Editoria de Filosofia e Esportes da Plataforma Nacional do Facetubes.
Há jogos que começam antes do apito, quando o estádio ainda é silêncio e a bola repousa como um pequeno planeta à espera de comando, neste caso, como a bola é eletrônica, ela está solitária, sendo carregada na tomada em algum lugar do Estádio. Além do local da luta, tudo vira grande expectativa quando o assunto é o jogo Brasil e Japão pela Copa do Mundo de 2026, na fase 16 avos, isto é, perdeu, está fora da Copa. Vale entender: com o aumento para 48 seleções disputantes, 16 avos é uma rodada eliminatória inédita. Foi criada para comportar as 32 equipes classificadas na fase de grupos antes, de chegarem às tradicionais oitavas de final.
Mas, vejamos por um lado mais literário: hipoteticamente chegam ao mata-mata dois exércitos de escolas antigas: de um lado, Carlo Ancelotti, o italiano da sobrancelha grossa, que parece corrigir escalação antes mesmo do auxiliar abrir a prancheta; do outro, Hajime Moriyasu, o japonês da calma longa, capaz de transformar paciência em lâmina e intervalo em emboscada, como a exposição de números (aparentemente aleatórios), em sua pranchete do técnico: o 'pochi'.
Nesse contexto, a partida entre Brasil e Japão, marcada para segunda-feira, em Houston, por essa fase, traz uma camada rara de leitura. Não será apenas Vini Jr. contra uma linha defensiva. Não será apenas Neymar esperando minutos de precisão. Será um encontro entre bibliotecas táticas. Ancelotti chega com livros publicados, métodos descritos e uma carreira marcada pela arte de adaptar sistemas ao material humano. Moriyasu chega com a escola japonesa da disciplina, da repetição, da leitura do tempo e da troca de marcha no instante em que o adversário imagina ter entendido o jogo.
"Não se deixe abater pela chuva,
Não se deixe vencer pelo vento.
Suporte o peso da neve e do verão.
Tenha um corpo forte,
Sem cobiça sem jamais perder a serenidade".
(Do poeta japonês Kenji Miyazawa, que sintetiza a luta e a sobrevivência)
Por seu lado, Ancelotti tem livros publicados e já escreveu sobre liderança e futebol em obras como Quiet Leadership e My Christmas Tree. O segundo título remete diretamente à sua célebre “Árvore de Natal”, o 4-3-2-1 que marcou parte de sua trajetória no Milan. A ideia central desse modelo é simples apenas no desenho: quatro defensores, três meio-campistas, dois jogadores por dentro e um atacante de referência. Na prática, é uma armadilha de corredores. Fecha o centro, dá superioridade por dentro, atrai o rival para zonas previsíveis e libera talento para decidir em diagonais curtas.
Desta forma, contra o Japão, a tendência mais provável é Ancelotti usar uma versão brasileira dessa árvore: um 4-3-3 que se comporta como 4-3-2-1 em muitos momentos. O Brasil deve tentar controlar o meio, acelerar menos por ansiedade e mais por precisão, proteger-se após perda de bola e atacar o espaço atrás dos alas japoneses. A missão é impedir que o Japão transforme recuperação defensiva em corrida vertical. Em linguagem romana: primeiro monta-se o acampamento, depois se avança sobre a colina.
Mesmo porque, Ancelotti sabe que o Japão não pode ser tratado como figurante de filme histórico. Em outubro de 2025, os japoneses viraram sobre o Brasil por 3 a 2, em Tóquio, após estarem perdendo por 2 a 0. A derrota virou lembrete. O samurai não pede licença quando percebe a porta aberta. Ele entra, cumprimenta, faz o gol e ainda deixa o vestiário organizado.
No caso do treinador japonês, Hajime Moriyasu costuma trabalhar com estruturas de três zagueiros, variações em 3-4-3 ou 3-4-2-1, laterais/alas agressivos e recomposição que vira uma muralha de cinco homens. Seu Japão não se limita a correr. Ele alterna pressão, posse curta, ataque rápido e paciência. Quando precisa, aceita baixar a linha, preservar energia e lançar jogadores frescos no segundo
tempo. Foi assim que construiu sua imagem desde a Copa de 2022, quando mudanças no intervalo e substituições mudaram jogos contra seleções europeias. O Japão aprendeu a parecer quieto antes de ficar perigoso.
Contra seleções latino-americanas, a amostra mais útil é o próprio Brasil. Na vitória japonesa de 2025, Moriyasu deu ao grupo uma frase de guerra: desafiar o Brasil como igual. Essa é a chave psicológica. O Japão não entrará em Houston pedindo autógrafo. Entrará com plano: fechar o centro, pressionar a saída quando o passe brasileiro ficar quadrado, atacar as costas dos laterais, cruzar rasteiro, acelerar no erro e transformar qualquer distração emocional da Seleção em um pequeno terremoto.
Por um lado mais filo-literário, a biblioteca de Moriyasu também existe. Há obras japonesas associadas a seu nome e ao seu método, livros que analisam sua forma de decidir, entre eles Moriyasu Hajime no Kimeru Gihō, de Seijun Ninomiya, e Gyakuten Kantoku Moriyasu Hajime, de Shinya Kizaki. Não se trata de manual secreto de vestiário. Trata-se de leitura sobre liderança sem estrelismo, decisão rápida e gestão de grupo. Moriyasu parece menos um general de discurso inflamado e mais um técnico de relógio suíço fabricado em Hiroshima.
Ancelotti tem Vegetius no bolso direito - o autor citado escreveu "De Re Militari", na qual defende a retomada dos métodos de organização e treinamento usados no passado nas legiões romanas, descrevendo-os a partir de várias fontes. Então ele entende a mensagem romana: quem quer a vitória deve treinar com disciplina e lutar com estratégia, não ao acaso. Desta forma, o italiano precisa entrar com a serenidade das legiões, ou seja, linha curta, meio povoado, cobertura imediata, paciência para cansar a organização japonesa e frieza para não dar ao rival o caos que ele procura.
Mas seu adversário, o treinador Moriyasu tem no banco outra lógica: Miyamoto Musashi - cuja obra, "Livro dos Cinco Anéis", conta que Musashi nunca teria sido derrotado em um duelo, apesar de ter enfrentado mais de sessenta oponentes, algumas vezes mais de um simultaneamente. Isto é, com base nesse conceito japonês, tudo depende do ritmo. Musashi ensinou que há tempo certo para avançar, recuar, acelerar e cortar. Fica, então, claro que o Japão do técnico Moriyasu vive disso. Parece lento quando convida o rival. Parece rápido quando encontra o vazio. Parece derrotado quando está apenas esperando o adversário respirar errado.
Ao fim, Brasil x Japão será menos uma partida comum e mais um duelo entre dois modos de vencer. Ancelotti tentará vencer pela experiência que organiza o talento. Moriyasu tentará vencer pela disciplina que transforma paciência em golpe. Roma levará sua ordem. O Japão levará seu silêncio. A bola decidirá qual biblioteca será aberta na manhã seguinte.
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