sabedoria
na luz, esvanece
desperta na sombra
sua melhor versão
Contato:
https://www.instagram.com/joemacarvalho_literatura
https://www.facebook.com/joema.literatura
Livro da autora
Luas & Hormônios
https://www.amazon.com.br/Luas-Horm%C3%B4nios-Joema-Carvalho-ebook/dp/B08P1Z987P
Crônicas de Uma Jornada Florestal (em português e em espanhol e em E-Book)
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