Esmeralda Costa
Campos Sales-CE
Membra da Academia Poética Brasileira, Academia Cearense de Literatura de Cordel, Academia Internacional de Literatura Brasileira e Academia Groairense de Letras.
No dia 30 de junho, o Cariri escreveu mais um importante capítulo na história da cultura popular brasileira com o lançamento da primeira Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura. A iniciativa nasce com a missão de promover pesquisas, preservar a memória cultural e fortalecer as tradições do cordel e da xilogravura, garantindo que esses saberes continuem vivos e inspirem as futuras gerações.
Em tempos em que a velocidade da tecnologia parece querer apagar as marcas do passado, é reconfortante receber a notícia da criação da primeira Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura. Não se trata apenas da inauguração de um espaço de formação, mas da afirmação de que a cultura popular continua viva, necessária e capaz de dialogar com o presente sem abrir mão de suas origens.
O Cariri, berço de tantas manifestações culturais que encantam o Brasil, assume mais uma vez o protagonismo ao acolher uma iniciativa que une memória, pesquisa, formação e inovação. Não poderia haver lugar mais simbólico para esse nascimento do que a Lira Nordestina, templo sagrado do cordel e da xilogravura, onde tantas histórias ganharam o mundo impressas em papel e ilustradas por mãos talentosas.
O cordel nunca foi apenas literatura. Ele é documento histórico, instrumento de educação, registro da identidade nordestina, voz do povo e patrimônio afetivo de gerações. Cada folheto carrega muito mais que versos rimados: guarda costumes, crenças, lutas, alegrias e a sabedoria popular que resiste ao tempo.
Também merece destaque a valorização das mulheres nesse projeto. Durante muito tempo, o universo do cordel foi visto como um espaço predominantemente masculino. Hoje, felizmente, vemos crescer a presença de cordelistas, repentistas, cantadoras e xilógrafas que escrevem novas páginas dessa história, ampliando horizontes e mostrando que a cultura popular pertence a todos.
Entretanto, nenhuma escola, por mais importante que seja, conseguirá cumprir plenamente sua missão se caminhar sozinha. Será indispensável o envolvimento das academias literárias, dos cordelistas, dos mestres da cultura, das universidades, das escolas, dos gestores públicos e da sociedade. Preservar o cordel não é responsabilidade de uma instituição; é compromisso coletivo.
Que essa escola seja um espaço onde tradição e inovação caminhem lado a lado. Que forme novos artistas, pesquisadores e leitores. Que desperte nas crianças e nos jovens o orgulho de sua própria cultura. Que transforme memória em futuro.
O cordel não pertence apenas ao passado. Ele continua escrevendo o presente e inspirando o amanhã. E enquanto houver quem conte histórias em versos, quem grave sonhos na madeira e quem enxergue na cultura popular um patrimônio vivo, o Nordeste seguirá ensinando ao Brasil que suas raízes são, também, o caminho para o futuro.
A escola de Literatura de Cordel e Xilogravura é antes de tudo, um espaço que ensinará o Brasil a preservar a própria memória.
Existem acontecimentos que nascem grandes não pelo investimento financeiro que recebem, mas pelo legado que deixam para as futuras gerações. A implantação da Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura é um desses momentos históricos. Seu surgimento representa muito mais que a criação de um espaço de formação artística: simboliza o compromisso de um país com a preservação de um dos mais ricos patrimônios de sua identidade cultural.
O cordel nasceu da voz do povo. Cresceu nas feiras livres, percorreu estradas de barro, atravessou sertões e encontrou abrigo nas mãos de poetas que transformaram a simplicidade da vida em versos eternos. A xilogravura, por sua vez, deu rosto a essas histórias, eternizando personagens, paisagens e tradições em matrizes de madeira cuidadosamente talhadas. Juntas, essas duas expressões artísticas construíram uma narrativa genuinamente brasileira, reconhecida dentro e fora do país como um dos maiores símbolos da cultura popular.
A nova escola surge exatamente para garantir que esse patrimônio continue vivo. Não apenas preservado em museus, estantes ou arquivos, mas presente no cotidiano das pessoas, sendo estudado, praticado, reinventado e compartilhado. Preservar não significa congelar a tradição; significa permitir que ela continue respirando, dialogando com o presente e inspirando o futuro.
A escolha da Lira Nordestina como espaço de referência fortalece ainda mais esse propósito. Ali repousa uma parte significativa da memória do cordel brasileiro. Cada folheto impresso, cada matriz de xilogravura e cada história preservada naquele ambiente testemunham décadas de resistência cultural e do esforço de homens e mulheres que dedicaram suas vidas à valorização da arte popular.
Outro aspecto que torna essa iniciativa grandiosa é sua proposta de unir tradição e inovação. Ao promover pesquisas, formação de novos artistas, tratamento técnico de acervos, intercâmbio de saberes e diálogo com áreas como a economia criativa, o design e a educação, a escola demonstra que a cultura popular pode caminhar lado a lado com os desafios do século XXI. O passado deixa de ser apenas lembrança para tornar-se ferramenta de transformação social.
É igualmente importante destacar a valorização dos mestres e das mestras da cultura popular. Durante décadas, muitos deles mantiveram viva a chama do cordel e da xilogravura mesmo diante da escassez de incentivos. Seus conhecimentos foram transmitidos de geração em geração pela oralidade, pelo exemplo e pelo amor à arte. Agora, a escola reconhece oficialmente esses saberes como fonte legítima de conhecimento, colocando seus protagonistas no lugar que sempre lhes pertenceu: o de verdadeiros guardiões da memória brasileira.
Também merece celebração o protagonismo crescente das mulheres. Cordelistas, repentistas, cantadoras, pesquisadoras e xilógrafas vêm ampliando significativamente sua participação nesse universo, enriquecendo a literatura de cordel com novos olhares, novas narrativas e diferentes perspectivas. A diversidade fortalece a tradição e demonstra que a cultura popular é um espaço aberto ao diálogo e à renovação.
Mais do que formar artistas, a Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura poderá formar cidadãos conscientes de sua própria identidade cultural. Em um mundo cada vez mais globalizado, conhecer as próprias raízes torna-se um exercício de pertencimento. Um povo que conhece sua história valoriza seu patrimônio, respeita sua diversidade e compreende que a cultura é um dos pilares da cidadania.
Que esta escola seja apenas o início de um movimento ainda maior. Que inspire políticas públicas permanentes para a cultura popular, fortaleça as instituições que atuam na preservação do cordel, incentive pesquisas acadêmicas, desperte novos leitores e forme artistas comprometidos com a continuidade dessa tradição.
Porque preservar o cordel não é apenas conservar folhetos antigos ou matrizes de madeira. É proteger a memória de um povo. É garantir que as vozes dos nossos antepassados continuem ecoando nas feiras, nas escolas, nas bibliotecas, nas universidades e nos corações daqueles que acreditam que um país só conhece verdadeiramente o seu futuro quando aprende a cuidar da própria história.
A Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura nasce, portanto, como um farol para a cultura nacional. Um espaço onde memória, educação, arte e identidade caminham de mãos dadas, iluminando o caminho para que as futuras gerações continuem escrevendo, em versos e gravuras, a história viva do Brasil.
Para ler mais: https://www.instagram.com/reel/DaOdjteIihL/?igsh=MjY0ZjljNGNtZmdw
Mais informações: https://www.instagram.com/reel/DaOmI_uxyvz/?igsh=MTE1d3ZpM3VmcWduNw==
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