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Poesia é néctar que cura e fere, dependência vital entre verso e poeta; imortais enquanto duram

Entre Aristóteles e Horácio, o poema revela sua lógica hermética. É uma centelha que acende e evapora, decanta o indizível e exige medida; salva e arrisca, porque só existe no corpo do autor e na intensidade de quem lê. É o que dizem JOÃO BATISTA DO LAGO, LUCIAH LOPEZ, RONALDO COSTA FERNANDES E AUGUSTO PELLEGRINI, neste “Sexta Poética”.

12/09/2025 às 09h39 Atualizada em 12/09/2025 às 10h10
Por: Mhario Lincoln Fonte: Facetubes
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Arte: mhl
Arte: mhl

Editoria de Literatura e Arte da Platforma Nacional do Facetubes

 

A imagem da poesia como néctar é precisa porque revela a ambivalência de um concentrado afetivo: cura e adoece, reacende e evapora. Há sempre um resíduo volátil — a “centelha” que se desprende do poema e volta ao ar — que expõe a fragilidade do texto diante de quem o escreve. Nessa troca, o poeta depende do poema para organizar o indizível, e o poema depende do corpo e do tempo do poeta para existir. Daí o paradoxo que o define: ambos são “imortais, enquanto durarem”, sobrevivendo na intensidade do impacto que deixam e não na duração do suporte que os contém.

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Essa dependência é também uma ética do ofício. O poema salva quando decanta o excesso e o transforma em forma; fere quando devolve, sem anestesia, o que estava oculto. O néctar, aqui, não é açúcar — é medida. Porque controla a dose do vivido para que a revelação não destrua o autor, nem a beleza falseie a experiência. O poeta amadurece quando aceita essa troca de perdas e ganhos, reconhecendo que cada verso exige renúncia, precisão e um pacto com a própria instabilidade.

Entre os clássicos, Aristóteles ajuda a ler esse “todo hermético”. Para ele, a poesia “é mais filosófica e mais elevada que a história” porque busca o universal — aquilo que pode acontecer segundo necessidade e verossimilhança — e, por isso, fecha-se como organismo com lógica interna, resistente à paráfrase apressada. 

Já Horácio reforça esse caráter de composição autônoma ao propor o “ut pictura poesis”, isto é, como a pintura, a poesia pede leitura atenta de suas relações internas — ritmo, imagem, silêncio —, não apenas de seu assunto. 

Por isso, a Plataforma Nacional do Facetubes escolheu para esta "Sexta Poéticas", grandes nomes, abaixo, citados:

 

SONAMBULIA
De João Batista do Lago

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Enquanto caminhava solitariamente só
nas madrugadas infinitas pelas ruas da cidade
perdida em suas trevas
eu sentia que a brisa madrugadeira
com seus tentáculos de sentimentos
afetava meu corpo desnudo pelas ruas negras
naquele instante percebia clarividente
que da minha geração as melhores mentes
eram destruídas pela loucura da fome histérica
e lentamente ia me arrastando pelas ruas de trevas
buscando um amanhecer qualquer
na tentativa de inocular toda minha solução raivosa

*******

PRIMÁRIA
Luciah Lopez

Casualmente amanhece.
As flores acordam.
Oscilantes entre as cores 
e percorrendo as distâncias do pólen
os meus olhos despertam ao contentamento da manhã.
O dia é uma fonte inesgotável de possibilidades.

O inviável, o imutável caminham juntos na textura do mundo
e os fantasmas da noite passada já não assustam mais.
Assim como as flores, a vida se reinventa.

 

SETEMBRO

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em sua primeira noite,
o vento e a conversa "fiada" [quem sabe, role a noite inteira]
até o orvalho apagar os passos
nas calçadas de petit pave ou
até que o meu olhar descanse em um ponto qualquer.
Setembro...
setembro com suas noites
e a lua - desabotoada,
meio que caindo do céu
fará meu vestido parecer tão alvo,
enquanto eu - olhando a cidade e suas esquinas
suas pedras
suas praças
seus caminhos em preto e branco
suas flores cor de rosa
suas luzes mortiças ( ! )
eu, eu vou tomar uma taça de vinho
e ouvir blues vivenciando os seus dias_________ setembro.

**********

SONETO QUEBRADO... E ALQUEBRADO

Augusto Pellegrini

É noite.
Como se fosse um sonho
(e a gente sonha mesmo, ainda acordado),
eu vejo a flor gentil que se aproxima,
se alegra todo o meu olhar tristonho
a cada metro e a cada passo dado.
Desfaz-se o sonho e tudo se ilumina.
É doce a noite, é doce a musa, é sonho.
É pra você este meu versejado,
pra doce e meiga musa, flor, mulher, menina.
-0-0-0-
É noite.
A solidão se arrasta
(e a gente vê fantasmas pelo quarto).
A doce imagem já não mais existe,
o olhar opaco permanece triste,
e aquela flor cada vez mais se afasta.  
Desfazem-se ilusões; tudo o que trago
é uma realidade dura após vinte anos
feitos de má certeza e desenganos.
É pra você este meu verso amargo.

***********

Bicho silvestre

Ronaldo Costa Fernandes

 

Meu coração tem bico e pio.
Ouço às vezes à noite
o piar do bicho.
Ave, coração.
Ao correr mundo parado,
ele bica como um pica-pau.
Queria tirá-lo
da gaiola das vértebras,
mas solto é bicho bruto
que, tanto em cativeiro,
não sabe viver em liberdade.
Coração é bicho silvestre,
difícil de domesticar.

 

Arte: Ginai/MHL. Estilo cubismo

 

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JAIMEHá 9 meses BSB/DFE muita erudição.
JaimeHá 9 meses BSB/DFQue magnífica publicação acima.
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