*Mhario Lincoln
Abri uma foto no Facebook e me surpreendi com o que via naquele exato momento. Algo realmente fora do contexto. A imagem é a de Sísifo. Só que ao invés da tradicional pedra, vê-se um coração. Ora, a partir daí a mente explode em busca de respostas (não de interpretação da obra em si, porque essa já é diferente e torna-se ainda mais bela).
Então, como sempre procuro analisar meus delírios trazendo a filosofia para meu lado, posso imaginar, de chofre, que troca da pedra pelo coração desloca o mito de Sísifo do campo da punição física para o campo da existência afetiva. No mito grego, Sísifo é condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima; sempre que se aproxima do topo, a pedra volta a rolar.
Contudo, quando a pedra vira coração, o fardo deixa de ser apenas o peso absurdo da vida e passa a ser o peso daquilo que nos constitui por dentro: amor, memória, culpa, desejo, perda, apego, saudade. A pedra é exterior ao homem. O coração é íntimo. A pedra pode ser vista como castigo imposto pelos deuses. O coração sugere um castigo aceito pela alma, porque ninguém abandona facilmente aquilo que ainda pulsa.
Por isso, ao analisar essa obra (aparentemente simples), dessa valorosa artista nascida em Hamburgo/Alemanha, mas cidadã de Curitiba (PR) por opção, vejo uma Elisabeth Sekulic, como alguém que fez o mito ganhar uma ‘ferida’ nova. Sísifo já não empurra o castigo imposto pelos deuses. Empurra aquilo que ama. Empurra o que o mantém de pé. A pedra antiga era fria, mineral, muda. Este coração tem calor, textura, sangue imaginado e memória.
Imediatamente lembrei de Albert Camus e fui lá em seu livro O Mito de Sísifo beber na fonte. Ele diz: “a luta para alcançar o cume basta para encher o coração do homem”. A frase ganha outro sentido quando o coração é o próprio fardo. Aqui, o homem não sobe para vencer. Sobe para continuar amando. Sobe para não abandonar no chão aquilo que ainda pulsa. Sobe porque há sentimentos que, mesmo quando nos esmagam, continuam sendo a nossa forma mais profunda de permanecer vivos.
Uma imagem linda, cuja poesia ajuda a decifrar a imagem: a ladeira é íntima. O suor se mistura ao barro do coração. O herói não busca glória. O herói não busca absolvição. O herói apenas segue. O movimento cria sentido. O sentido cria permanência. O coração empurrado molda o corpo que o empurra. Quem ama também é esculpido pelo peso do que ama. (Simples, assim?).
Dessa forma – e por outro ângulo – posso afirmar que o coração tenta escapar. Mas o herói o segurar, mas não o aprisiona. Então, o ciclo se repete no caso da pedra. Mas no caso do coração, o ciclo se renova porque o amor se revela como tarefa, pois é insistência.
Platão escreveu no Banquete que cada um busca a sua metade. Aqui, a metade pesa. A metade exige. A metade não se separa. Amar, nesta imagem, não é repouso. É subida. É corpo em tensão. É a decisão de continuar empurrando aquilo que poderia ter sido abandonado. Porque o amor, mesmo com percalços e incompreensões, nunca poderá ser abandonado!
Desta forma Sekulic, continua, segue, sente e empurra. Se existem corações-pedra, esse, em sua abordagem artística, não o é!
Parabéns,
*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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