Editorial:
Mhario Lincoln (editor-sênior).
Fomos colegas de trabalho, companheiros em outras jornadas, parceiros de algumas mesas de bar. Convivi com Cunha Santos em circunstâncias comuns e incomuns. Dessas que a vida distribui sem qualquer anúncio. E nunca o admirei tanto quanto passei a admirá-lo quando entrei na órbita de sua obra lírica. Ali encontrei outro homem. Um poeta atravessado por perguntas, indignações, amores, rupturas e uma permanente necessidade de dizer.
Cunha pertence, para mim, à linhagem dos poetas que não escreveram apenas versos: fizeram da própria existência uma matéria literária. Há nele algo da inquietação de Baudelaire, da carne ferida de Augusto dos Anjos, da urgência de Rimbaud, do risco verbal de Paulo Leminski, da combustão interior de Nauro Machado, do sugestionismo de Mallarmé, da exposição emocional de Sylvia Plath, Ana Cristina César, Marceline Desbordes-Valmore - a única mulher efetivamente incluída na lista dos "poetas malditos". Cunha pertencia também a mesma solidão amorosa de Florbela Espanca. Mesmo com multiversos/universos, permaneceu Cunha Santos: copo, rua, desejo, desobediência e palavra.
As paixões nele nunca tiveram a temperatura comum dos homens. Não precisavam de lua, céu estrelado ou sol para existir. Vinham de regiões mais profundas. Tenho a impressão de que atravessavam sua poesia como rios de lava, passando pelo inferno e pelo purgatório antes de alcançar o papel. Raras vezes encontravam saída.
Quando escapavam, pareciam procurar aqueles hipotéticos túneis do espaço-tempo imaginados pela física de John Archibald Wheeler, os famosos buracos de minhoca capazes de ligar pontos distantes do universo. Talvez Cunha também procurasse seus próprios atalhos para sair de dentro de si. Não os encontrou por inteiro. Transformou essa impossibilidade em poesia.
Muitas vezes me perguntei quem habitava aquele homem. Havia nele algum eco de Edgar Allan Poe ou algum parentesco espiritual com esses autores citados no parágrafo anterior, que contemplaram a existência pelo lado em que a luz quase não chega. Depois compreendi que a pergunta era menor que o poeta. Isso ficou bem claro na entrevista última que fiz com ele, mais abaixo. Porque, Cunha não precisava ser reencarnação de ninguém. Ele construíra o próprio território. Quando escreveu “eu preciso desenhar a poesia / eu preciso desenhar meu grito”, deixou uma espécie de documento de identidade poética. Sua escrita vinha dessa necessidade física de registrar o grito antes que o silêncio o consumisse. A caneta aparecia como extensão de uma consciência incapaz de permanecer quieta diante do amor, da injustiça, da solidão, daquilo que lhe doía e daquilo que feria os outros.
Por tudo isso, sempre encontrei em sua obra um ponto de contato com o empirismo de John Locke; perdoem-me os que não veem assim. Lá no fundo, a experiência externa e as sensações internas sempre pareceram alimentar continuamente sua linguagem. A reflexão não surgia como repouso. Surgia como confronto. Sua poesia conversava com aquilo que o atingia, num fluxo quase permanente de interlocução com o mundo. Em Quarto de Hospício, essa característica aparece em estado bruto: “Um cinzeiro, duas camas, uma de acompanhante, / um chuveiro bêbado, um envelope de arsênico...” até chegar à imagem devastadora de “um Deus que está zangado / porque esqueci no vaso o resto da minha vida”.
“(...)Um cinzeiro, duas camas, uma de acompanhante,
dois rolos grossos, um de papel higiênico,
cascas de frutas e uma moça estonteante,
(...) Um velho cesto de lixo, sacos de leite estragado,
uma descarga, um baton e um Deus que está zangado
porque esqueci no vaso o resto da minha vida".
Poucos versos conseguem transformar objetos banais em inventário da condição humana com tamanha força. O quarto deixa de ser quarto. Torna-se corpo. O lixo deixa de ser lixo. Torna-se memória. E o resto da vida cabe, tragicamente, dentro de um vaso.
Como definir, então, um homem cuja existência parece ter sido feita da construção e da queda contínua de seus próprios muros? Eu o vejo - vita manifesta - caminhando entre sinos das sete da manhã e gritos de insurretos; entre a missa da meia-noite e o vinho derramado na sacristia de uma alma muitas vezes ferida pela solidão.
Vejo um homem que enfrentou seus próprios precipícios e continuou procurando alguma saída. E é aí que encontro uma das dimensões que mais me tocam em Cunha Santos: ele nunca desistiu completamente da possibilidade de mudar, de alcançar alguma coisa que talvez nem soubesse nomear.
Os latinos escreveriam vellem me esse — “eu gostaria de ser”. Em Cunha, esse desejo não era abstração. Era movimento. Era conflito. Era vida tentando caber dentro da poesia.
Hoje escrevo sobre ele como amigo, jornalista e leitor voraz. E talvez seja esta última condição a que mais pesa. Porque um poeta dessa natureza não termina quando morre. Ele permanece nas frases que incomodam, nos versos que voltam sem serem chamados, nas imagens que continuam respirando quando o autor já não está; como meu amigo Alex Brasil (AML) me ensinou:” Imortal é a obra, não o Homem”.
Destarte, Cunha Santos deixou esse tipo de presença. A última entrevista que me concedeu, para a TV Facetubes, aconteceu numa tarde comum, em um shopping comum, num desses momentos que só depois compreendemos como definitivos.
Ali estavam sua voz, sua sinceridade, sua história e a consciência de quem havia vivido muito dentro de si mesmo. O poeta morreu em 19 de outubro de 2021. Hoje, ao rever aquela conversa, percebo que não gravei apenas uma entrevista. Gravei um homem ainda diante da própria palavra. E é assim que prefiro guardá-lo. Descanse em paz, caro amigo. A poesia ficou.
Seu amigo, fã e leitor voraz,
Mhario Lincoln
VIDEO-BÔNUS
Nesta entrevista, Cunha Santos se deixa ver para além do poeta: fala do “esse não sei quê” que aflige quem escreve, expõe conflitos que carregou consigo, revisita a própria existência e deixa transparecer a permanente tensão entre o homem e a palavra. Há momentos em que sua fala parece resumir uma vida inteira: a poesia como inquietação, a memória como ferida, a criação como necessidade e a própria existência como matéria de literatura. Foi essa voz — sem proteção, sem personagem, sem distância entre o vivido e o escrito — que o encontrei diante de mim. Hoje, ao rever estas imagens, tenho a sensação de que Cunha Santos não concedia apenas uma entrevista: deixava um último testemunho de si mesmo.
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