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“PARADOXO”, de Joema Carvalho

Joema Carvalho é membro-efetivo da Academia Poética Brasileira

11/10/2025 às 10h11
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joema Carvalho
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JOEMA CARVALHO/apb-pr
JOEMA CARVALHO/apb-pr

Joema Carvalho é engenheira florestal, doutora e escritora. Autora dos livros Crônicas de Uma Jornada Florestal (2024) e Luas & Hormônios (2010; 2020), coautora do livro Entre Botânicas Decoloniais: As frutas silvestres de H. D. Throreau e as frutas brasileiras (2022), organizadora e autora do Tuíra eBook (2020) e impresso (2022). Colunista do Facetubes. Participou de coletâneas nacionais e internacionais e de projetos literários. Membro da Academia Poética Brasileira – APB/pr.

 

 PARADOXO

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Joema Carvalho

 

Todos estavam tomando café quando as lavas começaram a entrar pelas frestas da casa.

Lucas andou de bicicleta a maior parte do dia. Foi um dos seus recordes de pedalada. Depois do trabalho, três vezes por semana, sempre andava de bike. Neste dia atingiu a marca de 200 km!! Saiu pela zona rural do município, pegou a estadual e retornou por uma estrada de interior mais tranquila. Estava radiante. Havia realizado uma grande meta. Chegou a dizer que poderia morrer naquele dia. Já havia realizado muito mesmo. Teve a oportunidade de com pouca idade viajar os quatro cantos do mundo. Tinha um cargo no alto escalão de uma empresa, ganhava algo que o fazia ocupar os 5% do topo mais alto da pirâmide... o que não queria dizer grande coisa... residia em um país subdesenvolvido, com intensa desigualdade social. Não tinha interesse em ter namorada, mas as tais amigas, não lhe faltavam.

Rui, seu pai, era fechado. Tudo o que se sabia dele é que era descendente de irlandês e engenheiro civil. Tinha uma construtora. Veio ainda bebê para o país onde até hoje reside. Nem ele sabe o que houve com os seus pais. Fora adotado de um orfanato.

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Elisandra falava muito e sorria. Era muito bonita. Suas rugas ressaltam a sua expressão que nunca a abandonaram. Mesmo no primeiro casamento onde o seu ex a mandava calar a boca, dizia como num mantra que ela não era companheira e a diminuía sempre que realizava algo. Humilhou-a diversas vezes e a ridicularizava com frequência. Precisou de anos para se recompor internamente, mas o seu sorriso a mantinha viva. Em um determinado momento, a gaveta fora aberta e estava tudo ali: sua beleza, sua história, sua energia. Depois de mais algum tempo, junto da sua menopausa, ocorreu o segundo casamento. Teve a certeza de que o primeiro fora treino. O segundo fluía, na ótica do deixar o outro livre nas suas realizações, no encontro por vontade.

Marina era advogada trabalhista. Muito direta e objetiva. Não se casou. Teve a Priscila. Uma menina miúda, de três anos. Para ela, a mãe era uma querida. Rolava no chão, brincava de boneca e de professora. Para a menininha, estes eram momentos eternos. Ninguém precisava saber disso. A ginecologista da mãe havia dito que mulheres que não tinham como objetivo de vida serem mães, eram as melhores. Ela não precisava de holofotes, muito menos de flores nos dias das mulheres e das mães. Ser mãe da Priscila lhe bastava. Era filha da Elisandra.

Priscila estava no seu quartinho amarelo, sua cor preferida. Dormia.

Os que estavam na mesa jantando, conversavam. Era um dia normal. O último dia de suas vidas. Não sabiam que estavam se despedindo de uma forma bela.

Não tiveram a oportunidade de saber se as demais pessoas da vizinhança tiveram a mesma sorte.

As lavas eram rocha derretida, fluida, que se esparramavam por todos os locais. Líquido magmático e viscoso. Que transitava de forma incandescente, tão lenta quanto rápida.

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Era tão cansativo para aquele fluido assistir a vulnerabilidade. O quão efêmero era aquilo que estava soterrando. Novamente, entrou em erupção e não pediu licença. Desta vez, não deu sinais de que estava acordado. Não deu tempo da cidade se preparar.

Disseram em outros lugares, distantes dali que era consequência das mudanças climáticas.

O vulcão sabia que iria ficar inativo por mais 200 anos.

Antes desta vez, ninguém falou nada. Não houve culpa ou culpados.

Por onde passou, o terreno ficou inerte por décadas. As intempéries ambientais, com o tempo, exerceram a sua função. Desgastaram aquele fluido que se tornou sólido. A fauna dali caminhava sobre aquele platô e deixavam as suas fezes e pegadas. Briófitas e esfagnos tomaram conta. Os fungos conectados no undergound geravam a net energética por onde aquilo tudo se conectava.

O ciclo continuou. Os elementos químicos foram sendo liberados e outras plantas passaram a recompor aquele ambiente.

Este trecho do Planeta retornou ao princípio. Aonde nada era possuído, não tinha uma denominação ou nomenclatura e limite. A vida era assim mesmo.

 

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