Editoria de Pesquisa e Extensão — Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Neste fim-de-semana tumultuado com eleições, preferi render homenagem ao incomensurável Carlos de Lima e fui complementar minha leitura do seu livro “Vida, Paixão e Morte da Cidade de Alcântara — Maranhão”. Confesso que ao lê-lo, longe do Maranhão, senti muitas saudades, haja vista a maneira pedagógica e mágica como de Lima descreve a verdadeira história de Alcântara (MA), onde, do Centro Espacial, na época de sua instalação, recebi medalha de "Amigo da Força Aérea Brasileira" das mãos do então comandante dessa força, na região. Participei ativamente - como colunista e repórter - do começo dessa instalação. Durante quase um ano dediquei parte de minhas informações a esse Centro Espacial que, na verdade, é o principal espaçoporto do Brasil, operado pela FAB, com Acordos Bilaterais com outros países. Durante esse período fui a grandiosa Festado Divino e de lá sai encantado com uma beleza (pouco explorada turisticamente), mas que se ampliada, poderia ser similar à festas culturais como em Parintins (AM), por exemplo.
Portanto, fiz questão de começar a reler o livro de Carlos de Lima a partir da página 259, quando ele relata, de forma brilhante, as festas de Alcântara (MA), especialmente, a Festa do Divino. Por essa razão posso afirmar com todas as letras que em “Vida, Paixão e Morte da Cidade de Alcântara — Maranhão”, há provas incontestes que de Lima acompanhou muitas das festas alcantarenses 'in loco', por exegese, não só por hermenêutica. Isto fica visível em seu escritar: o silêncio das ruas, o movimento das casas, o cheiro das cozinhas, os sinos das igrejas e a interações com os personagens. Seu trabalho ajuda a compreender uma cidade que guarda o período colonial e abriga uma das bases do programa espacial brasileiro.
Mas, por enquanto, fiquemos com a Festa do Divino. Pois bem! O que aprendi é que toda a festa começa muito antes de ir para as ruas porque há uma sequência lógica nisso: a escolha dos festeiros, a preparação das casas, o levantamento do mastro, o toque das caixas, os ensaios, as visitas, as mesas que recebem doces e licores, a organização dos cortejos e o compromisso assumido por famílias que passam meses preparando alguns dias de celebração.
Foi esse movimento que Carlos de Lima percebeu. Ele não ficou diante da festa. Entrou nela. (tanto que após incluir seus estudos no livro em apreço, ele fez uma outra e mais completa publicação acerca). Neste livro, há extraordinária descrição linguística junto a uma exímia pesquisa histórica. Tanto que quanto mais que lia “Vida, Paixão e Morte da Cidade de Alcântara — Maranhão”, mais aprendia sobre essa festa.
Carlos de Lima sabiamente fez de “um tudo”, como se falava em minha São Luís de antigamente. Acompanhou o calendário religioso da cidade e registrou festas, irmandades, procissões, missas, músicos, fogos, comidas, devoções e antigos costumes. E aí, quando chega ao Divino, amplia o campo de observação. Aparecem o imperador/imperatriz, os mordomos, as caixeiras, as visitas entre casas, a arrecadação de donativos, as refeições, os trajes, os doces, os licores e a participação de crianças, adultos e idosos. O que poderia permanecer como lembrança familiar passa ao papel como documento de uma sociedade.
A importância de Carlos de Lima está justamente aí. Ele compreendeu que a História também mora no gesto repetido, na receita preservada, na mulher que toca a caixa, no homem que carrega o mastro, na casa que abre a porta, na família que assume um posto, na criança vestida para representar a corte. Sérgio Ferretti registrou que Carlos Orlando Rodrigues de Lima integrou a Academia Maranhense de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e a Comissão Maranhense de Folclore. Ferretti contabilizou cerca de 38 trabalhos do autor publicados somente no boletim da Comissão e destacou seus estudos pioneiros sobre o Divino de Alcântara e o Bumba-meu-boi.
