
Eloy Melonio.
Nos caminhos da vida, palcos, personagens e cenas. Alguns não tão interessantes quanto gostaríamos que fossem. Outros, mais surpreendentes do que esperávamos. Entre falas e gestos, aplausos e vaias, a gente "vai levando essa vida", incitados pelos versos de Chico Buarque.
Nunca tive dificuldade para revelar minha idade ou minhas preferências. Sou Vasco e tenho uma morena chamada Ivelyse. Quanto às questões polêmicas, prefiro o silêncio às narrativas que ameaçam e desconstroem. Mas se inevitável o embate, visto-me de respeito e moderação. Minha reputação é o meu passaporte para ir e vir em situações de qualquer natureza. Se preciso passar por cima de um obstáculo, passo "sebo nas canelas" e me preparo para o salto. E é assim que vou e volto, rio e choro, caio e levanto, sem perder o equilíbrio. Ao contrário do “eu lírico” do poema “Ser poeta” (Dentro de mim, p. 64) que diz: “O poeta é um ser/ que não sabe/ Se o ser excede o parecer”.
De uma coisa posso me orgulhar: tenho aproveitado bem as estações da minha vida. Isso não significa que não tive “paradas obrigatórias” (choro, tristeza, decepção) que gostaria de ter evitado. Espero continuar com esse equilíbrio até o fim da linha. As coisas boas são marcas indeléveis; as más, registros que mofam nos cartórios da vida.
Todos nós passamos por desafios e dificuldades. Dependendo da nossa atitude, retrocedemos, estagnamos ou crescemos ante cada situação. São nesses momentos que uma força vem lá de dentro (ou “lá de cima”) para nos levantar. Isso me faz parafrasear Jesus, dizendo a nós mesmos: “Vai, e não vacila mais”.
Essa força não é apenas física. É espiritual, moral, social. Porque vem do recôndito do nosso ser. Em 26 de maio (2026), o Jornal Nacional (REDE GLOBO) mostrou um caso que comoveu a nação. Numa tentativa de feminicídio, a diarista Ana Claudia Rodrigues, 41 anos, foi jogada pelo ex-companheiro de um penhasco de 50 metros, na Serra do Rola-Moça, em Belo Horizonte (MG). E sobreviveu! E a lição dessa reviravolta foi que Ana Claudia, em nenhum momento, engoliu a ideia de que fosse morrer. Como se sua alma cantasse: “Andar com fé eu vou/ que a fé não costuma faiá” (“Andar com fé”, Gilberto Gil/1982), ela tinha certeza de que podia se agarrar a alguma coisa na parede do penhasco. Para sua sorte, havia um arbusto no meio do caminho. E por isso sobreviveu.
Cada um de nós tem seu “por isso” para justificar as decisões, a coragem e a ousadia — e até uma estratégica covardia. Na Bíblia, o que faltou a Pedro num instante de fraqueza ao negar às autoridades romanas que era um seguidor de Jesus, foi-lhe dado mais tarde em dose dupla. E ele se transformou num dos mais intrépidos pregadores do evangelho.
Seja com inteligência, força física ou apego espiritual, uma coisa é certa: nós temos esse ímpeto que nos levanta e nos impulsiona a seguir em frente. E que nos faz recusar o que não nos convém. Ninguém quer ficar sentado para ver o circo pega fogo. É da nossa natureza correr, gritar, espernear para se salvar, ou mesmo “agarrar-se a um arbusto" na parede de um penhasco para sobreviver.
Voltando às minhas primeiras palavras, compartilho dois momentos que, recentemente, me afetaram de certa maneira. Na fila da padaria, fui quase puxado pela gerente que tentava me convencer de que eu não precisava ficar ali, pois tinha prioridade no atendimento. Atendi à sua insistência, mas, sinceramente, preferiria continuar na fila, com apenas quatro pessoas à minha frente. Dois dias depois, minha nora nos informa que temos (eu e minha esposa) uma consulta com uma geriatra, especialidade que eu só conhecia de nome. Situações que mostram o que acontece conosco depois dos setenta anos.
Enquanto nos preparávamos para nossa atividade física, bem no comecinho de uma quarta-feira (3/6/2026), duas notícias: uma boa e uma trágica. A boa (no grupo da família) foi a nota “dez”, obtida na noite anterior, por meu neto Gabriel (23 anos) na apresentação de seu Trabalho de Conclusão de Curso (Direito/CEUMA). Na trágica (HORA UM/ REDE GLOBO), a morte de cinco estudantes num acidente em que uma van escolar bateu na traseira de uma carreta, na GO-815. As vítimas: dois meninos de catorze anos, duas meninas de doze anos e uma menina de onze anos.
Se o caminho tem pedras, curvas, acidentes — ou mesmo paradas obrigatórias — isso não é motivo para nos determos ou nos assustarmos. Continuar é sempre o caminho. Nesta semana vamos fazer os exames laboratoriais para retornar ao consultório da geriatra que, até pouco tempo, — parafraseando Zeca Pagodinho — “Nunca tinha visto (...)/ Eu só ouvia falar” (“Caviar”/2020). E mais: a geriatra entrou para um clubinho já formado por cardiologista, urologista, oftalmologista...
E, aqui, uma decisão pessoal: na padaria, fico na fila tradicional mesmo se for puxado para o atendimento prioritário.
Desta crônica, chegamos ao fim. Não sem antes apreciar a última estrofe do soneto “A Carolina”, de Machado de Assis (“Relíquias de Casa Velha”/1906): “Que eu, se tenho nos olhos malferidos/ Pensamentos de vida formulados,/ São pensamentos idos e vividos”.
(Eloy Melonio I maio 2026)
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