Por Hatsuo Fukuda
Passo na Casa das Canetas, na Rua XV. Na vitrine, chama a minha atenção umas Parker 51 novas. Entro e peço para vê-las, curioso. A atendente, gentil, que deve estar acostumada a receber viciados pobres, mostrou-as com paciência. Anos atrás, a Parker lançara uma coleção de Parker 51; da mesma forma eu as examinara, cobiçoso. A pobreza me impediu de comprá-la, ontem, e hoje, também me limitarei ao desejo.
Ao contrário da coleção anterior, que preservara apenas a estrutura icônica em uma embalagem de luxo, esta reproduzia fielmente as antigas Parker 51. Imediatamente me veio a suspeita de que elas teriam sido fabricadas na China e rotuladas pela Parker, como fazem a Nike, a Apple e todas as demais marcas mundiais. Examinei minuciosamente a caneta, e a atendente mostrou sua origem: Made in France. Não era chinesa (ou é; nunca se sabe).
Na Shein e no AliExpress você pode encontrar, a preço de banana, cópias da Parker 51 que suponho funcionam tão bem quanto as originais. Mas elas não têm a preciosa inscrição interna: Made in USA — o atestado de quando o Império Americano era a fábrica do mundo.
Hoje, a fábrica do mundo se transferiu para a China, que inicialmente se dedicou a produzir gadgets baratos e, aos poucos, transformou-se em padrão de excelência em alta tecnologia. Graças a uma burocracia imperial altamente qualificada, o Império do Meio hoje desafia a potência hegemônica que, atabalhoadamente e com líderes medíocres, tenta preservar sua influência internacional. Novos tempos, tempos tempestuosos.
Os entendidos em história dizem que isso não é novo e não vai acabar bem. Extraem de peças arcanas de um já esquecido grego o que chamam de Armadilha de Tucídides. Deixemo-los com suas catástrofes anunciadas e voltemos à Parker 51, que é o que nos interessa.
Alguém já se espantou com meu interesse por uma peça de museu, que é o que são as canetas-tinteiro. Trata-se de uma excentricidade e um anacronismo em uma época em que se escreve, quando se escreve, em computadores ou celulares.
Vejo no Facebook anúncios do novo Kindle que transforma os livros em audiobooks. É uma grande vantagem, segundo sou informado. Você poderá ouvir os livros enquanto dirige, caminha ou anda na esteira. É maravilhoso e prático. Baixe aqui o aplicativo e seja feliz e letrado.
O mundo caminha a passo acelerado para ser um mundo ágrafo. Estamos retornando à época anterior à escrita. Escrever já é quase uma peça de museu; a caneta-tinteiro, portanto, é um duplo anacronismo.
Já escrevi aqui sobre este e outros anacronismos, numa espécie de desabafo. Mas agora gostaria de registrar uma outra nota, mais racional. A verdade é que a escrita manual é um grande exercício educacional e, ademais, de formação de caráter (minha opinião pessoal, sem qualquer conhecimento técnico sobre o tema). A população ágrafa, que é a maioria nas redes sociais e no Brasil, jamais — repito, jamais — se comportaria da maneira leviana com que se comporta se tivesse tido a experiência infantil da caligrafia ou da produção de textos. Exercício este que antigamente se ensinava nas escolas, nas aulas de redação e caligrafia, e que hoje deixou de ser oferecido, ou é dado com ligeireza.
En passant, diria que uma das razões do crescimento acelerado chinês (e do Japão, da Coreia, de Taiwan) se deve, em parte, ao fato de que suas escritas ideogramáticas exigem de seus aprendizes um exercício intelectual que os prepara para as complexidades e sutilezas do mundo. Escrever torna os trabalhadores chineses mais aptos a enfrentar o mundo do trabalho moderno.
As velhas peças arcanas que dizem não ter mais vez no Admirável Mundo Novo em que vivemos estão cada vez mais presentes — aliás, como sempre estiveram. A Armadilha de Tucídides, fruto de guerras tribais na Antiga Grécia, é um modelo estudado por estrategistas em todo o mundo. O Romance dos Três Reinos, clássico chinês, inspira seus líderes — foi um dos fundamentos racionais para a reaproximação entre China e USA, na segunda metade do século passado. A Arte da Guerra, de Sun Tzu, é ensinada nas escolas militares (e de negócios) em todo o mundo.
Do outro lado do Oceano Pacífico, a ignorância de seus líderes, treinados apenas nas artes da comunicação de massa — na qual são especialistas —, faz com que entrem em guerras contra inimigos que não conhecem, e que, portanto, dificilmente vencerão. Exemplo maior disso foi a afirmação leviana do presidente Trump de que iria apagar a civilização iraniana.
A bravata ignora a história. Ignora que a civilização iraniana não pode ser obliterada sob pena de apagamento da própria cultura ocidental, que tem entre os seus pilares a cultura judaico-cristã, na qual a civilização iraniana exerceu um papel fundamental. Como lembra o antigo lamento judeu: "Ano que vem em Jerusalém", produzido ao tempo de Ciro, o Grande — líder iraniano - canto este que inspirou a criação do Estado de Israel.
No fundo, o anacronismo maior não é o da escrita, ou da escrita manual, ou da caneta-tinteiro; o maior anacronismo é o do pensar.
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SERVIÇO AO LEITOR
História: A Parker 51 foi lançada em 1941 e se tornou a caneta mais vendida do mundo. É um verdadeiro ícone do design. Saiba mais na Wikipedia.
Onde encontrar em Curitiba: Os preços da Parker 51 na tradicional Casa das Canetas (Rua XV de Novembro) variam entre R$ 1.200,63 e R$ 3.627,00, dependendo do modelo. Confira as opções no site oficial da loja.
Mercado online: Pesquisando na internet, você a encontrará nos mais variados valores, dependendo do estado de conservação e da origem. No AliExpress há cópias a preços muito baixos, além de centenas de outras opções. É um paraíso para viciados.
Quanto aos demais anacronismos, esqueça. Entre a pílula vermelha e a azul, tome aquela que o deixará em estado de felicidade permanente.
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