A bibliografia também ajuda a dimensionar a extensão dessa pesquisa e exige uma correção de cronologia. O estudo específico Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara (Maranhão) já circulava em primeira edição em 1972, pelo Departamento de Cultura do Estado do Maranhão. A segunda edição saiu em Brasília, em 1988, pela Fundação Nacional Pró-Memória/Grupo de Trabalho de Alcântara.
Assim, para dirimir dúvidas que eu também tive, “Vida, Paixão e Morte da Cidade de Alcântara — Maranhão” veio depois, em 1998, pelo Plano Editorial SECMA 97/98, com 478 páginas. O grande volume de 1998 recoloca o Divino dentro de uma narrativa mais extensa sobre a formação, os costumes e a vida cotidiana de Alcântara.
Esse dado esclarece a trajetória intelectual do autor. Carlos de Lima voltou ao tema, acumulou registros, confrontou memórias e tratou com cuidado versões transmitidas ao longo do tempo. Entre elas está a narrativa que relaciona o surgimento da festa em Alcântara a uma esperada visita de D. Pedro II.
O pesquisador registra essa memória e situa a devoção em um processo histórico anterior, ligado à tradição portuguesa do culto ao Espírito Santo e à sua presença no Brasil desde o período colonial. O procedimento revela uma regra básica de pesquisa: tradição oral deve ser preservada como tradição oral; mas fato histórico, esse, precisa de documentação.
O Divino que emerge dessas páginas também informa como Alcântara se organizava socialmente. A festa distribui funções. Alguém recebe. Alguém cozinha. Alguém toca. Alguém canta. Alguém conduz a bandeira. Alguém assume o Império. Alguém recolhe contribuições. Alguém guarda a receita. Alguém ensina o toque seguinte. A transmissão ocorre de pessoa para pessoa. Por isso a festa ultrapassa o ato religioso. Ela conserva formas de trabalho comunitário, relações familiares, alimentação, música, devoção, oralidade e memória.
Alcântara oferece a esse rito um espaço histórico reconhecido pelo Estado brasileiro. Situada na região da Baía de São Marcos, diante de São Luís, a cidade preserva um conjunto de arquitetura luso-brasileira formado a partir do período colonial. O Iphan tombou seu conjunto arquitetônico e urbanístico em 1948. A área protegida reúne aproximadamente 400 imóveis, segundo o instituto.
Igrejas, sobrados, ruínas, praças e ruas de pedra permanecem como parte física de uma história marcada pela economia agroexportadora, pela escravidão e pela presença das comunidades que permaneceram no território. No mesmo município em que o pelourinho permanece diante das ruínas da antiga Matriz, outro capítulo começou no século XX.
Em 1º de março de 1983, o Decreto nº 88.136 criou oficialmente o Centro de Lançamento de Alcântara, destinado a atividades de lançamento e rastreamento de engenhos aeroespaciais, testes e experimentos ligados ao programa brasileiro. Alcântara passou a reunir patrimônio colonial, comunidades tradicionais, cultura popular e infraestrutura espacial dentro do mesmo território. O próprio Iphan, em 2026, destacou essa convivência entre o conjunto histórico e o espaçoporto instalado no município.
A história espacial de Alcântara também registra uma perda que o país ainda carrega. Em 22 de agosto de 2003, durante a preparação da Operação São Luís, o terceiro protótipo do VLS-1 sofreu um grave acidente na plataforma. A ignição intempestiva de um dos motores levou à destruição do veículo, da torre e das cargas que seriam lançadas. Vinte e um técnicos e engenheiros morreram. Os satélites SATEC e UNOSAT também foram perdidos. O episódio interrompeu projetos, atingiu equipes com décadas de formação e entrou para a história triste do programa espacial brasileiro.
