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Brasil Ruy Palhano

Ruy Palhano traz nova crônica sobre “A Dissolução dos Vínculos Sociais”. Vale refletir

“A maior pobreza do mundo moderno é a ausência de vínculos.” (Zygmunt Bauman)

19/06/2026 11h04 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Ruy Palhano (autor)
Arte: mhl/GinaiFT
Arte: mhl/GinaiFT

Ruy Palhano, médico psiquiatra, convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

A frase icônica acima de Zygmunt Bauman, revela uma crítica profunda à sociedade contemporânea, marcada pela fragilidade das relações humanas. Para Bauman, vivemos em uma era de “modernidade líquida”, na qual os laços sociais, afetivos, familiares e comunitários tornaram-se instáveis, descartáveis e superficiais.

Diferentemente da pobreza material, visível e quantificável, essa “pobreza relacional” corrói silenciosamente a saúde emocional, o senso de pertencimento e o significado da vida. A ausência de vínculos gera isolamento, solidão e indiferença, enfraquecendo o tecido social e promovendo uma cultura do individualismo e da desconexão.

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Assim, Bauman aponta que a verdadeira miséria da modernidade não está apenas na escassez de recursos, mas na escassez de relações autênticas e duradouras. Na realidade o trabalho deste filósofo e pensador da vida moderna, mostra que vivemos um tempo em que as relações humanas estão se tornando cada vez mais rarefeitas, instáveis e utilitárias. Os vínculos, outrora estruturantes da experiência de ser-no-mundo, parecem se diluir sob o peso da lógica do desempenho, da velocidade e da individualização extremada.

A sociedade moderna, ao mesmo tempo em que ampliou a liberdade individual, desfez muitos dos laços que sustentavam a existência em sua dimensão coletiva e afetiva. O resultado é uma geração de sujeitos cada vez mais autônomos formalmente, mas profundamente solitários, desamparados e desconectados em sua interioridade.

A dissolução dos vínculos sociais é um dos sintomas mais claros da crise civilizatória contemporânea. Em nome da liberdade, cortamos os laços com a tradição, com a comunidade, com a família extensa, com o território, com o corpo coletivo. Em nome da autonomia, substituímos o pertencimento por contratos efêmeros, e a solidariedade por trocas estratégicas.

Os laços foram convertidos em conexões, e as relações, em redes. Mas conexões não geram, necessariamente, vínculos: a conectividade pode até nos colocar em contato, mas não nos compromete, não nos envolve, não nos responsabiliza e é justamente este padrão de relacionamento que está predominando na modernidadde.

A emergência daquilo que Bauman chamou de “modernidade líquida” está na raiz dessa transformação. O mundo líquido é aquele em que nada permanece fixo: os empregos são temporários, os amores são passageiros, os compromissos são frágeis, os afetos são negociáveis.

A própria identidade se torna fluida, mutável, instável e confusa. O sujeito contemporâneo passa a evitar tudo aquilo que implique durabilidade, continuidade ou obrigação. Assim, os vínculos passam a ser vistos como ameaças à liberdade pessoal, como obstáculos ao desejo de autoconstrução constante.

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Nesse contexto, o outro deixa de ser um “tu” e passa a ser um “isso”: um objeto de uso, de gozo, de conveniência. A alteridade, esse núcleo ético da vida em sociedade, cede lugar à lógica do descarte. Quando o outro deixa de satisfazer, é simplesmente substituído. Relações amorosas são encerradas por mensagens curtas, amizades são desfeitas por algoritmos, famílias se desagregam em meio ao ruído da indiferença. O afeto torna-se uma mercadoria emocional, sujeita à lógica da oferta e da demanda.

Essa cultura da desvinculação gera consequências psíquicas devastadoras. O ser humano é, por constituição, um ser vincular: necessita do outro para se reconhecer, para construir sua narrativa, para se proteger da angústia ontológica. Quando os vínculos se desfazem, o sujeito fica à deriva, exposto a um sentimento de desamparo que frequentemente se converte em sintomas: depressão, ansiedade, pânico, fobias sociais.

Muitos transtornos que hoje são tratados apenas como disfunções neurológicas ou desequilíbrios químicos são, na verdade, expressões subjetivas de uma orfandade relacional. A própria linguagem da contemporaneidade revela essa crise dos vínculos. Fala-se em “criar conexões”, “expandir redes”, “aumentar alcance”, mas raramente se fala em comunhão, em fidelidade, em presença. O vocabulário das relações foi colonizado pela linguagem do mercado.

A amizade é mensurada por curtidas. O amor, por compatibilidades de perfil. A empatia, por engajamento. As redes sociais, que prometiam reconectar o mundo, revelaram-se, em muitos aspectos, mecanismos de vigilância mútua, comparação narcisista e isolamento camuflado.

Não se trata aqui de defender um retorno nostálgico a formas tradicionais de vida coletiva, como se a comunidade do passado fosse isenta de conflitos, opressões e exclusões. Mas sim de afirmar que a ausência de vínculos está nos adoecendo. E que nenhuma liberdade vale a pena se for conquistada à custa da solidão, do abandono, da perda do sentido de pertencimento. A liberdade que isola é uma caricatura de si mesma.

A dissolução dos vínculos sociais também tem um componente político. Uma sociedade fragmentada, composta por indivíduos isolados, é uma sociedade mais fácil de controlar, de manipular e de reduzir à passividade. 
O neoliberalismo, como racionalidade política, econômica e subjetiva, incentiva esse isolamento ao promover a ideia de que todos são empresários de si mesmos, responsáveis por seus fracassos e sucessos, culpados por sua infelicidade. Desse modo, a crise dos vínculos é também uma crise da cidadania, da solidariedade e da ação coletiva.

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Reverter esse processo exige mais do que boas intenções. É preciso resgatar o valor do cuidado, da escuta, da presença real. É preciso reconstruir espaços comunitários, reinventar formas de convivência, criar redes de apoio que não sejam apenas funcionais, mas verdadeiramente humanas. 

 

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