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Koshala Literature Festival e cidades criativas reposicionam o papel dos festivais no Sul Global
Em Lucknow, na Índia, começou ontem o Koshala Literature Festival, que ocupa o parque UP Darshan até 30 de novembro. O encontro celebra literatura, música, artes visuais e a cultura local em quatro dias de debates, performances e jantares temáticos. A edição de 2025 ganha peso adicional por acontecer logo após o reconhecimento da cidade como “Creative City of Gastronomy” pela Unesco; o tema do festival explora justamente o diálogo entre cozinha, poesia e memória urbana, com destaque para o recém-criado Prêmio Sahir Ludhianvi de Poesia.
O Koshala se soma a outros eventos literários indianos com forte vocação internacional, como o Kerala Literature Festival, que em janeiro de 2026 deve reunir cerca de 400 vozes globais na praia de Kozhikode, primeira Cidade Criativa da Literatura do país, e o Nalanda Literature Festival, pensado como retomada simbólica de uma das mais antigas universidades do mundo.
Esse modelo de festival — multidisciplinar, ancorado em marcas territoriais da Unesco e aberto a diálogos entre tradição e cultura pop — aponta caminhos também para o Brasil. Capitais com títulos de Cidade Criativa, como Belém (gastronomia) e Salvador (música), podem articular eventos semelhantes, conectando literatura, artes e turismo em redes de troca com o Sul Global.
Museu do Ipiranga enfrenta o olhar de Debret com arte contemporânea
O Museu do Ipiranga inaugurou, em 25 de novembro, a exposição “Debret em questão – olhares contemporâneos”, que coloca lado a lado a iconografia do Brasil Império criada por Jean-Baptiste Debret e releituras, muitas vezes críticas, de 20 artistas contemporâneos. Obras inéditas de nomes como Rosana Paulino e Jaime Lauriano discutem as marcas de escravidão, violência e hierarquias raciais presentes no imaginário construído pelo pintor francês, tão repetido em livros escolares e narrativas oficiais.
A mostra, em cartaz até maio de 2026, nasce do desdobramento do livro “Rever Debret”, do pesquisador Jacques Leenhardt, que assina a curadoria ao lado de Gabriela Longman. Em vez de celebrar o olhar europeu sobre o Brasil, a exposição convida o público a estranhar essas imagens e confrontá-las com produções que partem de experiências negras, indígenas e periféricas, usando também recursos de criação digital. O resultado é um percurso que transforma o velho repertório escolar em campo de disputa: o que queremos continuar vendo, o que precisa ser relido, o que deve ser reescrito pela arte de hoje.
Prettos relançam o samba em noite de memória e futuro na Casa Natura
No dia 22 de novembro, a Casa Natura Musical, em São Paulo, recebeu o show de lançamento do álbum “O Show Deve Continuar”, do duo Prettos, formado pelos irmãos Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira. A apresentação integrou a
programação do mês da Consciência Negra da casa, reforçando a escolha do samba como linguagem central para falar de fé, resistência e celebração em um momento em que discussões sobre racismo estrutural atravessam a indústria cultural. O repertório inédito marca um novo capítulo na trajetória do grupo, considerado hoje uma das referências do samba contemporâneo, com produção que dialoga com arranjos tradicionais, mas conta com recursos de estúdio e áudio pensados para palcos médios e grandes plataformas digitais. Numa cena dominada pela lógica do single, apostar em um álbum autoral de fôlego e cuidadosamente lançado em show temático indica uma estratégia: transformar o lançamento em evento, experiência e narrativa, e não apenas em atualização de catálogo.
Lucknow mistura literatura, música e gastronomia em festival sob selo da Unesco
Em encontro de quatro dias que ocupa o parque UP Darshan com uma programação que cruza literatura, música, debates e experiências gastronômicas. O evento acontece justamente após o reconhecimento de Lucknow como Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, e assume essa marca como eixo temático, celebrando tanto a tradição intelectual quanto a cozinha local.
Além de painéis com autores, pensadores e artistas, o festival apresenta concertos, performances e o recém-criado Prêmio Sahir Ludhianvi de Poesia, numa tentativa de aproximar a cena literária da cultura pop sem abrir mão de discussões sobre identidade, gênero, memória cinematográfica e a influência do mundo digital. Entre os destaques, há jantares “Daawat-e-Sukhan” que combinam leitura de poesia e menus especiais, reforçando uma tendência vista em eventos internacionais: festivais literários que se tornam plataformas de turismo cultural e experiência imersiva, mais próximos de um grande laboratório de cidade do que de uma feira de livros tradicional.
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Festival em Madureira e plataforma nacional conectam livro, favela e política de igualdade racial
Entre 20 e 23 de novembro, a Central Única das Favelas (Cufa), em Madureira, recebeu o 1º Festival Literário da Igualdade Racial (FLIIR), patrocinado pelo Ministério da Igualdade Racial, CNPq e MCTI. O evento homenageou Conceição Evaristo e as irmãs Nardal com mesas, oficinas, saraus e slam, reunindo autores, pesquisadores e artistas em torno da ideia de literatura como tecnologia ancestral de resistência.
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