Mesmo com esses (e outros) tristes acontecimentos, nada disso afetou o Divino espirito santos, em sua gloriosa posição na vida de Alcântara. A estrutura do festejo continua apoiada em elementos reconhecíveis. A coroa e o cetro identificam o Império. O imperador/imperatriz ocupa o posto central daquele ciclo. Mordomos e mordomas assumem responsabilidades durante a programação. As caixeiras conduzem parte essencial da paisagem sonora, com caixas, cantos e repertórios transmitidos pela memória. A bandeira do Divino, ligada à representação do Espírito Santo, acompanha cerimônias e cortejos. O mastro anuncia publicamente a festa.
Ao invés de ainda ressoarem gritos de pavor das explosões no hangar do Centro Aeroespecial de Alcântara, o que se ouve ainda hoje são os sinos chamando para Missas, ladainhas, alvoradas, que conduzem visitas, procissões e cortejos que definem o percurso religioso. Mesas, almoços, doces e bebidas mantêm o costume de receber e repartir. A Secretaria de Cultura do Maranhão registra ainda a preparação da cidade ao longo do ano e a presença desses ritos nas ruas, becos, casas e igrejas.
As datas seguem o calendário de Pentecostes e as tradições de cada comunidade. Em 2026, Alcântara realizou seu ciclo principal entre 13 e 24 de maio. Não existe uma única data válida para todo o Maranhão. O projeto estadual Divino Maranhão já registrou participação de festeiros de 26 municípios: São Luís, Alcântara, Anajatuba, Aldeias Altas, Bequimão, Cantanhede, Caxias, Cajapió, Cajari, Cedral, Codó, Humberto de Campos, Icatu, Itapecuru-Mirim, Matinha, Miranda do Norte, Mirinzal, Paço do Lumiar, Palmeirândia, Penalva, Pinheiro, São Bento, Santa Helena, São José de Ribamar, Rosário e Viana. Registros posteriores da própria Secretaria de Cultura incluem também Bacabeira, Guimarães, Pindaré-Mirim e São João Batista.
Portanto, o calendário estadual já concentrou as celebrações de Alcântara e de casas tradicionais de São Luís no período de maio e Pentecostes, deixando outros festejos do interior distribuídos entre os meses seguintes, chegando em alguns casos a janeiro.
É nesse ponto que a pesquisa de Carlos de Lima mantém sua função. Ele não preservou apenas o nome de uma festa. Preservou a maneira como ela era feita. Registrou pessoas, funções, alimentos, crenças, sons, percursos e gestos. Décadas depois, quem procura entender por que Alcântara continua celebrando o Divino encontra em seu trabalho parte da resposta. A cidade mudou, recebeu uma base espacial, entrou na história da tecnologia brasileira e enfrentou a tragédia de 2003. Quando as caixas voltam a soar pelas ruas e o mastro torna a ser levantado, permanece em circulação a matéria que Carlos de Lima decidiu registrar.
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Principais fontes consultadas pela editoria de Pesquisa e Extensão, c/Mhario Lincoln - Carlos de Lima, Vida, Paixão e Morte da Cidade de Alcântara — Maranhão, Plano Editorial SECMA 97/98, 1998; páginas apresentadas para esta reportagem. Comissão Maranhense de Folclore/UFMA — perfil de Carlos de Lima por Sérgio Ferretti e registros bibliográficos sobre a Festa do Divino. Centro de Memória do Folclore. Carlos de Lima, Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara (Maranhão) — referências à edição de 1972 e à 2ª edição, Brasília, Fundação Nacional Pró-Memória, 1988. JP Turismo. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — tombamento, patrimônio de Alcântara e integração entre patrimônio cultural e atividade espacial. Serviços e Informações do Brasil. Senado Federal e Agência Espacial Brasileira — Decreto nº 88.136/1983 e registros do Centro de Lançamento de Alcântara e do acidente do VLS-1 V03. Senado Legislação. Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão — estrutura ritual, caixeiras, calendário e Projeto Divino Maranhão. Programação do Festejo do Divino de Alcântara em 2026, realizado de 13 a 24 de maio.
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