Socorro Guterres, da Academia Poética Brasileira. Vice-presidente regional da APB-RGN.
Há algum tempo tive um encontro com Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Isso se deu no "La Biela", tradicional café de Buenos Aires, localizado na Recoleta, exatamente na mesa 20, na qual esses dois escritores, ícones da literatura latino-americana marcam presença. Imaginem a minha emoção! Nossa conversa foi, claro, sobre livros e o universo infinito que cabe nas bibliotecas. Os mestres estão sempre sentados em uma mesinha no início do amplo salão de janelas envidraçadas. Muitas pessoas circulam nesse ambiente, mas eu soube aproveitar meu momento junto a Borges e Casares.
Entre cafés, medialunas e meu deslumbramento, abordei primeiramente o volume Ficções , de Borges, não desmerecendo seu grande amigo, contemporâneo e conterrâneo Casares, mas apenas iniciando pela minha leitura mais atual. Um espelho obliquamente à mesa mostrava essa cena tão idealizada. Falei sobre o título, Ficções , em que já se subentende que tudo é pura invenção (assim como esta prosa). Disse que dentre os 16 contos, alguns foram mais difíceis para desvendar-lhes os segredos labirínticos, já que não se tem uma reprodução fiel do mundo; desse modo prolonguei a leitura, mas sempre retornava ao livro, expliquei. Nesses relatos Borges não nos transmite apenas o conteúdo, mas enfatiza a forma pela qual o autor retém a atenção do leitor. Contei então das minhas predilecões ficcionais borgianas, nas quais está toda a noção moderna da arte: "A biblioteca de Babel", "O Fim", e "O Sul" (este último compartilho o gosto de Borges que o credita como seu melhor conto).
Observei que muitas pessoas acercavam-se dos literatos e explanei sucintamente para elas sobre essas narrativas: em "A biblioteca de Babel", o autor imagina um Universo sob a forma de uma vasta biblioteca, cujos livros têm formato específico e número fixo de caracteres. Já em "O Fim", conto breve de quatro páginas, há o diálogo com o célebre poema argentino Martin Fierro , como uma continuação brilhante e um desfecho literário. Na verdade, Borges vai além do fim do poema de Martin Fierro . "Seria um duelo com Martin Fierro?", indaguei. "O Sul" é um conto muito bonito que mistura realidade e fantasia ao acompanhar um bibliotecário argentino dividido entre sua herança germânica e o sangue de seus antepassados crioulos. "Seria uma idealização do autor?", questionei.
Nesse ínterim Casares se pronunciou sobre Borges. Declarou que apesar da fisionomia fechada e distante ele era alegre e bastante humano, e desse modo estabeleceram uma parceria literária por muitos anos. Aproveitei para perguntar a Borges sobre A invenção de Morel , romance metafísico de Casares, que inclusive é citado como inspiração para a série "Lost". Borges, sempre mais contido, confirmou o que colocou no prólogo desse livro de Casares: uma obra perfeita. Mais admiradores acercavam-se dos autores e eu tive que ceder o privilégio de partilhar a mesa 20. Despedi-me ao cair da noite na cidade portuária com a certeza de que deixava ali os amigos que descentralizaram e reinventaram o cânone literário ocidental. Notas do tango nuevo de Astor Piazzolla ao som plangente de um bandoneón bailam, vibrantes e melancólicas, nestas memórias portenhas.
Colunistas FT “Paisagens”, mais um texto de Socorro Guterres, da APB-RGN.
SOCORRO GUTERRES “Versos Lendários”. Poema épico de Socorro Guterres.
Textos escolhidos Um texto que vale destaque: “O Apóstolo do Brasil”, por Socorro Guterres
Colunistas FT Texto exclusivo de Socorro Guterres: “Entre lendas e casarões”
Colunistas De Socorro Guterres, “Áurea Variação”.
Colunista Convidada Texto de estreia da colunista Socorro Guterres: "FRAGMENTO DE GUERRA"
Mín. 7° Máx. 16°
Mín. 9° Máx. 19°
Chuvas esparsasMín. 10° Máx. 13°
Chuva
Colunista Socorro Guterres “Prosa Portenha” Socorro Guterres, em resenhas de última viagem
Renata Barcellos “A cidade de São Luís é um Celeiro Cultural”, texto de Renata Barcellos
Coluna de RUY PALHANO A felicidade em uma sociedade de solitários
Textos de Mhario Lincoln Livro do desembargador-poeta Lourival Serejo: uma lírica sobre o 'tempo' de Santo Agostinho