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A relação entre mediunidade, cérebro e experiência espiritual voltou ao centro do debate público a partir de um estudo brasileiro que investigou possíveis alterações genéticas em pessoas reconhecidas como médiuns por suas comunidades religiosas. A pesquisa, coordenada por pesquisadores ligados ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, analisou o material genético de 54 médiuns e comparou os resultados com amostras de parentes de primeiro grau que não apresentavam a mesma vivência mediúnica.
A partir desse ambiente, a reportagem levanta uma pergunta que acompanha a história da espiritualidade e da ciência: a mediunidade deve ser compreendida apenas como dom, expressão religiosa, experiência subjetiva ou também como fenômeno passível de investigação biológica?
Segundo os dados apresentados, os pesquisadores mapearam milhares de variantes genéticas presentes nos médiuns avaliados. Entre elas, 33 apareceram em pelo menos um terço dos participantes do grupo mediúnico e não foram encontradas nos parentes analisados. Parte desses genes está associada a funções do sistema imune e inflamatório. Um dos achados chamou atenção por sua relação com a glândula pineal, estrutura cerebral frequentemente citada em tradições filosóficas, espirituais e médicas quando se discute a ligação entre corpo, mente e consciência.
A pesquisa selecionou médiuns com mais de dez anos de atuação, sem remuneração pela prática, reconhecidos nos grupos em que atuam e ligados principalmente ao espiritismo e à umbanda. A escolha de parentes como grupo de comparação buscou reduzir diferenças sociais, culturais e genéticas que poderiam interferir nos resultados. Ainda assim, os próprios pesquisadores tratam os dados com prudência. O estudo não afirma ter encontrado uma “prova genética” da mediunidade, mas o que ficou claro foi a existeência dos chamados genes candidatos, que poderão orientar novas investigações sobre experiências espirituais recorrentes.
O interesse científico do trabalho está menos na tentativa de encerrar uma questão religiosa e mais na abertura de um campo de pesquisa. A mediunidade, nesse contexto, é definida como uma experiência em que a pessoa relata contato, influência ou comunicação com seres espirituais ou pessoas falecidas. Para os pesquisadores, vivências desse tipo aparecem em diferentes culturas, épocas e religiões, o que torna legítima sua observação acadêmica, especialmente nas áreas de saúde mental, neurociência, genética e estudos da consciência.
A reportagem também registra uma mudança de postura no diálogo entre ciência e espiritualidade. Durante muito tempo, fenômenos mediúnicos foram tratados apenas como crença, fraude ou sintoma. A literatura científica mais recente tem buscado separar experiências espirituais não patológicas de quadros clínicos que exigem diagnóstico e tratamento. Essa distinção não transforma religião em laboratório, nem laboratório em religião. Ela apenas reconhece que a experiência humana é ampla o suficiente para ser estudada sem preconceito e sem conclusões apressadas.
O estudo brasileiro ainda precisa ser replicado com amostras maiores, grupos diversos e controle metodológico rigoroso. Sua contribuição está em colocar a mediunidade dentro de uma pauta científica possível, com limites claros e perguntas abertas. Entre a fé dos centros espirituais e os dados da genética, surge um território de investigação que não elimina a dimensão religiosa, nem dispensa o método científico. O que se tem, por ora, é um começo: a tentativa de compreender por quais caminhos biológicos algumas pessoas relatam uma percepção espiritual mais frequente e mais intensa do que outras.
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