Alexandre Maia Lago. (Facetubes National Award)
Um argentino indiferente a futebol e vinho. Perguntada sua opinião a respeito da presidente Isabelita Perón, foi sucinto: “Prostituta. Igual à outra”. A “outra”, no caso, era a falecida Evita, ex-mulher do caudilho Juan Perón, e coisa quase sagrada para as multidões de então. Sobre o compatriota Che Guevara, de coragem reconhecida mesmo pelos inimigos, asseverou apenas: “Esse sujeito me incomoda profundamente”.
Nos dias em que até a lua se assombrava com a violência de Estado assolando a América do Sul, e seu país, em especial, ele dizia ignorar “essas coisas de torturas e desaparecimentos”. E quando a iminente retomada das Malvinas pelos ingleses eriçou o nacionalismo argentino numa explosão ufanista, dele não se ouviu nada além da singela analogia: “uma briga de dois carecas por um pente”, deixando claro tratar-se, talvez, da única guerra do mundo movida por algo inútil, uma ilha estéril e quase inabitada.
Já na casa dos cinquenta anos, ainda morava com a mãe, a quem dava satisfações de seu paradeiro, companhias e atos. Viveu sob as ordens dela até a velhice... dele. Provavelmente o filho idealizado pela maioria das mães e, unicamente, existido na figura deste escritor. Este foi Jorge Luis Borges, pelo menos o decifrável. Pois existia outro Borges, enigmático e nada ingênuo, que nele habitava.
De origem abastada e com umas desbotadas tintas aristocráticas, passou parte da juventude em Genebra até regressar à Argentina. De repente, a morte do pai fez minguar o conforto da família e, um dia, já estava dando expediente numa obscura biblioteca pública no subúrbio portenho.
Acaso e destino — esses imponderáveis — pregariam outra peça neste que parecia já estar com seu fardo definido. Suas poesias, ensaios e contos publicados em revistas literárias tornam-se objeto de interesse de certo público. Em crescimento exponencial, sua obra e seu nome ultrapassam os limites de sua Buenos Aires e batem asas sobre o território argentino, indo muito além. Sua exuberante erudição, metáforas inteligentes, analogias precisas e elegância verbal pouco a pouco consolidavam também um tímido e arredio senhor num exímio e popular palestrante. Ia ganhando o mundo...
Algum tempo depois, encontramo-lo disputado por numerosas plateias em universidades da Europa e dos Estados Unidos, assistindo, encantadas, a ele dissecar, tão natural e descontraidamente, literatura chinesa de uma dinastia perdida no tempo, poesia persa e babilônica de época qualquer ou antigas epopeias literárias saxônicas e vikings.
Nenhum público, especializado que fosse, o intimidava se o assunto fosse literatura. Se acrescentasse filosofia, tanto melhor. “Quem é esse sul-americano que vem nos ensinar literatura francesa... em francês perfeito?” Impressionaram-se os primeiros estrangeiros a descobri-lo. Os soberbos ingleses tiveram a mesma impressão.
A grande amiga e paixão platônica dele, Stela Canto, que já o conheceu adulto, disse quase nunca tê-lo visto lendo um livro, o que sugere ter Borges arquivado uma biblioteca na memória ainda jovem. De fato, aos nove anos já lidava com os clássicos, mergulhou nas Mil e Uma Noites, foi admirador de Kipling, Poe, Chesterton e da filosofia de Schopenhauer. Mas dizia, numa tirada bem borgiana, acreditar que “os autores é que fazem os seus precursores”.
Sua obra consiste em contos, poesias e prosa. Nunca escreveu um romance. A ilusão da existência, tempo e memória; o destino manifesto, já escrito, e alheio aos projetos humanos; mistérios teológicos e o bas-fond portenho são marcas indeléveis de seu universo literário.
Ler Borges é, muitas vezes, deparar-se com a nossa própria imaturidade literária. Daí as releituras serem essenciais para melhor percepção das tramas e de suas conclusões desconcertantes.
Seu repertório é instigante: um teólogo que, após reformulações de profundo estudo, revela que Judas, e não Jesus, é Deus; um soldado romano que se lança no interior da África em busca de cidades desaparecidas do mundo helênico conclui ser ele próprio Homero; dois teólogos antagônicos, um ortodoxo, outro herético, passam a vida discordando e, ao chegarem ao céu, descobrem serem a mesma pessoa diante de Deus, pois a individualidade seria uma ficção... É assim o autor de O Aleph, Ficções e História Universal da Infâmia.
Nomeado diretor da Biblioteca Nacional, a cegueira degenerativa agressiva não mais lhe permitia ler. “Ironia do destino que me concede ao mesmo tempo 800 mil livros e a escuridão”.
Certa vez, numa universidade americana, foi interrompido por um jovem negro que passou a falar da luta antirracista e a acusar os brancos. Tempos depois, referiu-se ao episódio como “uma espécie de fascismo às avessas”. À insinuação de racismo, refutou peremptório, dizendo, porém: “apenas não conheço o Einstein do Congo”.
Foram opiniões como essas e aquelas que lhe fecharam as portas ao Nobel, prêmio muitas vezes não limitado ao critério literário. Uma injustiça cuja lembrança descora um pouco a glória de alguns agraciados com a distinção sueca. Logo ele, para quem política era “uma das formas de manifestação do tédio”.
Tornou-se disfarce vistoso de alguns dizerem-se admiradores daquele que os intrínsecos labirintos do destino tornaram um ícone cult. Incluir Borges numa conversa ou dizer-se seu leitor desde sempre é maneira de mostrar-se ocupando um andar intelectual superior. É ostentar um imaginário título de proficiência literária. Suspeito que fazer isso também é homenagear alguém que divertia-se com essas coisas.
No fim da vida já condenava as atrocidades ocorridas durante a ditadura em seu país e falava abertamente contra seus autores. No entanto, a consciência tardia dessas coisas deixaria seu nome para sempre vinculado às opiniões anteriores.
Mais de uma vez agiu de maneira a indicar incômodo em ser argentino, implícito na frase “geografia é destino”. Diagnosticado com câncer no fígado, escolheu Genebra para morrer e ser enterrado. Cobrado pela imprensa por essa decisão, foi lacônico:
“Sou um homem livre”.
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