Por José Carlos Castro Sanches. É convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.
"Os dois dias mais importantes da sua vida são o dia em que você nasce e o dia em que descobre o porquê." (Mark Twain)
A história de Markus Persson, o "Notch", guarda a precisão de uma parábola contemporânea. Ele realizou a alquimia moderna: transformou blocos virtuais de pixel em um império de dois bilhões e meio de dólares. Aos 35 anos, alcançou o topo do Everest financeiro, o lugar onde o mundo jura que reside a paz absoluta. No entanto, do alto daquela montanha de ouro, o que se ouviu foi um eco de solidão. Faltava-lhe o ar do propósito. Ao vender sua criação, ele não vendeu apenas uma empresa; vendeu a sua rotina de herói, o direito de errar, consertar, dialogar com o mundo e, fundamentalmente, a sua razão de despertar. O dinheiro resolveu todas as equações externas, mas deixou intacta — e vazia — a pergunta que ecoa no travesseiro todas as manhãs.
"A felicidade não se encontra nos bens exteriores; a alma é a morada da nossa verdadeira sorte." (Demócrito)
Essa trajetória nos ensina que a nossa arquitetura interna não foi feita para o repouso absoluto. Fomos projetados para o movimento, para o processo da construção. O que nos faz levantar da cama todos os dias não é o palácio pronto, mas o tijolo que assentamos hoje. É o desafio que nos convoca, a sensação de que nossa presença e nossa ação importam no tecido da realidade. Quando transformamos a linha de chegada no único objetivo da existência, corremos o risco de descobrir que a vitória, sem o suor da caminhada, pode ser um deserto assustadoramente silencioso.
"Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como." (Friedrich Nietzsche)
Contudo, a grande maioria de nós não acorda em mansões bilionárias. Acordamos na crueza do cotidiano, onde uma legião de situações adversas tenta, sutilmente, sabotar a nossa decisão de levantar e lutar. O primeiro grande sabotador é o peso da rotina automatizada, que transforma os dias em repetições incolores, esvaziando o sentido do trabalho. Há também o fantasma da ansiedade pelo futuro e a frustração pelos planos que falharam, que sussurram ao ouvido que "não vale a pena tentar de novo". Soma-se a isso o cansaço crônico — físico e mental — e a cilada do conforto anestésico da própria cama, que se disfarça de abrigo para nos impedir de enfrentar o mundo exterior.
"A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em nos levantarmos sempre que caímos." (Confúcio)
Para nos libertarmos dessas amarras que nos paralisam sob os lençóis, precisamos redefinir a moeda com que pagamos nossos dias. A libertação não exige uma revolução financeira, mas um realinhamento do olhar. É preciso resgatar a autonomia sobre as pequenas ações, transformando a obrigação em escolha. Se a rotina sabota o sentido, devemos criar "micro-missões" diárias que alimentem a alma: o prazer de ler ou escrever uma página, o cuidado com alguém, o refinamento de um projeto pessoal ou a busca por solucionar um problema antigo.
"Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis." (Sêneca)
Para vencer os sabotadores do desânimo, o segredo está em apaixonar-se pela alvenaria da vida, e não apenas pelo edifício concluído. Aprendemos com Markus que o ouro acumulado não compra o entusiasmo do amanhecer. O que nos liberta da inércia é a coragem de assumir, todas as manhãs, o papel de criadores da nossa própria história, descobrindo que o verdadeiro luxo é ter um motivo justo e íntimo para colocar os pés no chão.
"O propósito da vida não é apenas ser feliz. É ser útil, ser honrado, ser compassivo, fazendo com que faça alguma diferença o fato de ter vivido e vivido bem." (Ralph Waldo Emerson)
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José Carlos Castro Sanches. Quimico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cutural.
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