Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
Capitu chega ao leitor pelas lembranças do homem que se considera traído. Bento Santiago escolhe as cenas, recompõe os diálogos e atribui sentido aos gestos da mulher. No enterro de Escobar, acompanha as lágrimas dela e descreve seu olhar como expressão de uma intimidade suspeita. O leitor presencia uma cena narrada pelo marido, com a emoção da personagem já interpretada por ele. Nesse intervalo entre o acontecimento e sua versão, a suspeita encontra espaço para atravessar gerações.
A insitência sobre esse do debate pode ser compreendida a partir dessa construção. O romance aproxima o público de experiências reconhecíveis: o ciúme, o medo da substituição, a confiança no amigo, a necessidade de explicar uma ruptura. Cada leitura também envolve uma decisão sobre a credibilidade de Bento. A história da recepção de Dom Casmurro registra justamente esse deslocamento onde a atenção concentrada no possível adultério reage diante da voz escrita que o denuncia.
Diante disso, em quem realmente acreditar sobre esse episódio praticamente único por ser hiperconhecido? Existem opiniões a serem analisadas. Por exemplo, a linha favorável à hipótese da traição encontra em José Veríssimo, principal analista das obras de Machado de Assis. No caso de Dom Casmurro, ele aceita integralmente a versão do narrador Bento Santiago sobre a culpa de Capitu.
Em História da literatura brasileira, no capítulo dedicado a Machado, o crítico interpreta o olhar de Capitu para Escobar morto como revelação de um vínculo amoroso. Nessa leitura, a ausência de uma cena explícita de adultério corresponde à maneira de Machado insinuar o acontecimento. O trecho abaixo reproduz a passagem em que Veríssimo apresenta sua interpretação:
“Ela o enganara com o seu melhor amigo, também um velho amigo de infância, também um dissimulado, sem que ele jamais o percebesse ou desconfiasse. Somente o veio a descobrir quando lhe morre num desastre o amigo querido e deplorado.” O argumento ganha força quando os indícios são considerados em conjunto: o olhar no velório, a semelhança percebida entre Ezequiel e Escobar, a convicção retrospectiva do marido.
A leitura favorável à traição propõe que esses elementos compõem uma história que dispensa confissão. Seu ponto sensível está na origem das informações: a reunião dos indícios e o significado atribuído a eles dependem do relato de Bento.
A linha contrária à acusação ganhou desenvolvimento com Helen Caldwell, autora de O Otelo brasileiro de Machado de Assis, publicado originalmente em 1960. Sua correspondência com o escritor e editor Cecil Hemley documenta a discussão desde 1952. Em carta de 8 de outubro daquele ano, Hemley contestava a existência de fundamento objetivo para condenar Capitu. Um trecho central de seu argumento, reproduzido pelo pesquisador Hélio de Seixas Guimarães, registra:
“Não encontro na história nenhuma evidência objetiva que sustente essa alegação.” Para Hemley, o olhar e a semelhança constituíam evidências frágeis, atravessadas pelo ciúme do narrador. Caldwell concordou com essa leitura e desenvolveria sua defesa de Capitu mediante a aproximação com Otelo, de Shakespeare. O foco passava à possibilidade de um marido organizar a própria experiência sob o domínio da suspeita. Essa interpretação oferece uma explicação para o rompimento do casamento sem depender da ocorrência do adultério.
A força literária desse confronto aparece na própria fala concedida a Capitu. Ao ouvir que Ezequiel não seria filho de Bento, ela demonstra espanto e indignação. O marido reconhece a naturalidade dessas reações e mantém sua certeza. A cena permite acompanhar uma mulher atingida por uma acusação e, simultaneamente, a resistência do narrador a rever o que acredita. Até a defesa de Capitu chega ao público pelas palavras de quem a acusa.
Há, nessa estrutura, uma possível explicação para a atualidade do livro: o julgamento envolve também a maneira como se aceita uma versão dos fatos. A literatura brasileira conserva, nesse romance, um espaço para examinar a autoridade de quem fala, a experiência de quem escuta e o acesso limitado à pessoa julgada. Na última página, Bento ainda procura a adesão do leitor: “e tu concordarás comigo”. A frase permanece ali, à espera de uma concordância que cada nova leitura pode conceder, suspender ou recusar.
Fontes consultadas: Machado de Assis. Dom Casmurro: capítulos CXXIII, CXXXVIII e CXLVIII.. José Veríssimo. História da literatura brasileira, capítulo XIX — Machado de Assis.. Hélio de Seixas Guimarães. “Helen Caldwell, Cecil Hemley e os julgamentos de Dom Casmurro”. Machado de Assis em Linha, v. 12, n. 27, 2019, p. 113–141. Fonte da correspondência citada. Clara Magalhães do Vale. “A recepção de Dom Casmurro entre o ciúme e o adultério”. Mafuá, n. 37, 2022.
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