Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
COPA DO MUNDO
Brasil e Japão não jogaram apenas uma partida de Copa do Mundo. Durante mais de cem minutos, o campo virou território de cálculo, avanço, contenção e espera. A bola deixou de ser objeto de disputa simples. Passou a ser mensageira de duas escolas de combate. De um lado, Carlo Ancelotti, italiano no comando do Brasil, parecia carregar a frieza romana de Júlio César. Do outro, Hajime Moriyasu conduzia o Japão sob a sombra mental de Miyamoto Musashi. A vitória brasileira por 2 a 1 nasceu dessa colisão: Roma contra o Japão feudal, legião contra espada, cerco contra ritmo. Claro que é uma análise literária do embate. Mas no campo, mesmo, o que se viu foi a ginga, a dança a alegria, a superação dos soldados brasileiros. Só a seleção canarinha tem isso. Cada jogador verde-amarelo fez sua parte. Por isso, valem aplausos.
Mas, por outro lado, numa análise mais literária, por que comparar esses dois livros? Porque "A Guerra da Gália", de Júlio César, forma um dos textos centrais da literatura militar romana. César narra suas campanhas na Gália em terceira pessoa, como se observasse a si mesmo de fora. Essa distância é parte da força do livro. O general não se apresenta como homem tomado por emoção. Ele organiza o território, lê as tribos, mede rios, pontes, montanhas, alianças, traições e marchas. A guerra, para César, não é impulso. É método. A vitória nasce da disciplina, da posição, do controle das linhas e da capacidade de transformar pressão em domínio.
Já "O Livro dos Cinco Anéis", de Miyamoto Musashi, pertence a outra tradição. Escrito por um espadachim que fez da luta uma filosofia, o livro organiza a estratégia em cinco planos: Terra, Água, Fogo, Vento e Vazio. Musashi ensina a vencer pelo ritmo, pela percepção do intervalo, pela leitura do adversário e pela ocupação do instante certo. Sua guerra não depende da massa. Depende do corte. O combate é decidido no ponto em que o adversário revela uma fresta. A espada entra onde a armadura respira.
O Japão começou o jogo como Musashi ensinaria. Fechou espaços, esperou o erro, cortou a circulação brasileira e encontrou o golpe no momento exato. A interceptação que gerou o gol japonês foi movimento de lâmina: rápida, vertical, sem enfeite. O Brasil sentiu o corte. A seleção japonesa não precisava dominar todo o campo. Bastava dominar o instante. Naquele momento, Moriyasu fez o jogo respirar como duelo de espada.
A resposta brasileira veio pela lógica romana. Ancelotti não desmontou a tropa no primeiro sinal de ferida. Manteve a linha, sustentou o cerco, aumentou a pressão e obrigou o Japão a defender cada palmo. O empate de Casemiro, em bola aérea, teve cheiro de legião: avanço pelo flanco, cruzamento, presença na área, choque físico e ocupação do espaço. Ali, César começou a vencer Musashi. O Brasil deixou de perseguir o golpe perfeito e passou a construir território.
O momento decisivo veio nos acréscimos. O Japão já não tinha o mesmo pulmão para sustentar o vazio, o ritmo e a fuga. A estratégia japonesa vive do tempo certo. Quando esse tempo se alonga, o corpo cobra. Ancelotti percebeu essa erosão. Martinelli entrou como peça de deslocamento, apareceu entre linhas e recebeu o passe que abriu a última porta. O gol não foi apenas finalização. Foi consequência de cerco. Roma venceu quando fez o adversário lutar tempo demais dentro da própria defesa.
A força de César superou Musashi quando o Brasil transformou paciência em domínio. O Japão tinha o instante. O Brasil tomou a duração. Musashi cortou primeiro. César cercou depois. A partida mostrou que há jogos vencidos pela inspiração e há jogos vencidos pela permanência. Em Houston, o Brasil venceu porque aceitou sangrar sem perder a ordem. A seleção japonesa mostrou técnica, leitura e silêncio. A brasileira respondeu com comando, ocupação e espera.
No fim, o placar de 2 a 1 guardou mais que uma classificação. Guardou uma cena de biblioteca e gramado. César, com suas legiões, ensinou que a guerra se vence quando o território obedece ao plano. Musashi, com sua espada, lembrou que um segundo pode rasgar uma defesa. O Brasil venceu porque resistiu ao corte e impôs o cerco. Foi ali, entre o empate de Casemiro e o golpe final de Martinelli, que a estratégia romana se levantou sobre o tabuleiro japonês.
INTERNACIONAIS Livrarias japonesas viram destino cultural e apontam nova rota para o mercado do livro
11 de SETEMBRO Além da tragédia de 11 de setembro de 2001, nos EUA: dois livros brigam por credibilidade, 25 anos depois
LEIÇÕES ACADÊMICAS Brasil e França vão eleger novos imortais no mesmo dia: sucessões de Zuenir Ventura e Vargas Llosa movimentam academias
Especiais Especial: “(...) a artista Susana Pinheiro me ensinou a compreender uma tela”, de Mhario Lincoln
PREMIO NOBEL/26 Anne Carson é a 19ª mulher a conquistar o Nobel de Literatura em 125 anos de história do prêmio
Direto dos EUA FÁTIMA MELO: “De volta, agora com 22 anos nos States e 72 nas costas” Mín. 15° Máx. 21°
Mín. 14° Máx. 19°
ChuvaMín. 9° Máx. 20°
Tempo limpo
Colunista Socorro Guterres COMO UM CÃO: O ABSURDO JURÍDICO EM O PROCESSO
Coluna de RUY PALHANO Dr. RUY PALHANO em texto que fala profundamente sobre a “perda do sentido e o vazio exsistencial”
Academias Brasil/Exterior Coirmãs João Ewerton celebra 50 anos de pintura e revela, em sete fases, as raízes culturais do Maranhão
Coronel Carlos Furtado De Carlos Furtado:“A DIFÍCIL ARTE DE SER POETA”