Editoria de Análise Gramatical da Plataforma Nacional do Facetubes
Quando alguém abre uma cerimônia dizendo “sejam todos bem-vindos”, estaria deixando as mulheres em segundo plano? A pergunta parece simples, mas exige separar duas realidades: o gênero gramatical e o gênero humano. Na gramática normativa, “todos” pode designar exclusivamente um conjunto masculino ou assumir valor genérico, abrangendo homens e mulheres. Já “todas”, quando se refere a pessoas, identifica tradicionalmente um grupo feminino. O sentido exato de “todos”, portanto, depende do contexto em que a palavra aparece.
Essa diferença decorre do princípio linguístico da marcação. Na estrutura tradicional do português, o masculino funciona como forma não marcada, enquanto o feminino é a forma marcada. “Não marcado” não significa superior, mais importante ou naturalmente dominante. Significa apenas que essa forma possui “emprego mais amplo dentro do sistema”, disse o professor de Português Amilcar Jabbah, pesquisado pela editoria.
Por isso, “alunos” pode designar um grupo de rapazes ou uma turma composta por rapazes e moças; “alunas”, ao contrário, delimita um grupo feminino. Essa descrição aparece nas gramáticas de Celso Cunha e Lindley Cintra e também nos estudos linguísticos inspirados em Joaquim Mattoso Câmara Jr.
Por que, então, a língua não escolheu “todas” como forma coletiva? Porque as línguas não são construídas por uma comissão que, em determinado momento, distribui democraticamente suas regras. Elas se formam por sucessivas mudanças históricas, repetições, analogias e convenções sociais.
Segundo a análise estrutural de Joaquim Mattoso Câmara Jr., o masculino funciona, em determinados contextos, como forma não marcada, podendo abranger grupos mistos, enquanto o feminino aparece como forma marcada ou particularizada. Poderia ter ocorrido de outra maneira, mas não ocorreu.
Isso não significa que toda palavra gramaticalmente feminina represente mulheres: “a pessoa”, “a criança”, “a testemunha” e “a vítima” podem designar um homem. Da mesma forma, “o indivíduo” pode designar uma mulher. Gênero gramatical e sexo biológico não mantêm uma correspondência absoluta.
No caso de “sejam bem-vindos”, o adjetivo acompanha um grupo masculino ou misto subentendido. A construção está correta na norma-padrão. Também são corretas as expressões “sejam bem-vindos e bem-vindas” e “sejam todas e todos bem-vindos”, quando o objetivo é dar visibilidade explícita às mulheres.
Há ainda soluções mais naturais e economicamente elegantes: “damos as boas-vindas a todas as pessoas”, “recebemos com alegria quem chega”, “agradecemos a presença do público” ou simplesmente “boas-vindas”. Nesses casos, obtém-se inclusão sem violentar a estrutura da língua nem transformar cada frase em uma sequência cansativa de duplicações.
O argumento mais forte favorável à explicitação do feminino afirma que uma palavra pode ser inclusiva na gramática e continuar produzindo uma imagem predominantemente masculina na mente do leitor. Estudos psicolinguísticos realizados com línguas que possuem masculino genérico, especialmente o francês e o alemão, indicaram que formas masculinas empregadas com intenção coletiva frequentemente levam os participantes a imaginar mais homens do que mulheres.
Uma revisão publicada na revista Language Sciences concluiu que, em idiomas com gênero gramatical, a dupla função do masculino — específica e genérica — favorece representações mentais inclinadas para o homem. Pesquisas sobre processamento da linguagem também mostram que muitos leitores têm dificuldade para interpretar imediatamente essas formas como verdadeiramente universais.
Há, portanto, um argumento social consistente: dizer “todas e todos” pode funcionar como gesto deliberado de visibilidade. Não se trata necessariamente de corrigir um erro gramatical, mas de produzir determinado efeito político e comunicativo. Em uma assembleia formada majoritariamente por mulheres, por exemplo, a insistência automática em “todos” pode soar distante da realidade concreta daquele ambiente.
Mas há um argumento contrário, igualmente forte, que sustenta que não se pode acusar de machismo todo falante que emprega o masculino genérico. “Todos” permanece uma forma correta, histórica, econômica e semanticamente capaz de representar a coletividade. Transformar uma regra de concordância em prova automática de preconceito seria confundir a organização interna da língua com a intenção moral de quem fala.
O próprio uso de “todos e todas” não resolve integralmente o debate, pois continua organizado em apenas duas categorias e pode não contemplar pessoas que não se reconhecem nessa divisão. Além disso, repetições constantes como “os alunos e as alunas”, “os professores e as professoras” e “os brasileiros e as brasileiras” podem comprometer a fluidez de textos longos.
Enfim, a solução mais inteligente não está na perseguição às palavras nem na recusa absoluta das mudanças. Está na adequação. “Todos” continua correto. “Todas e todos” pode ser uma escolha legítima de ênfase. Expressões como “todas as pessoas”, “a comunidade”, “o público”, “quem participa” e “boas-vindas” oferecem alternativas claras e elegantes.
O bom escritor não precisa transformar a língua em campo de batalha, mas deve compreender que nenhuma escolha verbal é inteiramente vazia de história. A língua não é culpada nem inocente: é um patrimônio coletivo no qual a sociedade registra, consciente ou inconscientemente, suas hierarquias, seus conflitos e suas transformações.
...............
Fontes consultadas: Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo; estudos sobre gênero gramatical publicados nas revistas Alfa e DELTA; Ciberdúvidas da Língua Portuguesa; Pascal Gygax e colaboradores, pesquisas sobre o processamento cognitivo do masculino genérico; estudo sobre estereótipos de gênero em representações computacionais da língua portuguesa.
Mín. 14° Máx. 29°
Mín. 14° Máx. 17°
Chuvas esparsasMín. 14° Máx. 16°
Chuvas esparsas
ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA Maranhão no centro da literatura brasileira: de Gonçalves Dias à dimensão universal de Sousandrade e Ferreira Gullar
Textos de Mhario Lincoln Academia Poética Brasileira: VICEVERSA com a acadêmica Vanice Zimerman (APB-PR)
EDITORIAL DE HOJE Poema épico de Mhario Lincoln, premiado em Portugual, faz homenagem ao pai José Santos (o José de todos os santos).
Coronel Carlos Furtado DISCURSO DO CEL. CARLOS FURTADO NA AL.MA: OITO ANOS DE FUNDAÇÃO DA AMCLAM