Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes.
A trova literária brasileira, estruturada em quadras de sete sílabas poéticas, tem nas mulheres grandes nomes. Destacam-se Lilinha Fernandes, Carolina Ramos, Vanda Fagundes Queiroz e Therezinha Diégues Brisolla, também fundamentais para o movimento da União Brasileira de Trovadores. Essa linhagem feminina confirma que a trova, embora breve na forma, nunca foi pequena em alcance. Ela exige ouvido, síntese, disciplina verbal e uma espécie de inteligência do coração: “dizer tudo antes que o excesso estrague o essencial”, repetia um dos grandes trovadores maranhenses, o poeta Eugênio de Freitas, premiado pela Accademia del Fiorino, de Prato-Firenze (Itália) e integrante de um das maiores internacionais do gênero: "Anthologie de la Lyre d'Or", de Nimes-França (1996-97).
É nesse território que se inscreve Oito Segundos, de Madalena Ferrante Pizzatto. O título nasce da própria natureza da trova: a arte de comprimir uma emoção, uma ideia, uma crítica ou uma memória em quatro versos. O livro reúne trovas classificadas em concursos, produzidas ao longo de vários anos, e apresenta uma autora consciente da tradição que abraça.
A autora merece elogios pela capacidade de transitar por vários gêneros líricos e por vários temas troveiros sem perder a sensibilidade poética. Em suas páginas aparecem a trova amorosa, a religiosa, a social, a memorialística, a ecológica, a infantil, a humorística, a cívica e a metapoética. Há versos sobre Deus, infância abandonada, saudade, natureza, justiça, pandemia, educação, agricultura, velhice, esperança e amor, fazendo da obra, uma espécie de mapa íntimo da autora.
O prefácio belo de Andrea Motta Paredes faz-se percebe bem esse movimento quando situa a autora dentro do universo trovadoresco e destaca a presença de temas como paz, liberdade, religião, saudade, política, economia e natureza. O posfácio de Luiza Fillus, por sua vez, reforça outro ponto decisivo: a trova é uma forma curta que se basta, como uma flor. Essa comparação ajuda a entender o livro. Cada trova de Madalena quer existir como unidade autônoma. Algumas florescem pela imagem. Outras, pelo pensamento. Outras, pela emoção direta. As melhores unem as três coisas.
Entre as muitas trovas do volume que são instigantes e emocionantes, duas se impõem pela força de síntese e pela densidade humana. A primeira está entre as mais completas do livro:
“Malabarista, a criança,
para mendigar o pão,
equilibra uma esperança,
com três bolinhas na mão.”
Aqui, Madalena alcança um ponto raro da trova social: a denúncia sem discurso. A criança não é apresentada como estatística, nem como ornamento sentimental. Ela aparece em ação. Faz malabarismo para sobreviver. O verso “equilibra uma esperança” é o centro filosófico da quadra. A esperança deixa de ser abstração e se torna objeto instável, lançado ao ar, sujeito à queda, dependente da habilidade de quem não deveria estar trabalhando, mendigando ou representando a própria miséria diante dos adultos. As “três bolinhas” condensam infância, fome e futuro incerto. A criança brinca, trabalha e pede socorro no mesmo gesto.
A segunda trova escolhida amplia essa crítica para o campo espiritual:
“De que vale uma oração,
se ao próximo nego amor,
e sem dividir o pão,
eu não vejo sua dor?”
Esta trova tem estrutura interrogativa e funciona como exame de consciência. A autora não ataca a fé; purifica a fé. A oração, isolada da compaixão, perde substância. O pão volta como símbolo material da ética. Não basta dizer amor, cantar amor ou rezar amor. É preciso dividi-lo em forma concreta. O verso “eu não vejo sua dor” desloca o problema para a cegueira moral. O pecado maior, aqui, não é apenas negar ajuda. É deixar de enxergar.
A leitura filosófica conduz a uma ética da presença. A dor do outro só existe moralmente quando é reconhecida. Sem reconhecimento, a oração corre o risco de se transformar em gesto vazio, palavra sem consequência, rito sem justiça. Madalena aproxima espiritualidade e responsabilidade social. A fé, em sua trova, não é fuga do mundo. É compromisso com o mundo. A pergunta final não encerra o poema: abre uma acusação íntima. O leitor termina a quadra diante de si mesmo.
O livro também tem momentos de lirismo amoroso, como nas trovas de saudade, segredo e solidão; momentos de devoção, quando Deus aparece como abrigo e horizonte; momentos de memória rural, marcados pela roça, pela palhoça, pelo trabalho do agricultor e pela lembrança familiar; e momentos de humor, especialmente nas peças de caveira e jogo do bicho. Essa pluralidade confirma uma autora que não se prende a um único tom. Madalena sabe cantar a ternura, observar a dor social, rir de pequenas situações e recolher, no cotidiano, imagens para a construção poética.
Oito Segundos é, portanto, um livro de permanência breve e efeito demorado. Lê-se uma trova em poucos instantes; algumas continuam ecoando muito depois. Madalena Ferrante Pizzatto mostra que a pequena forma pode carregar grandes assuntos. Sua poesia confirma que a sensibilidade, quando encontra disciplina, não se dissolve. Ganha medida, música e memória.
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